03 novembro 2011

Juventude estudantil de Moçâmedes (Namibe, Angola) em sarau comemorativo do 10 de Junho, o "Dia de Camões e da Raça", em Moçâmedes. Anos 1970,


Entre outras: Adelaide Rosa Quelhas, Manuela Abrantes, Ermelinda Duarte, Clementina, Eduarda Figueiredo, Maria Viegas, Clotilde Jardim, Júlia Silva, Eduarda Seixal, Alexandrina Freitas, Gina Veiga, Elizabeth Jardim Cruz e Nita Castro Abreu. Foto de Isabel Barra. Trata-se de um sarau comemorativo de 10 de Junho, organizado pele Escola  Comercial Infante D. Henrique, de Moçâmedes no "Dia de Camões e da Raça". Anos 1970. As jovens estudantes recitavam em coro o poema de Camões " Alma minha gentil que te partiste..."

O dia 10 de Junho " Dia de Camões e da Raça", data do falecimento de Luís Vaz de Camões, era feriado em todo o Portugal, continental e ultramarino. Estas comemorações nasceram com a implantação da Républica, em 1910, ao mesmo tempo que são eliminados  alguns feriados principalmente religiosos. Assim se glorificava o grande poeta Luis Vaz de Camões que para os portugueses representava a geniosidade da cultura portuguesa e se relembrava os feitos passados dos portugueses .

O 10 de Junho começou por ser feriado municipal, porém  com o "Estado Novo", criado por Oliveira Salazar, em 1933, foi elevado a feriado nacional e passou a ter um caracter de propaganda nacionalista explorado pelo regime. 

Quanto ao conceito de "Raça" este não dever ser tido como um conceito racista. É a "Raça" do povo português entendida entendida de uma forma geral, global”. O que está em causa é a “originalidade” e “a capacidade dos portugueses”, explica Conceição Meireles. “O Estado Novo sempre quis sublinhar a originalidade do povo português face aos outros povos europeus. Por alguma razão este pequeno povo tinha uma História de séculos; era dos Estados mais antigos da Europa e tinha um Império colonial que quase nenhum outro país europeu possuía”. O conceito de raça no Estado Novo deve ser entendido no sentido em que significa “um povo diferente, aparentemente frágil, mas com valores que lhe permitiram grandes realizações”. No dia da Raça e de Camões “exaltava-se a nação e o império, a metrópole e as colónias”, diz.

O Estado Novo difundiu uma concepção de nacionalidade segundo a qual a Metrópole se encontrava intrinsecamente ligada aos seus territórios ultramarinos. A do Portugal entendido como nação pluricontinental, que se estende da Europa à Ásia, passando pela África a que correspondia uma paridade entre todos os portugueses independentemente do território onde habitavam. Na opinião de Conceição Meireles, a exaltação de determinados momentos da História de Portugal funcionou como uma espécie de sustentáculo e apoio ao regime, e era sobretudo uma forma de propaganda do mesmo.  “Esse passado que o Estado Novo queria fazer lembrar aos portugueses era um passado de grandeza, quase de heróis”. O Estado Novo procurou fazer “um apelo ao passado no sentido de legitimar o presente”.  O que interessava dar a entender externamente era que “esse património nacional era uno” e incluía “metrópole e colónias”, e, portanto, “Portugal tinha um direito inalienável e inquestionável à manutenção do seu império”, explica Meireles.

Mas, nos Lusíadas, Camões não canta apenas a ousadia e a coragem, também nos fala de vozes que faziam a exaltação e a condenação da conquista, que falavam de medo, quando  aponta o Velho do Restelo, fazendo ouvir a voz do passado inquieto face ao futuro. Os Portugueses iam abandonar a segurança da terra, a estabilidade, e lançar-se na aventura marítima, no risco do desconhecido. É esse momento que simboliza a despedida, o cortar das amarras. A grande inovação da epopeia camoniana está exactamente naquilo que foi ignorado, ou seja, nas reflexões sobre a História, na própria vida e missão do poeta que "questiona até mesmo os heróis que canta". Mas o pior  é a conclusão da obra. Enquanto toda a acção narrada se passava no plano real histórico, o prémio consiste num sonho, um sonho maravilhoso... mas um sonho! “O Dia da Raça foi aproveitado também para determinadas cerimónias oficiais de propaganda e actos de regime”, lembra.

A partir de 1961, o regime passou a utilizar esta data para homenagear as forças armadas portuguesas com desfiles e atribuições de medalhas, em manifestações nas principais cidades, na Metrópole, Ilhas e Ultramar. Com a Revolução do 25 de Abril 1974, o 10 de Junho passou a ser comemorado como "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas", tanto no território Nacional como  pelas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

Sem comentários:

Enviar um comentário