29 outubro 2011

José Trindade e familia, o jornal «O Namibe», a poesia, a descolonização, etc...



 




Na foto: José Trindade, a esposa e os 3 filhos mais velhos, Gina (à esq.), Clarabela (à dt.), e Roberto (ao colo). Todos os filhos eram naturais de Moçâmedes. Esta foto foi tirada em 1940. Uma nota curiosa para lembrar que as duas meninas, Gina e Clarabela foram ambas, na década de 1950, basquetebolistas do Sport Moçâmedes e Benfica. 


Eis aqui mais uma família de Moçâmedes. A família Trindade, cujo «chefe» José Trindade era  proprietário da Tipografia e do Jornal «Namibe», situada na Rua dos Pescadores, e não apenas era proprietário como ele próprio escrevia muitos dos artigos que eram publicados, os quais assinava tanto como J. Trindade, como Carlos Alberto, ou ainda como REX. Para além disso, dominava também a arte de versejar, faceta da sua vida pouco desconhecida de quantos habitavam a cidade de Moçâmedes. Para que outros possam conhecer esta faceta, seguem dois dos seus poemas que me foram enviados, juntamente com a foto acima, pelo seu filho e meu colega de escola, Roberto Trindade.


Eis o 1º poema:



Moçâmedes e o Mar



Entre as águas azuis do mar uivante
e a areia fulva do deserto agreste
- como presa nos braços de um gigante-
foi, Princesa, que tu aqui nasceste!

Nasceste em terra dura e ressequida
E tens mesmo a welwitschia por irmã,
e, à força de viveres esta vida.
conquistaste a coragem de um titã!

Venceste as bravas ondas turbulentas,
enfrentaste as garrôas do Deserto,
e, após tremendas lutas bem cruentas,
mudaste a rota a um destino incerto!

Tornaste natural o que era estranho
ao dominar os fortes elementos:
nas areias fizeste o seu amanho
e ao Mar foste colher os alimentos:

Consumidos cem anos em batalhas,
és tão pobre como eras no começo,
mas, rica em fidalguia, tu trabalhas
p`r atingir as estradas do Progresso!

Agora, à custa desse teu Namibe
e da formosa Praia das Miragens
como quem ao olhar do Mundo exibe
belezas naturais, raras imagens -

Tu voltaste de novo a triunfar!
fazendo de ambos um cartaz berrante,
passaste a festejar o velho Mar,
companheiro do povo navegante.


Carlos Alberto
 


José Trindade, mais conhecido por «Zé Côco» tinha uma outra faceta. Era um fumador inveterado. Enquanto escrevia e orientava os trabalhos na sua Tipografia,  fumava cigarro atrás de cigarro, até virar «beata» a queimar-lhe a ponta dos dedos...


Eis um poema que José Trindade escreveu numa altura em que, devido à seca, a indústria tabaqueira angolana passava por uma grave crise, e, em consequência, faltou tabaco nos locais de venda em Moçâmedes, situação que agitou os ânimos dos viciados no tabaco...


Não há tabaco!


(Referência alegre à cruciante à tragédia tabaqueira ocorrida há dias)

 
As armas e os barões assinalados
que os tempos vão maus, muito envinagrados!
Não há tabaco e estamos desgraçados!
A seca foi atroz e foi completa
de deixar um parceiro mui pateta!

Desta vez não houve contemplações:
não fumaram pobres, ricos e ladrões!

Conheço fumadores consagrados
que agora apenas ... chucham rebuçados!
Conheço até uma Domingas ,
que é minha lavadeira e confidente.
Sei que adora o tabaco e as boas pingas.

E, como continua sorridente,
indaguei da maneira que ela usava
pr´enfrentar o problema. E essa avis-rara
disse: - Eu não perdi tempo , e sem mangonha
fui comprar umas doses de cangonha!...

A situação tristonha e angustiosa
veio pôr a cidade em polvorosa.
Os cigarros de filtro e os tais sem ponta
são luxo com que a gente já não conta:

Não há Deltas, Marinas, Francesinhos
e até Negritos já não têm os barzinhos!
Fumar é vício lindo que morreu
e, p´ra vida ser feita de veludo,
vamos fumar p´la ponta de um canudo,
recordando a beata que já ardeu!

E como um bom charuto custa caro,
Não fumes disso, ó meu judeu avaro!


José Trindade

 

Estas eram algumas marcas de tabaco que se vendia em Angola.
JORNAIS DE OUTROS TEMPOS EM MOÇÂMEDES: (Namibe): Jornal de Mossamedes (1881), Almanach de Mossamedes (1884), O Sul de Angola (1892), A Tesoura (1892), A Tesourinha (1892) e A Bofetada (1893).


Do "Jornal Namibe" apresentamos a seguir um derradeiro artigo, publicado em 1975, quando Portugal se preparava para pôr a funcionar, com a ajuda de potências estrangeiras, uma «ponte aérea» sem retorno que haveria de promover o repatriamento massivo dos portugueses do território de Angola, numa autêntica "limpeza étnica".


 


  

Clarabela e Gina, as duas meninas de José Trindade já rapariguinhas,
em 1951/2? envergando a camisola do Benfica , 
"o clube de sempre" das duas manas Trindade

Clarabela, era a alma da equipa, aquela que, com a rapidez dos suas esquivas jogadas e os infalíveis lances de bola ao cesto, fazia vibrar moçamedenses e adeptos benfiquistas que não cessavam de a ovacionar. Ver Memórias Desportivas AQUI



 Roberto Trindade, meu colega de turma tal como todos os outros, pode ser visto aqui, de pé, à esq. Este era o grupo masculino dos finalistas da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, em 1956. Ver AQUI


Para terminar vou lembrar uma situação que se passou entre José Trindade e a Câmara Municipal de Moçâmedes, que revela o quanto às vezes as pessoas que detêm algum poder são levadas a actos prepotentes, mesmo em situações em que os ventos não correm a favor dos organismos que representam.

Eis a situação:

José Trindade era há já um tempo credor daquela Câmara por trabalhos prestados pela Tipografia que não havia meio de serem pagos. Cansado de esperar, tomou uma decisão: ele que fora sempre cumpridor das suas contas resolveu pura e simplesmente deixar de pagar a água e a luz eléctrica que a Câmara fornecia à Tipografia. Resultado, logo no dia seguinte lá estava o funcionário municipal a cortar o fornecimento de água à Tipografia. Quanto ao resto apenas sei que o problema levantou grande celeuma, que José Trindade fez barulho, protestou, e que pelos vistos o problema acabou resolvido, pois a Tipografia, da qual dependia não apenas o seu sustento como o da sua família, bem  assim como o sustento de mais algumas famílias de pessoas que alí trabalhavam, lá continuou a funcionar. Aliás, pensando bem, lidar com o jornalismo numa época em que a censura do Estado Novo estava activíssima, não devia ser uma missão  nem muito fácil, nem muito agradável...
 




É com carinho que deixo aqui mais esta recordação.
MariaNJardim 



Em tempo:

Aproveito para recordar aqui outros jornais que no século XX foram editados em Moçâmedes:.
1.O Sul de Angola, semanário independente de Moçâmedes, fundado em 1921 e dirigido por Mário Trabullo, seu proprietário.
2.Correio de Angola, de Moçâmedes, dirigido por José Manuel da Costa.
3.Mossâmedes, semanário dirigido por Joaquim Augusto Monteiro.
4.O Académico, de Moçâmedes, dirigido por José Pestana.
5.Sport de Moçâmedes, quinzenário, dirigido por A.A. Torres Garcia.



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