Foto:
Reprodução de uma fotografia oferecida pelo fotografado a Acácio de
Oliveira. Lêem-se, registadas, no reverso, as notas bibliográficas que
se seguem: «Meu muito amigo Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro,
chefe da colónia que primeiro veio para Mossãmedes, de cuja povoação
foi o núcleo em 1849. Homem, para todos os que conheciam as suas
qualidades, muito estimado, - pugnador incansável dos benefícios dos
pobres e dos órfãos... e mais útil aos estranhos que a sí próprio». (a) Acácio de Oliveira.
Para ficarmos com uma ideia do perfil do fundador de Moçâmedes, actual Namibe irei colocar aqui vários textos a seu respeito, escritos por vários autores:
EVOCANDO A MEMÓRIA DE BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO ABREU E CASTRO. O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES
Apesar de figura pouco referida e até já esquecida nos nossos agitados dias, BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO ABREU E CASTRO, considerado
o fundador de Moçâmedes (Namibe, Angola), foi uma figura por demasiado
importante, que não pode nem deve ficar sepultado nas brumas da História.
Assim resolvemos seleccionar alguns textos, que no seu todo poderão transmitir-nos uma imagem o mais possível real daquele que foi o grande timoneiro do início da colonização do Distrito de Moçâmedes:
"...Recordai, hoje e sempre, com admiração, o homem, o herói e o mártir que fundou Moçâmedes
Terá Moçâmedes esquecido o seu fundador?
Responde-se: de todo, não!
Mas talvez não lhe tenha dado ainda o preito
de justiça, de amor, de gratidão à altura dos seus méritos.
Em 1960, o Sr Dr. António Abrantes Tavares visitou a cidade de
Moçâmedes. Regressando à Metrópole escreveu uma carta ao Sr. Dr. Vasco de
Campos relatando o que nessa cidade lhe fora dado observar.
Transcrevemos a carta:
"Moçâmedes é uma cidadezinha fresca, limpa e agradável, com um hotel
muito bom e bem arejado. A baía não é grande, mas é bonita. Tem uma bela
avenida, quase marginal, e bons prédios. Estive na Câmara, um belo edifíc antigo, onde os bárbaros já se meteram a fazer asneiras. Cavaquei longo tempo com o Secretário, homem já cheio de anos, e lhe
disse que iria à Fazenda dos Cavaleitros. Soube por ele que vivia na
cidade um parente do Patriarca de Moçâmedes e, portanto, seu parente também, e foi comigo procurá-lo para mo apresentar. É um
senhor já de setenta e muitos anos, bem conservado e dono de uma
cerâmica. Suponho que tem meios de fortuna. Chama-se José de Pina
Martins Abreu e Castro, e disse ter nascido na Quinta da Pelada, e ser
sobrinho do Dr. João Martins. Conhece ai os nossos sítios e lá esteve a
recordá-los comigo. Dei-lhe conta da parentela que por ai tinha, e
despedimo-nos depois de bem cavaquear.
O secretário da Câmara mostrou-me um mapa em tela, mandado elaborar pelo
velho governador local, onde estão assinaladas as terras das margens do
rio Bero distribuidas aos colonos. Lá está marcada a grande Fazenda dos
Cavaleiros. Prometeu-me uma cópia daquele documento, indispensável para
a história da colonização de Moçâmedes. Se o receber farei o possível
para lhe mandar também uma cópia. Finalmente meti-me num táxi, e lá fui para a Fazenda. Atravessei as
chamadas "Hortas de Moçâmedes", onde vi belos olivais, vinha, batatais,
feijoais, tomatais e demais primores, conjuntamente com bananeiras e
citrinos em bordadura. A Fazenda do seu tio-avô fica a mais de três quilómetros de distância, e
por caminho em parte bastante mau. Levava a ideia de fotografar a velha
amoreira, se existisse, e bem contente fiquei quando apareceram uma
vultuosas figueiras indígenas que de longe me pareceram amoreiras.
Cheguei bem carregado de pó, pois a parte da Fazenda que vi é agora um
areal estéril.

Num alto dominando toda a extensão do domínio rural, erguem-se as
ruínas de uma velha casa, que supunha ter sido a casa do fundador. Perto
do local há umas cubatas de pretos, e um velho deu-me uma correcta
informação dos donos da Fazenda. Foi de um branco - disse. Depois foi da
Companhia - a Companhia do Sul de Angola - e depois do Venância -
Venâncio Guimarães, e agora é de um fulano de quem disse o nome, mas eu
não o retive. Segundo o preto, as ruínas eram da casa do branco. Da amoreira, o preto não soube dar fé.
No salão nobre da Câmara, no lugar de honra, lá está o retrato a óleo do
velho Bernardino, rodeado de outros notáveis, Gostei de ver, e ergui
uma breve prece por aquele que foi, sem dúvida, um corajoso pioneiro e
homem de acção.
Aqui tem uma breve reportagem, e lamento não ter tido tempo para
cavaquear com os velhos, para ver o que haveria ainda na tradição oral. Digo-lhe porém que a lembrança do velho Bernardino vive, como um
protector da cidade, na lembrança de toda a gente, incluindo a rapaziada
desportiva. Quando disputam futebol com Sá da Bandeira, invocam
Bernardino, e quando começam a falar nele, nada lhes resiste. Ainda há
pouco tempo estavam a perder um jogo e começavam da assistência a animar
os jogadores: "Ber-nar-dino! Ber-nar-dino!" Pois acabaram ganhando, e
atribuíram ao incitamento e apoio espiritual de Bernardino!
Veja pois, como está viva a memória do grande pioneiro!".
Tudo isto é muito, mas não basta. É preciso erguer no coração de
Moçâmedes um grande monumento ao fundador! É preciso erguer no coração
de Nogueira do Cravo, um grande monumento ao maior filho daquela ridente
povoação!
Do livro: "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de
Moçâmedes" Padre José Vicente (Gil Duarte). Agência Geral do Ultramar,
1969.
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Busto de Bernardino Abreu e Castro que foi retirado no pós independência do jardim da Avenida de Moçâmedes onde se encontrava, Presentemente encontra-se retirado no Museu Etnográfico de Moçâmedes.
Bernardino - o intelectual, o militar, o patriota, o exilado que se fez colono, "Fundador de Moçâmedes"
Bernardino
Freire de Figueiredo Abreu e Castro, português, é considerado pelos
historiadores portugueses como o fundador da cidade do Namibe, no sul da
República de Angola, a antiga cidade de Moçâmedes da época colonial
portuguesa, fundada em meados do sec. XIX por colonos portugueses,
quando o areal imenso do deserto do Namibe bordejava por inteiro a baía
do soba Mossungo.
Exilado
em Pernambuco, do então Império do Brasil, Bernardino foi o mentor da
1ª colónia agrícola de povoadores portugueses, que, também eles,
radicados em Pernambuco, de lá saíram no dia 23 de Maio de 1849 (166,
entre homens, mulheres e crianças) com rota ao novo porto de Moçâmedes e
com chegada àquele porto no dia 4 de Agosto desse ano.
As
políticas de povoamento das possessões portuguesas de África estavam a
ser implementadas pelo então governo português cujo reconhecimento da
costa fora mandada pelo Barão de Moçâmedes, governador geral da
"Província de Angola" do Reino de Portugal, em finais do sec XVIII.
A
chegada desta colónia ao estabelecimento de Moçâmedes, hoje Namibe,
revestiu-se de importância crucial para o desenvolvimento rápido da
agricultura, especialmente das culturas da cana do açúcar e do algodão,
fazendo também desenvolver no plano agrícola a região planáltica da
Huíla, com a introdução de novos colonos.
Uma
biografia de Bernardino conta a história duma vida dedicada à política,
à pesquisa histórica, ao ensino e mais tarde, em Moçâmedes, à
agricultura. História que merece ser recontada para conhecermos melhor a
personalidade dum líder carismático, os seus ideais, a fidelidade às
suas convicções políticas, pessoa que se ouvia proferir o seu nome como o
fundador de Moçâmedes sem todavia conhecermos a sua vida e as suas
lutas.
AS LUTAS DE UM GRANDE LÍDER E O PATRIOTA
Nasceu
em Nogueira do Cravo região beirã perto de Coimbra e foi baptizado em
1809, ano do seu nascimento, ao que se supõe. Esteve matriculado na
Universidade de Coimbra no "1º. ano de Leis" em 1829, e no 2º. ano em
1830. Não aparece matriculado no 3º. ano. "Teria sido levado pelos
sentimentos e princípios de sua família a se alistar no exército de D.
Miguel," voluntários realistas, como tenente de caçadores. Fez a
guerra civil seguindo os ideais absolutistas de D. Miguel contra o
exército liberal de D. Pedro IV.
A
guerra civil (1826-1834) foi dura e sangrenta e originou muitas
baixas de ambos os lados. Bernardino sobreviveu e em 26 de Maio de
1834 -tinha 25 anos de idade- assinava-se a convenção de Évora Monte, de
que D. Miguel e seu partido saíam derrotados. Os seus regimentos são
dissolvidos e partiu para o exílio no dia 1 de Junho desse
ano. Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa
que defendia e passou à clandestinidade. Em Lisboa faz-se jornalista e
colabora no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo ainda os
princípios do absolutismo. Enquanto isto, outros companheiros continuam
em armas contra o governo, organizam guerrilhas. Torna-se célebre o
chefe de guerrilha Remexido que actuava no Baixo Alentejo e Algarve,
chegando mesmo a tomar pelas armas Albufeira. Curiosamente conheci duas
tetra-netas do guerrilheiro, que me disseram que, se D. Miguel tivesse
ganho a guerra civil, o seu tetravô, hoje, faria parte da galeria dos
grandes heróis nacionais. Remexido tinha o seu quartel general na Serra
de Monchique e foi mais tarde aprisionado, condenado e fuzilado no Largo
da Trindade em Faro, em 48 horas, por ter sido capturado de arma na
mão, segundo a lei. A tomada de Albufeira tomou contornos duma
verdadeira chacina e Remexido fora responsabilizado. Uma das vítimas
dessa chacina foi Jacintho d´Ayet, que deu nome a um largo de Albufeira e
curiosamente, a sua viúva e seu filho, com o mesmo nome, seriam os
padrinhos duma minha tia-bisavó, nascida em Olhão em 1840.
Mas,
o que poderia ter acontecido a Bernardino, se D. Miguel tivesse ganho a
guerra civil? Fiel que sempre fora aos seus princípios e ao juramento
que fizera, certamente não se teria exilado. A 1ª. colónia, organizada
por ele em Pernambuco não teria existido. A fundação de Moçâmedes não
seria a 4 de Agosto de 1849, (data da chegada da colónia). Não seria
invocado, nesse dia, ano após ano, nos jogos interselecções, em
aclamação e em uníssono pela claque, BER...NAR...DI...NO...
BER...NAR...DI...NO, empolgando jogadores e público, para que a sua alma
ajudasse a selecção de Moçâmedes a conquistar a vitória. O que é certo é
que ninguém se lembra duma derrota da selecção, nesses dias festivos de
comemoração do 4 de Agosto, o dia da cidade. Seria bem diferente a
Moçâmedes da minha recordação, naquele velho estádio ao fundo da
avenida, "memorial vivo" do desporto rei da terra, passado cheio de
glória, numa época em que o desporto associativo era seguido com
particular entusiasmo, avivando "bairrismos" nos jogos inter-selecções e
amor clubista nos campeonatos distritais, antes do advento dos
campeonatos provinciais. "Memorial" esse vergastado a golpes de
camartelos e picaretas nos anos 1960, apesar dos defensores de memórias
se terem oposto à sua demolição.
Após
a sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no
Brasil, fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e
dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio
Pernambucano. Escreve livros de carácter didáctico, como a História Geral
em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o2º.
sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos
Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. sobre a História
Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º.
sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História de Portugal e do
Brasil. Escreve, ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico "
Nossa Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos
entre portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de
Guararapes, na região do Recife. As saudades da Pátria e da sua terra são
enormes, Bernardino escreve: "Saudade, nome melodioso e suave, mas
enternecedor! Vocábulo sem par! Que inveja fazes a tantos povos, os
quais, por que te não sentiram, não te souberam exprimir. Ditosa língua
que tal expressão possuis! Ditosa terra que tal língua tens! Ah!. Pátria
minha! Tu o foste! Aceita cá de longe o suspiro da mais viva saudade
que te envia o desterrado filho teu."
Mas
os portugueses não estavam seguros em Pernambuco. Certos partidos
brasileiros exigiam a expulsão dos portugueses do Império. As
perseguições são particularmente intensas nos dias 8, 9 e 10 de Dezembro
de 1847. Arruaceiros espancam pelas ruas da cidade quantos portugueses
encontram. As turbas amotinadas gritam «mata marinheiros» e «não escape
um só», entravam desenfreadas nos estabelecimentos comerciais e nas casas, a
ferir e a matar, arrastando os cadáveres pela via pública.
Bernardino
decide embarcar para solo português. O objectivo agora é sair de
Pernambuco e estabelecer-se numa possessão portuguesa de África. Organiza
uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em
Pernambuco e avança com o projecto. Escreve para o Ministério da Marinha e
Ultramar a solicitar relatórios sobre Angola. Simultâneamente pede auxílio material, a fornecer pelo Estado, que permitisse o transporte de
pessoas e bens desde o Recife até local a escolher, em terras
angolanas.
Era
funcionário do Ministério Luz Soriano, que se interessou pelo caso e
enviou um relatório detalhado intitulado "Memória sobre a Angra do
Negro". A seu ver, era o local mais indicado para fixação europeia. O
relatório, mapas e tudo o que é conhecido recebe Bernardino de Luz
Soriano. O governo propõe ao parlamento o projecto para fixação no
Presídio e Estabelecimento de Moçâmedes, dos portugueses fixados em
Pernambuco, no Brasil.
É
dado apoio material aos colonos (18.000 reis, transporte e víveres)
para a viagem. Adquiriu-se 3 engenhos de açúcar, que custaram 8.000 reis
e seriam entregues a 3 sociedades ou a 3 concessionários, para
exploração. O valor seria resgatado com o produto de 3 safras, sendo o
primeiro resgate na terceira safra de laboração dos engenhos.
Providenciou-se o apoio aos doentes para que não faltasse os alimentos
próprios a estes e aos convalescentes. Uma vez chegados, o território
destinado à colónia seria dividido de forma a que não faltasse o terreno
para construção de uma habitação e formar maior ou menor
estabelecimento agrícola. Era também fornecido, nos primeiros 6 meses,
farinha e legumes pelo governo para sustento da colónia, etc.etc..
O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES
A
23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de
Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa
"Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de
Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal.
Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças.
Após
73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e
avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais
tarde Bernardino chamou de o Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas
a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes
naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que
os novos colonos íam reconstruir as suas vidas, em tranquilidade, em paz, e
em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na
História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES.
Houve
recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na
presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram
alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e
amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte
foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras.
Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar
cumprimentos ao governador geral.
No
dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos
engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira
portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21
tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com
largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas
improvisadas. Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira,
(designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros. No
dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de
Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as
autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos
marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam, em
Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras
áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de
líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia.
Mas a natureza não se compadeceu
dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se
todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde
alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a
colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco,
quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos
pão com fartura, do que padecer com fome neste deserto." Bernardino
mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim". O
governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há um
intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido
pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e
outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai normalizando.
Entretanto,
em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas, uma segunda
leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em Moçâmedes,
chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca Bracarense e no
brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes no dia 26 de
Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a pessoal
conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que trabalhou na
feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso Guimarães, 7
anos antes. Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as
adversidades e o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a
Província. Moçâmedes engradece-se rapidamente e é elevada a vila por
decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde
trabalham 280 escravos. Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da
colónia, no dia 4 de Agosto de 1859, verificaram a existência de 83
propriedades agrícolas nas margens do rio Bero, 3 no Giraúl, 2 no Bumbo,
3 em S. Nicolau, 1 no Carujamba, 3 no Coroca, 7 na Huíla.
Tinha-se
materializado o sonho do Barão de Moçâmedes, de Luz Soriano , e de Sá da
Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi graças à
liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível. Mas
havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da
escravatura. Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava.
Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos
com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser
úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por
isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre
escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são
agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal
decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos
depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.
Sabe-se
que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais
desafortunados. A sua casa foi uma espécie de hospedaria ao visitante.
Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62
anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ído em
serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla.
Não
se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado. Memoriais: somente o
grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto
muito simples no jardim, implantado cerca de 90 anos depois da sua morte.
As autoridades portuguesas não prestaram a homenagem devida. Os sobas
Mossungo, Giraúl, Moeni-Quipola e muitos outros deviam ter dado voltas
nas sepulturas pela falta de reconhecimento das autoridades locais ao
amigo que pugnou pela justiça e igualdade entre os povos e não admitia
escravos na sua fazenda, porém quase ostracizado pelas autoridades da
terra. O povo é que nunca o esqueceu e demonstrava-o nas competições
interselecções quando a claque o invocava em uníssono
BER...NAR...DI...NO, BER...NAR...DI...NO, para que a sua alma ajudasse a
alcançar a vitória.
A história da vida de Bernardino
irá perder-se como papéis imprestáveis nas prateleiras de algum arquivo.
A guerra civil de Angola após 1974, entre os movimentos de libertação,
criou uma nova diáspora em Portugal: a dos filhos de Moçâmedes. Nunca
mais será invocado o seu nome na cidade que fundou. A população que o
invocava e o respeitava já lá não se encontra a viver. Criou raízes em
Portugal e só a visita para matar saudades da infância ou rever todo um
passado deixado para trás.
Acreditemos que em algum
ponto do universo, exista plasmado, um registo eterno de vidas justas e
verdadeiras de heróis humanistas, como foi a vida de Bernardino, para
que a ciência um dia a possa trazer de volta e ajudar na concepção de um
Homem novo que esta Terra tanto necessita.
Um dia
visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na Fazenda
dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde muitos
anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num alto, a
ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de mais de
uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os colonos íam
beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e onde foi
sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe da
República de Angola. Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
Texto publicado por Cláudio Frota em www.memoriaseraizes.blogspot.com
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Do livro “Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes – Namibe – (Angola)
desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão:
«...Em
1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na
cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a
perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas
crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali
procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o
projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o
património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica
incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento
que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de
relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar
da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio
financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de
engenhos para fabrico de açúcar.
Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de
Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde
de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias
àquele arrojado empreendimento.
A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se
ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão,
inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido
saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar
terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma
carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e
Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se
pode ler:
«...Eu, que livre de orgulho, afirmo
poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir
compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de
uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente
dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e
plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a
muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a
conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de
agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar
da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações
que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza
de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber,
mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir
medidas acertadas».
Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de
extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões
assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um português,
que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria
ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.
Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063
de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos
portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil,
feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum
ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data,
mandar expedir providências necessárias para a passagem dos
mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em
África que por eles for escolhida.»
Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da
Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido
escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossâmedes para a
formação da colónia.
Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39
mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco,
rumo a Mossâmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no
brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.
Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:
«...Foram os brasileiros quem fez
lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando
tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem
insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio
deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca
«Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do
porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto,
atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o
que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»
Levando consigo máquinas, instrumentos
rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os
primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela
cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo
que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num
areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para
se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao
desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de
bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»
E se sofrimentos houveram na viagem,
nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a
paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias,
tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia
das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente,
56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores
pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais
funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca,
coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» -
Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia
sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro
vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa
elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.
No dia 1 de Agosto entrou em
Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa
Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o
que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»
Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e
examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no
dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se
avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria
cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas
provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as
autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:
«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse
quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam
acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o
menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele
pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões
africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que
houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que
havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em
Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos,
atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a
vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se
montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que
se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço
de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»
Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o
Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do
ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe.
Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são
distribuídos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos
Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet
opus», como diz o próprio Bernardino:
«É um bulício. Todos edificam casas na
povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos
Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que
dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da
Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união,
duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista
três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios
sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira),
ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em
bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra
que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas
crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará
ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver
Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou
se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».
A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um
Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr
de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim
estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos.
Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois
a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem
haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada
á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento
instala-se na alma dos colonos.
É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes
fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados
junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos
trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É
neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de
Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»
Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob
a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de
1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se
fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo
grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com
vivacidade.
Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da
ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José
Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número
dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida
fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao
da sua ilha.
Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais
importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve,
por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu
mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se
conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar
ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa
robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes
peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de
cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para
aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta,
etc. etc.
Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples
rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a
pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato.
Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar
para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha
província da Huíla.
A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que
ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que
para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali
construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na
várias redes e pescar.
A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes
as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a
construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em
abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a
contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que
achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento
teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo
quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de
cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as
adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.
E foi assim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se transferiram, do
Algarve para Mossâmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal
de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a
quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro
junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria
Peyroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S.
Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como
atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se
numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.
Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossâmedes.
Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de
Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local
conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito
que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a
preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura
de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização
de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira
tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido
grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.
Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa
africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em
moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria»
e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba
do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».
In
“Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes – Namibe – (Angola) desde a sua
ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão.
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POBRE NA VIDA, POBRE NA MORTE
".....Sim. A Historia regista o seu nome como o de um dos
meiores obreiros da pátria. Embora não lhe tenha sido prestada
verdadeiramente a justiça que lhe é devida.
Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de
1871. Tinha sessenta e dois anos de idade. Faleceu quando regressava de
Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Cauda da morte: uma
pneumonia dupla.
Não receberam bens de fortuna os seus herdeiros.
Bernardino não fora para África para ser africanista, no sentido vulgar
desta palavra. Para explorar os nativos, fazer fortuna e vir depois para
a Metrópole com réditos de nababo que lhe dessem para viver à grande e
ainda para com eles fazer ostentação de caridade-vaidade.
Pobre na vida, pobre na morte. Tão pobre que nem sequer
se sabe em que local exacto foi sepultado no cemitério que mandara
fazer, na cidade que fundara. Nem isto lhe falta para ser grande.
Sabe-se que Bernardino distribuía generosamente os seus
bens pelos companheiros mais necessitados. Distribuía-os com a mão
esquerda sem que a direita se apercebesse, o que quer dizer: sem
vaidade, sem outro motivo que não fosse a verdadeira caridade.
A sua casa era uma espécie de hospedaria. Nela se
acolhiam os homens do mar que aportavam em Moçâmedes. Nela se
congregavam pobres e ricos, que para todos chegava o pão. O seu desejo
era que todos os habitantes de Moçâmedes se sentissem bem na cidade, e
pela cidade, e por aquela região de Angola, trabalhassem sem
desfalecimentos. Escreveu um dia: "Portugal tornaria a florescer tanto
ou mais do que quando possuía o Brasil, se soubesse aproveitar-se da
utilidade que lhe podia resultar de ser senhor do centro de Angola."
Vinte anos depois da morte de Bernardino, isto é, em
1891, exactamente a 2 de Junho de 1891, era concedida à cidade de
Moçâmedes o Brasão de Armas, para distintivo honorífico do seu
município. Termos sob os olhos esse brasão, cuja leitura é : um escudo
aquartelado, tendo no primeiro quartel as armas de Portugal; no segundo,
em campo de oiro, um ramo de algodoeiro e uma cana-de-açúcar, postos em
aspa; no terceiro, em campo de prata, um barco de pesca, verde, sobre o
mar, e no quarto, em campo vermelho, um arado de oiro; em
contrapartida, um listão azul com a legenda Labor Omnia Vincit; sobre o escudo a coroa mural, e, por timbre, uma cruz vermelha florida e contornada de oiro.
O brasão é quanto a nós a mais expressiva homenagem às
virtudes do fundador da cidade. Nas armas de Portugal está assinalado o
seu fervor patriótico. No ramo de algodoeiro, na cana-de-açúcar e no
arado, o seu amor à agricultura. No barco de pesca, o incremento que deu
às pescarias da região. A legenda resume admiravelmente a constante do
carácter de Bernardino: o seu amor ao trabalho.
Desse amor ao trabalho de Bernardino e seus companheiros
nos dá conta Alfredo Felver, em artigo escrito a 04 de Agosto de 1926 no
Jornal de Moçâmedes "O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a
quatro de Agosto de 1859, ao festejarem o seu sécimo aniversário,
verificaram haver feito: nas margens do Bero, que tiveram de conquistar e
defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraúl,
três, no Bumbo, duas; em S. Nicolau, três; no Carunjamba, uma; no
Curoca, três; na Huila, sete; e, ainda a ocupação comercial dos Gambos,
da Camba, do Humbe e do Molondo, persorrenso o Sul de Angola em todas as
direcções, com as suas caravanas, e levando a sua penetração até além
Cunene, aonde iam buscar o marfim.
Pela Alfândega de Moçâmedes tinham exportado: em 1858 e em 1859: vinte e oito toneladas de
cera, vinte e um mil couros, cento e oitenta bois, quatro mil e
quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe
seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze
toneladas de batatas, e dezasseis toneladas de carne seca."
E termina o articulista:
"Que queriam que
fizessem? Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a
comoção de um sacerdote, ao abrir o relicário para mostrar a Hóstia
Sagrada. Faço-o perante o altar da Pátria, com a mesma unção com que os
sacerdotes o fazem perante Deus."
Obra sem par, a obra
de Bernardino e seus companheiros. Henrique Galvão, na sua obra Angola
-- Para uma nova política, volume 1, pág. 197, diz da obra em causa que
ela foi "uma das notáveis obras portuguesas de povoamento, constituindo o
único triunfo sério e respeitável em tal matéria".
Com razão nos
orgulhamos de Bernardino, considerando-o um dos maiores beirões de todos
os tempos. Um daqueles "varões assinalados em quem poder não teve a
morte".
In "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro,
fundador de Moçâmedes / Padre José Vicente (Gil Duarte). ... In:
Dokumentation zum staatsstreich in Guine-Bissau : im November 1980 =
Documentação sobre o golpe de Estado na Guiné
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PERNAMBUCO E ANGOLA
...«A
história da emigração para Angola de grande número de portugueses
residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com
pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está
ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira.
A campanha não limitou-se, como é sabido, a violentos artigos de jornal,
mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de Julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino
Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de
Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando
que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio,
onde fundassem uma colónia.
Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano
que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes,
no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram
mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de
guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e
o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar.
O Diário de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital,
datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira,
como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em
26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco
Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário),
comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os
que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa
do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objectos
pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer
sementes"; terrenos na colónia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6
primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado
(19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata António Sérgio de Sousa
(depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor António
Sérgio), governador da Colónia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles
dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque
ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os
seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão
surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua
aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham
as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no
Diãrio de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e
16.II.1849.
Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49,
no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice
1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos
outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo. O ataque ao
Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diário de Pernambuco de
27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam
(exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diário de 27 são 7
os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e
no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro:
"Retira-se para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de
Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer
conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua
da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do
tempo que dirigiu o colégio Santo António, querendo pagá-las, ali podem
dirigir-se". BIBLIOTECA VIRTUAL José António Gonçalves de Mello. http://www.fgf.org.br/bvjagm Proibida a reprodução sem prévia
autorização.
Origem: MELLO, José António Gonçalves de. Diário de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956
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AINDA DA COLECÇÃO ALBERTO LAMEGO
(excerto)
«(...)
Um outro volume de MSS. Contém narração muito interessante e actual,
pois está ligada a fatos da Rebelião Praieira, e diz respeito à fundação
da colónia de Moçâmedes, em Angola, por portugueses que abandonaram
Pernambuco em consequência dos maus-tratos aqui recebidos, quando da
campanha anti-lusitana que precedeu aquela rebelião. A campanha não se
limitou, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas chegou até a
agressão física e morte de portugueses de Pernambuco, por ocasião dos
célebres movimentos chamados “mata mata marinheiro”. A narrativa não tem
indicação de autor, mas é baseada em documentos oficiais, citados em
notas, e tem em apenso alguns papéis originais, contendo o relatório de
1850 do director da colónia. Intitula-se "A Colónia de Moçâmedes.
História de sua fundação segundo os documentos existentes nos Arquivos
de Marinha e Ultramar". Começa: "No ano de 1848, grande número de
cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, Império do
Brasil, desgostosos e indignados pelos vexames e insultos de que eram
alvo por parte de certas classes de brasileiros que haviam declarado
guerra implacável ao elemento português, dirigiram uma representação à
Rainha, sra. d. Maria II, declarando que muito desejariam estabelecer-se
n'alguma das nossas possessões africanas. E para levar a efeito seu
desejo, e atendendo a que eram bons colonos, mas pobres, pediam ao
governo de S.M.F que lhe prestasse os necessários auxílios. "O governo
resolveu aceitar o oferecimento dos colonos portugueses que desejavam
abandonar Pernambuco, e para esse fim, em 26 de Outubro de 1848, fez
expedir uma portaria ao cônsul português naquela Cidade, Joaquim Baptista
Moreira, para que juntamente com o cidadão português Bernardino Freire
de Figueiredo Abreu e Castro, organizasse uma Comissão, para dirigir
oportunamente a viagem dos colonos, para o porto que escolhessem, em
qualquer das províncias d'África". A comissão, composta das duas pessoas
já citadas e dos portugueses Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de
Oliveira Mello e Miguel José Alves, começou a funcionar em 27 de Março
de 1849. Em maio estava tudo pronto para o embarque. Infelizmente o
relatório não menciona o número exacto dos emigrantes, nem a composição
do grupo. Eram porém, mais de sessenta homens, afora mulheres e
crianças. Quanto à ocupação, diz o documento que "entre os colonos iria
gente muito útil para estabelecer (em Moçâmedes) a rendosa agricultura
da cana-de-açúcar e para elaborá-la com conhecimento, além de conhecer a
cultura do tabaco, café e algodão. Também iam igualmente artistas de
quase todos os ofícios mecânicos"... "Os colonos portugueses que haviam
resolvido abandonar o Brasil pelas perseguições e insultos de que ali
eram alvo e estabelecer-se n'uma das nossas possessões em África, saíram
do porto de Pernambuco a bordo da barca Tentativa no dia 23 de Maio de
1849 às 4 h. da tarde. Fundearam nessa noite no Lamarão. Ali estiveram
durante todo o dia de 24, que se passou em dar algum arranjo e a
possível comodidade aos colonos, na perspectiva de demorada viagem. A
barca fez-se de vela no dia seguinte, 25 de maio, seguida pelo brigue
Douro, navio da marinha de guerra portuguesa, encarregado de acompanhar a
barca". A viagem durou 74 dias, e durante a travessia sobreveio uma
epidemia de bexigas, havendo em certo momento 46 doentes a bordo:
"entretanto, com cerca de 200 pessoas a bordo, entre colonos e
tripulantes, só morreram 8 pessoas, 3 maiores e 5 menores"... Finalmente
chegados à África, o diretor da Colónia, que era o próprio Bernardino
Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que acompanhava os colonos, passou
a inspeccionar a região em que teriam de se fixar e, em especial, a
"extensissima várzea do rio das Mortes" que lhe pareceu "toda produtiva,
e se o for de cana, como estou inclinado a acreditar, pode ser terreno
para nove laboratórios de açúcar", diz ele em seu relatório. Seria
interessante poder verificar até que ponto a "experiência brasileira"
dos colonos teria influído na escolha da agricultura do açúcar, de
preferência a outra, e como se teria desenvolvido até os dias de hoje a
colónia de portugueses de Pernambuco emigrados para Moçâmedes. E já em
abril de 1850 o director Bernardino Freire "enviara com entusiasmo para o
ministério da marinha a primeira amostra de aguardente fabricada em
Moçâmedes. Conquanto a matéria-prima não fosse dos terrenos da colónia,
fora contudo destilada nos alambiques que o governo português dera aos
colonos"... (...) »
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
«Em 13 de Julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro,
dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos
seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavam
interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma
colónia. Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano
que se interessou em atender o pedido, indicando a região de
Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal
foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de
guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência
e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar. O Diário de
Pernambuco de 31 de Janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29,
pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Baptista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves,
secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes
facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África :
passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias;
transporte para móveis e objectos pessoais; "instrumentos artísticos ou
agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colónia a ser fundada e
uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco
depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata António Sérgio de Sousa (depois
Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor António Sérgio),
governador da Colónia a ser estabelecida em Moçâmedes. Aqueles dois
brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao
Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus
oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão
surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua
aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as
praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no
Diário de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e
16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente
a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de
navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como
aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo.
O ataque ao Recife apressou a
partida dos emigrantes. No Diário de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a
aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para
permissão de embarque). No Diário de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são
10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15
de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se para Moçâmedes o
cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro,
levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode
ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e
aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio
Santo António, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".
Fonte: MELLO, José António Gonçalves de. Diário de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.
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Nasceu
em Nogueira do Cravo, pensa-se que na Rua do Saco, filho de Alexandre
Campos de Abreu e Vasconcelos e de D. Rita de Figueiredo, foi baptizado
em 1809, ano do seu nascimento. Manteve sempre o seu estado civil de
Solteiro nunca tendo casado. Estivera matriculado na Universidade de
Coimbra no "1º. ano de Leis" em 1829 e no 2º. ano em 1830. Não aparece
matriculado no 3º. ano. "Teria sido levado pelos sentimentos e
princípios de sua família e se alistara no exército de D. Miguel,"
voluntários realistas, como tenente de caçadores. Fizera a guerra civil
seguindo os ideais absolutistas de D. Miguel contra o exército liberal
de D. Pedro IV.
A guerra civil (1826-1834) fora
dura e sangrenta e originara muitas baixas de ambos os lados. Bernardino
sobreviveu e em 26 de Maio de 1834-tinha 25 anos de idade assinava-se a
convenção de Évora Monte, de que D. Miguel e seu partido saíam
derrotados. Os seus regimentos seriam dissolvidos e partiria para o
exílio no dia 1 de Junho, desse ano.
Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa
que defendia e passou à clandestinidade em Lisboa, faz-se jornalista e
colabora no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo, ainda, os
princípios do absolutismo. Após a
sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no Brasil,
fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e
dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio
Pernambucano. Escreve livros de carácter didáctico, como a História
Geral em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo
Testamento, o2º. sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos
Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o
3º. sobre a História Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e
da Idade Média, o 5º. sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História
de Portugal e do Brasil. Escreve,
ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico " Nossa
Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos entre
portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de
Guararapes, na região do Recife.
As saudades da Pátria e da sua terra são enormes, Bernardino escreve:
"Saudade, nome melodioso e suave, mas enternecedor! Vocábulo sem par!
Que inveja fazes a tantos povos, os quais, por que te não sentiram, não
te souberam exprimir. Ditosa língua que tal expressão possuis! Ditosa
terra que tal língua tens! Ah!. Pátria minha! Tu o foste! Aceita cá de
longe o suspiro da mais viva saudade que te envia o desterrado filho
teu."
Mas os portugueses não estavam
seguros em Pernambuco. Certos partidos brasileiros exigiam a expulsão
dos portugueses do Império. Bernardino decide-se embarcar para solo
português. O objectivo agora é sair de Pernambuco e estabelecer-se numa
possessão portuguesa de África. Organiza uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em Pernambuco e avança com o projecto.
Escreve para o Ministério da Marinha e Ultramar a solicitar relatórios
sobre Angola. Simultaneamente pedia auxílio material, a fornecer pelo
Estado, que permitisse o transporte de pessoas e bens desde o Recife
até local a escolher, em terras angolanas.
A 23 de Maio de 1849, finalmente a
concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa
Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a
bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola,
então província do reino de Portugal. Após 73 dias de viagem chegam ao
destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido
por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de
Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade
toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas
sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos iam
reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território
pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia
da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES. Houve
recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito
na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl.
Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de
palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores.
No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram
distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de
Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.
No dia 21 de Outubro foi a
instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da
manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do
governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. Bernardino ergueu a
sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição
popular), no Vale dos Cavaleiros.
No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de
Moçâmedes. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer
pela "sua" colónia. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura.
Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se
pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com
quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis.
Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não
me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e
libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com
iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados
20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu
o estado de escravidão.
Sabe-se que Bernardino foi generoso
para com os companheiros mais desafortunados. A sua casa fora uma
espécie de hospedaria ao visitante.
Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62
anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em
serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla. Não se sabe
o local, no cemitério, onde foi sepultado.
Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
Uma vida de luta, sacrifício e dor na procura dos ideais que tanto
ansiava, onde certamente nem sempre foi valorizado devidamente nem na
vida nem na morte. Passados quase
duzentos anos do seu nascimento, são muitos os que na sua terra natal
desconhecem a história de tão nobre homem, no entanto já anteriormente
muita gente quis honrar seu nome. Exemplo disso mesmo, é o “Jornal O
Catre”, um jornal da década de 80, que era dirigido pelo Grupo de Jovens
Unidos a Cristo, que já em Novembro de 1985 publicava a história de
Bernardino pedindo que se fizesse justiça ao nome de tão grande figura.
Em Fevereiro de 1987, o mesmo Jornal pedia que se atribuísse a uma Rua
Nogueirense, o nome deste, e em Maio de 1988, lembrou a Autarquia que o
seu pedido ainda não tinha merecido a melhor atenção, tendo vindo
mesmo a ser feita a vontade dos Jovens e a devida homenagem a este
grande homem.
Está também planeado, para a data
em que se assinalam os 200 anos do nascimento de Bernardino, o erguer de
um busto do mesmo na terra que o viu nascer. Iniciativa louvavél em
que certamente será necessária a colaboração de todos para que se
consiga alcançar esse objectivo. Que esta pequena e abreviada biografia
sirva, para além de dar a conhecer a história de vida de tão grandiosa
figura, para mover a população Nogueirense e não só, a colaborar e a
divulgar tão nobre e justa causa.
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O Chefe da Primeira Colónia
( «Moçâmedes» 1º Volume, de Manuel Júlio de Mendonça Torres)
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro foi o ilustre chefe dessa
plêiade ousada de portugueses, que, vinda há um século do Brasil,
iniciou, no sul de Angola, a obra de civilização que admiramos.
Temos sobre a nossa mesa de trabalho um dos seus melhores repretos.
Observando-o atentamente, recordamo-nos do que ouvimos a alguns dos seus
contemporâneos, e, sobretudo, apreciando os seus escritos, e
estudando os livros e documentos que se lhe referem, vamos diligenciar
representá-lo em breves linhas.
Tinha o rosto oval, de tez acentuadamente morena. Iluminavam-no olhos
pequenos, mas vivos com expressões de mansidão, reflectindo a um tempo,
sentimentos de energia e de bondade. O cabelo era fino, corredio,
azevichado. A fronte, espaçosa. O nariz, grosso. Trazia rapado o bigode
, e usava barba de colar, que a fotografia nos apresenta branca,
correndo, muito curta, em estreita faixa, de orelha a orelha, sob o
mento. A fisionomia, simpática; as maneiras, insinuantes. A sua
presença agradava.
No prestigioso chefe da primeira colónia foram surpreendentes a
tenacidade com que organizou o grupo de colonos de 49 e a presteza que
desenvolveu, junto do Governo Central e do seu alto representante da
Colónia, para o bom êxito do empreendimento. Obstáculos, contratempos,
oposições, que grandemente lhe dificultaram a acção, tudo venceram a sua
infatigável obstinação e a sua férrea vontade.
Bernardino de Figueiredo nasceu em Nogueira do Cravo, povoação do
concelho e comarda de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra,
província da Beira Alta.
Em face da cópia paleográfica que consultámos, do seu assento de
baptismo, extraído do Livro de baptizados da freguesia de Nogueira do
Cravo de 1806 a 1830, tivemos conhecimento de que fora baptizado «em os
quatorze dias do mês de Dezembro de mil houto centos e nove». (sic)
Não se encontra neste assento, lavrado, a fls. 18, daquele livro,
existente no Arquivo e Museu de Arte da Universiadade de Coimbra, a data
do seu nascimento. Mas podemos conjecturar, com grandes visos de
exactidão, ter nascido no ano em que foi baptizado. Não é costume ser a
data dos baptizados muito distanciada da dos nascimentos. Assim,
tendo sido baptizado em 14 de Dezembro de 1809, último mês do ano,
deveria ter nascido nesse mês, ou em qualquer dos outros desse ano.
Parece-nos, pois, que, se não acertámos, não estaremos muito longe da
verdade, declarando haver nascido em 1809.
Guiados por este documento e pela árvore genealógica da família
Abranches, cujo exame nos foi obsequiosamente facultado, em sua casa,
de Galizes, povoação do Concelho de Oliveira do Hospital, pelo Sr. Dr.
Vaz Pato, inteiramo-nos de que foram seus pais Alexandre Campos de Abreu
Vasconcelos e D. Rita de Figueiredo; seus avós paternos, Manuel Nunes
de Campos e D. Joaquina de Campos, e seus avós maternos, Francisco
Abranches Freire de Figueiredo e D. Josefa Maria de Abreu e Castro, da
Casa da Torre, hoje pertencente ao nosso amável informador.
Lemos no dicionário histórico Portugal, de Esteves Pereira e Guilherme
Rodrigues (Lisboa, 1906), «que era estudante de Coimbra, quando, levado
pelos princípios e sentimentos de sua familia, se alistou nos
voluntários realistas, seguindo o partido de D. Miguel e fazendo toda a
campanha às ordens dum seu próximo parente, general das armas da
província». Da árvore acima citada, consta também que fora tenente de
caçadores do exército de D. Miguel.
Após a Convenção de Évora Monte, que, em 1834, pôs termo à guerra civil,
e extintos todos os bandos de partidários, dispersos pelo País, veio
para Lisboa, onde se conservou, durante três anos, desde 1837 até
1839, colaborando na redacção do Portugal Velho, órgão do absolutismo.
Em 1839, partiu para Pernambuco: alí se dedicou ao exercício do
magistério. E, ao mesmo tempo que desempenhava funções professorais,
escrevia livros. São dele algumas obras didácticas e um romance.
Fez parte do corpo docente do Colégio Pernambucano, onde leccionou latim, história e geografia.
Manuseámos um primeiro volume dum compêndio seu, intitulado História
Geral, dividido em seis volumes, que se denominam: o primeiro, História
Sagrada do Antigo Testamento; o segundo, História da Vida de Jesus
Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos
nossos dias; o terceiro, História Antiga e Grega; o quarto, Hostória
Romana e da Idade Média; o quinto, História Moderna; o sexto, História
de Portugal e do Brasil.
O primeiro volume que tivemos entre mãos, História Sagrada do Antigo
Testamento, é dedicado ao director do Colégio Pernambucano, José Soares
de Azevedo. Escreveu-o sob o seguinte tema, consignado na obra: A
verdade da Religião, sua antiguidade e santidade, até se demonstram de
alguma sorte por sua própria grandeza (P. de Pascal). Nele se declara a
empresa e o ano em que foi impresso: Tipografia de Santos &
Companhia, Pernambuco, 1841. E nele ainda se lê o anúncio que se segue:
«está a entrar no prelo: Resumida notícia da História da Língua e
Literatura Portuguesa, do mesmo autor.
Também nos foi dado compulsar uma outra obra de Bernardino de
Figueiredo, Nossa Senhora de Guararapes, romance histórico, descritivo,
moral e crítico, epígrafe a que estão sobrepostos os seguintes dizeres:
«Não vos conto alheias cousas».
Guararapes é a denominação dos montes que se erguem nas imediações de
Pernambuco, onde os portugueses, sob o comando de Francisco Barreto de
Meneses, alcançaram, em 1648 e 1649, duas memoráveis batalhas contra os
Holandeses, a última das quais foi extraordinariamente sangrenta, mas
gloriosa e decisiva.
Como as forças portuguesas eram muito reduzidas em confronto com as
numerosas tropas holandesas, foi a vitória atribuída convictamente a
milagre. O romance de Bernardino de Figueiredo faz alusão ao facto.
Sobre o acontecimento, é interessante recordar, a propósito, a
existência do quadro a óleo «A batalha de Guararapes» do distinto pintor
brasileiro Vitcor Meireles de Lima, falecido em 1902, autor de inúmeros
trabalhos pictóricos, como «Descobrimento e Primeira Missa do Brasil»,
«Combate de Riachelo», «Panorama da Baía e cidade do Rio de Janeiro»,
«Flagelação de Cristo» etc. ..
O romance de Bernardino de Figueiredo foi impresso em Pernambuco, na Tipografia de M.F. de Faria, em 1847.
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Instruções do Visconde de Castro ao recentemente nomeado 1º Governador
de Moçâmedes, António Sérgio de Sousa, sobre os preparativos a realizar
para o a recepção dos 1ºs colonos idos de Pernambuco. 20 de Abril de
1849.