14 março 2012

As "FESTAS DO MAR" : um cartaz turistico para Moçâmedes (Namibe), Angola.




Foto Salvador
Gigantones e cabeçudos na sua passagem junto ao Clube Náutico. Foto Salvador



Chegou o mês de Março. Por aqui, no hemisfério norte, ainda faz frio. Em Moçâmedes o calor aperta e tiveram inicio as "Festas do Mar", cujo slogan era no tempo colonial :  "Moçâmedes /Mar /e 
Março".

As Festas começavam com uma alvorada com morteiros, desfile de gigantones, cabeçudos, e banda pelas ruas da cidade  a anunciar a boa nova:
"Tum...Tum... Tum... Carioca... 
Tum ... tum, tum, tum ... ",





Parados o anos surgiam novos e sugestivos cartazes, com o este desenhado por João António Teixeira, poeta e desenhador  moçamedense. Geralmente havia um concurso para o efeito, realizado pela Câmara Municipal de Moçâmedes, e quem apresentasse o cartaz mais colorido e mais sugestivo, era o premiado. Outros concorrentes habituais, com prémios  atribuídos foram o João António Guedes da Silva e o Zezo de Sousa.  O prémio não passava de módica quantia, algo de simbólico, já que a Câmara Municipal de Moçâmedes sempre se debatia com carências financeiras, e o produto das Festas mal dava para as suportar. 



Esta foi a capa do programas das "Festas do Mar" de 1966 (alguém a digitalizou a preto e branco...). As que seguem são de 1967, 1969 e 1970. 




 As "Festas do Mar", famosas  pelo seu brilhantismo, tiveram o seu início um ano após o critico 1961, ou seja, em 1962, e eram acompanhadas de manifestações várias (culturais, recreativas e desportivas) que atraiam um mar de gente e turistas, que nesta época do ano podiam beneficiar dos múltiplos atractivos que o Namibe oferece.

De entre as manifestações culturais saliente-se as exposições de fotografia, numismática, pintura, jogos florais, etc. No campo das actividades recreativas, eventos vários tais como passagens de modelos, bailes, concertos, concursos de penteados, eleição de "Miss Mar", corridas de empregados de mesa, concursos de construções na areia, concursos de papagaios de papel, concursos caninos,  etc. etc No âmbito das actividades desportivas não podiam faltar as regatas de sharps, snypes, as corridas de motos, de kart's, as corridas infantis de bicicletas, corridas de motos, os festivais de tiro ao vôo, ginástica, judo,  tiro ao vôo, paraquedismo, caça submarina, pesca desportiva. para além dos já consagrados torneios  de futebol, hóquei em patins, andebol e basquetebol masculino e feminino.





Foto Salvador
  
Das «Festas do Mar» patrocinadas pelo Governo do Distrito e pela Câmara Municipal de Moçâmedes, fazia parte um extenso programa que abria manhã cedo, no dia 1, com uma alvorada com morteiros, desfile de gigantones e cabeçudos,  desfile de carros e de uma banda musical pelas ruas da cidade, e ao fim da tarde com a abertura da Feira Popular. Encerrava a 31 do mesmo mês, ficando a funcionar a Feira Popular até 15 de Abril.

Uma panorâmica do recinto das festas
 
Uma panorâmica dos recinto das diversões para os mais novos

Uma panorâmica dos recinto das diversões: barracas. Foto Salvador.

Este era o recinto das «Festas do Mar»  junto da Praia das Miragens, entre o Club Nautico (Casino) e a Capitania do Porto. Era um airoso recinto, todo arrumado e engalanado, que funcionava como uma espécie de Feira Popular, onde não faltava o parque de diversões com dois carrocéis, um deles para os mais pequenos, a pista dos carros, as de barracas dos cavalinhos, de tiro ao alvo, de argolas, de venda de rifas, tômbolas, etc; e no sector de "comes e bebes", locais de venda de sorvetes, algodão doce, cachorros quentes, farturas, etc, para além de dois os três pequenos restaurantes onde eram servidos frangos na brasa, churrascos, febras, etc, e onde não podiam faltar os famosos caranguejos «gigantes» de Moçâmedes e as não menos famosas ameijoas de Porto Alexandre.

A envolvência: praia e palco
O pavilhão das exposições

O pequeno palco da Praia das Miragens



Junto  das arcadas da praia  ficava um palco, com uma pintura alusiva ao mar, ao deserto, à pesca e ao encontro de culturas, da autoria de Carlos Ferreira, pintor de Luanda que trabalhava no CITA (Centro de informação e Turismo de Angola). Era o local onde no decurso desta quadra se realizavam espectáculos de música ao vivo.











Deste programa das "Festas do Mar",  transcreveremos as actividades ocorridas nesse ano que falam por sí sobre o brilhantismo alcançado nas "Festas do Mar":


1. Alvorada com morteiros, gigantones, cabeçudos, e banda pelas ruas da cidade
2. Abertura da Feira Popular
3. Jornada de basquetebol feminino e masculino entre Moçâmedes e Sá da Bandeira
4. Inauguração dos Pavilhões de Exposições Comerciais e Industriais
5. Paraquedismo sobre a baía por paras do Aero Clube de Angola
6. Corrida Infantil de bicicletas
7. Exposição numismática
8. Corrida de empregados de mesa na Feira Popular. Jogos de andebol e basquetebol pela Mocidade Portuguesa
10. Concurso de Caça Submarina
11. Provas de Natação na Baía
12. Corrida de Baleeiras e «Chatas» na Baía
13. Corridas de Kart`s inter-cidades
14. Exibição do Grupo Folclórico da Casa do Minho
15. Festival dos Bombeiros
16. Regatas à Vela na baía (Campeonato Provincial da MP)
17. Torneio de Ténis entre as cidades de Luanda, Lobito, Sá-da-Bandeira, Moçâmedes e Porto Alexandre, em presença do campeão Nacional
18. Exposição de fotografia e pintura
19. Concurso Infantil de Papagaios de papel
20. Hóquei em Patins
21. Baile no Salão Nobre da Associação Comercial com Passagem de Modelos pela Boutique «Teia» (duas orquestras)
21. Torneio de Pesca Desportiva
22. Concurso Infantil de Construções na Areia
23. Concurso de montras e interiores
24. Concerto pela Orquestra de Salão do Instituto de Música de Angola
25. Festival de Ginástica e Judo
26. 1ª Provas de tiro ao Vôo
Taças Municipal de Moçâmedes , VIII Festas do Mar e Taça Governo do Distrito de Moçâmedes
27. Torneio de Tiro
28. 2º Grande Prémio de tiro aos Pratos. Taça Projeque
29. Festival Siral
30. Grande Noite de Fados
31. Concurso Canino
32. Marchas Populares de Nova Lisboa
33. III Circuito Automóvel - Taça Câmara Municipal de Moçâmedes, Taça Governo do Distrito de Moçâmedes
34. Baile no Salão Nobre da Associação Comercial para entrega de troféus e eleição de Miss Mar




Poemas de filhos da terra eram geralmente enquadrados nos programas das "Festas do Mar". No das IX Festas do Mar, do ano de 1970, cuja capa se encontra mais acima, constava na 1ª página, com enquadramento da imagem de uma traineira à luz do luar, este poema:



                                                                            Na minha terra
                                                                 A noite tem feitiço e lenda
                                                                Tem canção lânguida e futil
                                                                              das palavras
                                                                                e do mar
                                                                                 e a renda
                                                                                 sem emenda
                                                                                   do luar

                                                                  Helder Duarte d' Almeida
                                                                       (poetas do Namibe)
 


Constavam do programa acima exposto vários anúncios representando firmas comerciais, empresas de pesca, etc, que haviam dado a sua colaboração, em resposta a um tradicional peditório visando  a angariação e recolha de fundos na praça, anúncios esses que nos dão um panorama das actividades comerciais e industriais na época:

-Banco-de-Crédito: O Banco que cresce...
-União Comercial de Automóveis, SARL.
-J. Freire, Comércio Geral
-Ouriversaria e Relojoaria Moreira
-Sociedade de Automóveis (SOAUTO)
-Fernando das Farturas (Recinto das Festas)
-Tabacaria Tropical
-Impala Cine
-Mini-Mercado Namibe de Estevão Lopes
-Vidraria Namibe, Lda.
-Lusolanda
-Fernando Tendinha, Safaris
-Antunes da Cunha Lda.
-Drogaria e Papelaria Teles
-Brilhamar-Bar (na estrada da Aguada)
-Hotel Moçâmedes
-Cicorel, SARL.
-João Pereira Correia, Lda.
-Instituto de Beleza Sandra
-Venâncio Guimarães Sobrinho, Lda.
-Hotel Turismo
-Lupral SARL
-Simpor (Moçâmedes), Limitada
-Fausto Rodrigues da Silva
-Farmácia Moderna
-Pensão Angola
-Guedes Duarte e Guedes Lisboa, Lda.
-Louis Benhaim, Cirurgião Dentista
-Produtos de Angola, Lda. «PRODUANG»
-Sociedade Industrial do Cabo Negro, Lda. «SALIPESCA»
-SACOR
-TEXACO
-Sousa & Irmão
-SOAUTO
-Mário B. de Sousa
-Santos, Lda.
-Robert Hudson
-Banco Totta-Standard de Angola
-Instituto de Beleza Chibante
-Salão Paris
-Salão Azul
-Pensão Angola
-Cervejaria Rollan
-Clube Nautico
-Pensão Pescador
-Cine Moçâmedes
- Impala Cine
-Abastecedora de Moçâmedes
-Quitanda Alcobacence
-Bárbara Franco
-Laurinda P. R. Conceição
-Torres & Irmão
-Banco Pinto & Sotto Mayor
-Companhia de Redes de Pesca
-António Pereira da Costa e Silva (Moinhos)
-Veríssimo & Irmão, Lda. Porto Alexandre
-A Mundial de Angola, Companhia de Seguros
-Sociedade Cooperativa « O Lar do Namibe»
-Associação dos Industriais de Pesca do Distrito de Moçâmedes
-ARAN «Sociedade dos Armadores de Pesca de Angola, SARL
(Clicar sobre o Programa para aumentar)





 
Majoretes em desfile

 As Majoretes em desfile no Estádio Municipal


Em 1975, no derradeiro ano da presença dos portugueses em Angola,  o Programa das "Festas do Mar" tinham melhorado substancialmente. Angola desde 1961 tinha evoluído bastante, e por força da guerra  tinha-se aberto à importação. A   "guerra", desde logo reduzida às zonas fronteiriças do norte e leste de Angola, não perturbava o normal  evoluir da vida.  As pessoas  passaram  a ter acesso a uma maior variedade de bens, incluso ao nível da indumentária, bens ao quais no início das Festas so Mar não se conseguia ainda chegar. É o caso do desfile de Majorettes na Avenida Marginal e no  novo Estádio Municipal construído no baixio das "Furnas de Santo António", a caminho do Deserto do Namibe.  

Bem-dispostas e animadas, impecavelmente vestidas, as Majorettes  desfilaram  espalhando o charme no interior do novo estádio municipal, pelas artérias da cidade e marginal,   emprestando  um particular brilho e colorido às já famosas Festas, que dentro em breve. afinal, passariam a ter novos protagonistas. Estava-se  a uns meses da independência de Angola, na recta final do processo de descolonização, e, no entanto ninguém  ainda imaginava o culminar do  processo histórico que se estava a desenrolar ... A vivência entre europeus e africanos mantinha-se no quadro da  normalidade, e aos moçamedenses agarrados à sua terra, e ao ambiente de paz que nela se vivia, não lhes passava pela cabeça ter de a abandonar.  Moçâmedes já contava com várias gerações de angolanos brancos que se sentiam enraizados à terra e que mais facilmente se adaptariam às mudanças que estavam para vir...Ninguém imaginava que dali a 8 meses já não estaria ali!


A Praia das Miragens apinhada de gente e de carros


                                                    Concurso infantil de construções na areia
                         Concurso de construções na areia realizado na Praia das Miragens por ocasião das    Festas do Mar na década. de 1960. 



Todos os anos, enquadrado no programa das «Festas do Mar» realizava-se na Praia das Miragens o tradicional «Concurso infantil de construções na areia». Era geralmente apoiado pelos jornais da terra e patrocinado pela Câmara Municipal de Moçâmedes, e envolvia dezenas e dezenas de crianças em todo o distrito e não só, para além de centenas de espectadores, entre familiares, curiosos e frequentadores da habituais da praia. Os concorrentes de palmo e meio tinham cerca de 1 hora, e pouco mais de 1, 5m2 de terreno para mostrarem as suas habilidades na arte de esculpir na areia, e como apetrechos para os seus trabalhos de escultura pouco mais possuíam, como se pode ver, que as próprias mãos, tendo que começar por cavar mais fundo para encontrar terra húmida capaz para modelar.Não se vêm aqui  baldes de plástico para transportar água do mar, pás e outros acessórios. Restava-lhes a imaginação na execução dos trabalhos que certamente não poderiam ir muito longe, dado os meios de que dispunham. As três melhores esculturas eram contempladas. 

A Praia das Miragens era o epicentro das "Festas de Moçâmedes, Mar e Março",  que   nestas alturas ficava a abarrotar de gente, gente não apenas de Moçâmedes, mas também das cidades próximas, Porto Alexandre e Sá da Bandeira, e de outros pontos do Distrito e mesmo de toda a Angola. Eram  especialmente  moçamedenses que, terminado o serviço militar obrigatório tinham ficado a viver noutras cidades de Angola onde arranjavam  trabalho  e onde acabavam por casar , constituir família e fixar-se, e que vinham de férias nesta altura,  para o que concorreu, já no inicio da década de 70, a construção (ainda que tardia, como tardio era tudo entre nós), da estrada da Leba, e da nova ponte sobre o rio Bero. 


A Praia das Miragens mesmo ali juntinho ao centro da cidade, paralela  à Avenida principal, e  a bela baía em forma de concha,  faziam da cidade  de Moçâmedes uma  verdadeira estância balnear. Uma promessa de futuro! Ali toda a gente, sem ter que percorrer longas distâncias, podia colher os benefícios do sol e do mar,  nadar, confraternizat,  dedicar-se a desportos náuticos: regadas de sharps, snypes, provas de natação, etc. etc


Conforme já citado, as "Festas do Mar" eram abrilhantadas com manifestações váriadas, culturais, recreativas e desportivas. O distrito de Moçâmedes um dos pontos mais privilegiados do país,  tem mar, deserto e savana, particularidades que lhe conferem um magnífico quadro natural, a juntar a um clima moderado, considerado o melhor de toda a costa litoral de Angola. O visitante tinha ainda  à sua disposição outras tantas praias próximas,  a Praia Azul, a Praia das Barreiras, a Praia Amélia, a Praia das Conchas, esta, caracterizada como o próprio nome indica, por detritos de conchas de espécies marinhas, e  até ossadas de cetáceos, reminiscências das actividades pesqueiras dos noruegueses que no início do século XX, se instalaram na Praia Amélia. A partir da Praia das Conchas podia avançar até ao Barambol, paraíso de pescadores desportivos, a cerca de 15 Km da cidade, quem preferisse  dedicar-se à pesca desportiva ou à caça submarina.


Mas  havia outras praias muito visitadas que se estendiam pela  orla litorânea do Distrito, ideais para banhos, pesca desportiva e submarina, desportos nauticos, etc etc: a Baia das Pipas,  o   Bába, o Mocuio, o Chapéu Armado, a Lucira, etc. etc. 



A foto acima foi tirada na ponte de uma pescaria no Canjeque, (zona de pescarias a 4km  a sul da cidade). Da esq. para a dt. o Dr. Mário Miranda Garrido (Médico), Aires Domingos e Parreira da Cruz (data provável. Eram figuras da terra que estavam sempre quando se falava de caça submarina... Foto cedida por Mélita Parreira da Cruz

Na ponte de João Duarte, Praia Amélia. Foto do meu álbum

Na ponte de João Duarte, Praia Amélia.  Foto do meu álbum


Estas 2 fotos tiradas na ponte da pescaria de João Duarte, na Praia Amélia (a 5km da cidade), no 1º  «Concurso de Pesca Desportiva» realizado em Moçâmedes. Na 1ª  Arménio Jardim e Eduardo Lopes Braz exibindo o fruto da sua "colheita". Na 2ª Nidia e Arménio.  Estava-se em 1956/7. Sobre a ponte vêem-se curiosos de ambos os sexos e das mais diferentes idades  que acorreram ao local para assistir à chegada dos concorrentes.

O mar de Moçâmedes era um mar riquíssimo em pescado, facto que se deve à corrente fria de Benguela. Um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se «corrente fria de Benguela». Arrastando grandes blocos de gelo, avança com eles em direcção à costa de Angola. Cada icebergue é um zoológico ambulante onde navegam grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Porto Alexandre (actual Tômbua) e Moçâmedes (actual Namibe).


                                                 As altas dunas da zona da Baía do Tigres


Por entre as dunas, a uns 80 km da foz do Cunene e do limite sul do país, uma ilha inesperada guarda uma antiga povoação de pescadores. Depois de décadas de abandono, em 1975,  é esqueleto enterrado no deserto (neste ponto, o cenário de filme torna-se ainda mais surpreendente). A povoação da Baía dos Tigres, assim se chama, é hoje um espectro de edifícios: casas, uma escola, um posto sanitário, um hospital, uma delegação marítima e a icónica Capela de São Martinho. As estruturas semi-enterradas compunham a pequena aldeia fundada nos anos 1865 por pescadores vindos de Porto Alexandre  nos seus barcos à vela, que haviam trazido alguns anos antes, vindos de Olhão, Algarve, região sul de Portugal. Chegar a ela é uma verdadeira aventura para quem enveredasse por uma viagem de jeep,  através das escaldantes areias rentinho  ao mar, ( à direita, uma parede de dunas e à esquerda, o mar). Uma aventura, uma vez que obrigava  a partir de determinada altura a vazar os pneus e a seguir em alta velocidade, num  trajecto acompanhado por pelicanos, em que o veículo não pode parar para não enterrar, e  tem que se estar atento à subida da maré para que esta não o leve. 
  
flamingos

No percurso até à foz do rio Cunene,  que envolve uma passagem pelas belas e ondulantes dunas do Namibe, podia o visitante  observar as paisagens do deserto e as mais diversas espécies marinhas para além de pelicanos, tais como tartarugas, golfinhos, tubarões, flamingos etc.


Arco Carvalhão



Lagoa do Arco

Mas entre Moçâmedes e a Baía dos Tigres ficava Porto Alexandre, hoje Tombwa. E cerca de 90 Km de Moçâmedes, outro atractivo, era o Arco Carvalhão, arco natural que a erosão cavou na rocha de natureza sedimentar, também denominado por «Lagoa do Arco» ou «Oásis Arco».

Trata-se de um autêntico Oásis encravado no meio do deserto, um trabalho de arte natural que surge repentinamente a quem, prosseguindo em direcção ao sul, pela longa estrada que, cortando a areia dourada do Deserto do Namibe, liga as cidades de Moçâmedes e Porto Alexandre, a determinada altura se desvia nessa direcção. Quando chove e o rio Coroca extravasa para alí o seu caudal, é um espectáculo que permite visualizar através de dois grandes orifícios numa das rochas a lagoa no seu esplendor, o contraste entre a montanha de pedra e a lagoa azul safira rodeado de plantas e palmeiras e coberto de nenúfares... 

 
foto Nhuca
 
foto Nhuca
 
Quando chovia o Deserto ficava assim...



O magnífico e grandioso deserto do Namibe   o grande cartaz turístico da região, era  um paraíso para os aficcionados da caça, a juntar as diversas características etnográficas dignas de estudo  e de observação.    

Uma ida ao Iona, no coração do deserto do Namibe, a cerca de 200 quilómetros da cidade, era um paraíso pródigo em animais de grande porte, e possibilitava a partir da Espinheira, vislumbrar a presença de vários tipos de animais, tais como elefantes, impalas, zebras, onças, leões, cabras, guelengues, avestruzes, orixes, rinocerontes, etc.  Na foto acima um quadro muito comum no Deserto do Namibe: duas gazelas, talvez refrescando-se à sombra de uma espinheira olham assustadas para  a objectiva.





Foto cedida por Olímpia Aquino Arvela

Gazelas no Deserto do Namibe



Nos anos 1930/1940 era assim que Manuel Abreu, o "Mata Porcos" caçava, chegando a vender a carne da caça no seu talho, em Moçâmedes. Naquele tempo, de quando em quando corria a notícia na cidade que um ou outro leão esfomeado, vinha pela calada da noite até ao edifício do Matadouro Municipal (um dos mais antigos da cidade, ali bem perto da Estação do CFM), em busca das vísceras doa animais abatidos.



 A cidade do Deserto não podia deixar de ter um dos seus "ex-libris", nas gazelas que ladeiam o espelho de água da Avenida. Era ali que todo o residente e todo o visitante ia tirar a sua foto, posando para a posteridade.




 
Welwitschia Mirabilis

Mas visitar Moçâmedes e não apreciar a famosa e ancestral Welwitschia , era como ir a Roma e não  ver o Papa. A Welwitschia Mirabilis, foi o nome científico (latinizado) que o naturalista austríaco, Frederich Welwitsch deu a esta planta, a Tomboa Angolensis, símbolo da resistência e sobrevivência da vida vegetal e animal do deserto, que remonta ao tempo dos dinossauros. É  a Welwitschia que torna o deserto do Namibe especial e único no mundo, por conter essa planta estranha que os botânicos classificam de dióica, ora «fêmea», ora «macho», precisando da ajuda do vento e dos insectos para se cruzar entre si. 

Se existe  planta das mais cantada em versos a Welwitschia é uma delas. Houve um ano em que a poetisa vencedora dos jogos florais integrados no programa das Festas do Mar, foi Concha Pinhão. Deixo aqui um dos seus poemas: 




Welwitschia Mirabilis



Welwitschia de longos braços
Que vive e nasce aos abraços
Que vive e morre em tormento.
Por tanto amar o deserto
Por tê-lo perto, tão perto
Num amor sem casamento.


Concha Pinhão




E para descansar o corpo depois da picada, a natureza não se esqueceu de oferecer ao visitante  uma caverna de pedra oca, composta de enormes calhaus rolados, que lhes serve de abrigo. Comer num restaurante que é uma caverna no interior de uma pedra, aquecer-se junto a uma fogueira ao som de guitarradas virando as costas ao frio,  ou mirar milhões de estrelas cintilantes na escuridão do céu., era algo inebriante que tinha o sabor de aventura, e que só é possível apreciar a quem estiver no Deserto. Nunca mais vi noites assim...


Importante era uma visita às gentes que habitavam o Deserto  do Namibe. Contudo essa não era preocupação dos organizadores na época, por aquilo que recordo. Eu mesma que nasci em Moçâmedes pouco ou nada sabia da sua história, dos seus usos e costumes, só o empirico, o superficial. Como adorava ter hoje um encontro com os mucurocas, com os mucubais, com bosquímanos etc, esses povos exóticos que viviam em  zonas  bastante próximas de Moçâmedes e em outras mais distantes do distrito, alguns dos quais, por vezes, apareciam na cidade,  como era o caso dos mucubais para uns «biscates», ganhando algum no porto de cais  como carregadores, e elas  a verder pequenino se e redondos tomates vermelhos hoje em dia muito aprecidaos na decoração de saladas de Verão e qie nós desvalorizavamos. Como gostaria de ter  visitado a famosa tribu dos Himbas, da etnia Herero,  cujos antepassados, no século XVI, se estenderam pelo sul de Angola e se radicaram nas proximidades do Cunene, do lado de Angola, e ao norte de Namibia (antiga colonia alema do Sudoeste Africano). Esses povos interessantes, resistentes à integração, cujas mulheres são famosas pela sua beleza, e se distinguem pelos penteados e pelos inconfundíveis ornamentos, e o modo como untam o corpo, com uma mistura de sebo de boi e terra vermelha,  e  cujos homens são secos, musculosos e aguerridos. Aliás, não seriam muitas as pessoas de Moçâmedes que tinham contactos directos com estes povos  nem os programas das «Festas do Mar», na época, se referiam particularmente a eles,  explorando-os como cartaz turístico, excepto um ano em que o fotógrafo Chaves colaborou num programa com fotos e Júlio Victor, então estudante,  que nos brindou  com um artigo a seu respeito. Conheci de perto elementos do povo cuanhama que apareciam em Moçâmedes para trabalhar nas pescarias. Tal como os Himbas, mas etnicamente diferentes, eram  homens e mulheres  bem constituídos, perfeitos, dignos de figurar em qualquer capa de revista. Os cuanhama, eles e elas possuíam uma estatura muito acima da média, eram altos, fortes e bem apresentados. As mulheres cuanhamas ao inverso da mulher mucubal facilmente casava com um homem de outra tribo mas da mesma etnia (Evales, Cuanhamas, Cafimas, etc), e não eram raros os casos em que 
aceitavam homens de outros grupos étnicos vizinhos e até quimbundos, do mesmo modo como aquelas que se fixavam nas cidade  se juntavam ao homem branco que as procurava pela forma desinibida como encaravam a sexualidade. Aliás em caso de adultério feminino o cuanhama traído era apenas indemnizado com o pagamento de um boi, e ficava considerado de  "cara lavada".
 


 Mucubais

 Himbas



Embora não pareça, o Deserto do Namibe regurgita de vida. Para além dos elefantes, impalas, zebras, onças, leões, cabras, guelengues, olongos, avestruzes, orixes, rinocerontes, etc., mesmo nas zonas mais áridas, onde a água tatamente chega, revirando as suas reias escaldantes, pedras e pedregulhos, é comum encontrar-se vida: líquens, aranhas e cupins, camaleões e cobras, até toupeiras, e mais de 200 espécies de besouros. (vidé este site)
 


Carneiros Caraculo

Continuando o visitante a percorrer o distrito de Moçâmedes e o Deserto do Namibe, encontra bem perto da cidade de Moçâmedes, a zona de brusca transição entre a aridez do deserto e a vegetação das margens dos rios Bero e Giraúl, e  pode visitar as famosas Hortas de Moçâmedes,  local intimamente ligado à História da cidade. Ali no tempo colonial poderia apreciar culturas tipicamente tropicais, como a bananeira, ao lado de outras caracteristicamente mediterrânicas como a oliveira e a videira que em Moçâmedes se desenvolviam esplendidamente. E lá para os lados de Vila Arriaga (Bibala), usufruir das águas medicinais da Montipa brotam em excelente local para repousar, a cerca de 150 km da capital, não esquecendo uma paragem do Posto Experimental do Caraculo.

Prosseguindo o rol de possibilidades para quem visitasse Moçâmedes no período das "Festas do Mar", a partir de determinada altura o programa das festas passou a incluir a eleição da "Miss Mar".


Finalistas do concurso de "Miss Mar" 1972:  Foi eleita "Miss Mar", Marilia da Conceição Campos Rodrigues (Lita), tendo como damas de honor, Paula Chalupa (1ª), Fernanda Lourenço (2ª) que acumulou também o título de "Miss" Simpatia. Maria José Pegado foi escolhida para "Miss Informação". 



Três das candidatas ao título em 1971
Marilia da Conceição Campos Rodrigues (Lita),
Paula Chalupa e Any de Freitas. Foi Lita a vencedora.
 Recorte do "Jornal Namibe", onde se pode ver, em cima, Paula Chalupa, uma séria candidata ao "Miss Mar" 1971 AQUI



Desfile do "Miss Mar" 1972. Foi vencedora Paula Chalupa.




AS GAROTAS DO MAR...
Todos ficaram sabendo
que assim mesmo é que isto é,
contra as garotas do Mar
é remar contra a maré...

Vencemos em toda a linha!
Foi vitória das mais lindas,
pois nós ganhamos a todas,
Preciosas, Caraslindas...

Contra o que muitos pensavam
nós vencemos o despique,
pois entre ondas de beleza
não podemos ir a pique.

Que as moças iam vencer
era aqui por nós sabido,
pois o Namibe jamais
em beleza foi vencido!

Ninguém nos pode tirar,
cá nesta terra angolana
no campeonato das lindas
a posição soberana.

Todos queriam com bairrismo,
do fundo do coração,
neste Concurso famoso,
a bela repetição.

Lurdes tu és segunda
(Riquita foi a primeira)
e as Miragens do Deserto
hão-de indicar a terceira.

Em loucura colectiva,
no momento final,
a alegria sem limites
dominou a Areal.

Muitos cortejos de carros!
Bancos, pretos... Da cama,
homens, mulher's, crianças,
vêm pr'a rua de pijama!

As Welwistchias ajudaram,
com mil palmas prazenteiras,
que deram com frenezi,
as mil palmas das palmeiras!

E o bom Mar que é nosso Amigo,
em vozes portentosas,
bradou logo o mundo inteiro:
-São nossas as mais formosas!

(Autor desconhecido)
Prosseguindo o rol de possibilidades para quem visitasse  Moçâmedes no período das "Festas do Mar", a partir de determinada altura o programa das festas passou a incluir a eleição da "Miss Mar".

"Comboio Bébé". Foto de Araujo in Mazungue

Não poderei deixar de citar o "Comboio Bébé", outro atractivo das festas dirigido para os mais novos, mas que transportava também familiares que, via de regra, os acompanhavam.

Concurso Canino. Foto cedida por Mélita Parreira da Cruz

Esta foto mostra-nos um "concurso canino" realizado na pequena pista arredondada do Parque Infantil, por ocasião das "Festas do Mar" em 1970.


Passagem de modelos.
Exposição canina 1968


Festival de música POP 1972


 
Cartaz do Circuito das Festas do Mar


Os circuitos automobilísticos constituiam um dos mais importantes momentos das "Festas do Mar", onde uma grande figura que se destacou foi Henrique Arens de Novais, na fase de puro amadorismo, indubitavelmente o melhor piloto angolano quer na modalidade de ralis, quer nos circuitos automóveis, e a sua imagem traz à recordação todas as alegrias que este desporto de elite deu aos moçamedenses.


A marginal de Moçâmedes em dia de festa...


Oa mais actualizados bolides no morro junto à Fortaleza, na marginal


 

Henrique Aharens Novaes, o campeeão no podio. Ver tb aquiaqui




 
Festas do mar derradeiras 1975

Este foi o último Circuito, em 1975 (Iniciados) 1º-Acácio Silva (Capri 3000) 2º-Jorge Maló de Almeida (1º na classe - 2º geral)
3º-Salavessa Antunes
Ver AQUI
circuito 1973 ver AQUI

O Governador do distrito de Moçâmedes, comandante Salles Henriques de Brito fazendo a entrega aos vencedores de uma das provas das "Festas do Mar". Na mesa encontra-se para além da esposa do Governador, e outros, o Capitão do Porto na altura, Comandante Marrecas Ferreira e esposa. Ao fundo, reconhecemos Egidio Robalo da União Nacional.


É assim que ainda hoje aqueles que viveram em Moçâmedes recordam o os ralis e os circuitos automobilísticos que tinham lugar no programa das festividades das "Festas do Mar":

 ...«Quando vivi em Moçâmedes não perdia uma corrida. Eu e o meu pai ficávamos na Fortaleza e víamos ao longe a recta da meta (a avenida marginal). Depois os carros viravam à esquerda, subiam uma grande rampa, muito inclinada, novamente à esquerda, passavam em frente à Igreja de Sto Adrião, o "S" do tribunal, sempre a descer ... curva à esquerda, capitânia,.... e novamente recta da meta. Adorava ver aquelas corridas. Velhos tempos dos Coopers, NSU TT, Ford Capri, Lotus, etc, etc. A grande disputa era entre o Novais (um moçâmedense de "gema") e um "forasteiro" chamado Herculano Areias. O Novais tinha um Lotus Elan S3 e o Herculano Areias um Lotus .. , um louts ..., bem era diferente, mais potente, mas o Novais algumas vezes ganhou ao Herculano Areias. O pessoal de Moçâmedes torcia pelo "nosso" Novais. Era o nosso fã. E nas corridas que fazíamos com carrinhos "Dicky Toys" lá tinha que haver um Novais. O problema era que todos queriam ser o Novais. Escusado será dizer que havia uns amassos, mas chegava-se a acordo, que um seria o Novais e os restantes, os outros. ....» tirado DAQUI

Os encontros de futebol e os inter-cidades, de basquetebol feminino e masculino e de hóquei em patins, constituiam-se em momentos de marca das "Festas do Mar". O hóquei em patins e o basquetebol feminino e do futebol, eram as duas modalidades que conseguiam arrastar  para os campos do Sporting e do Atlético, numa primeira fase, e depois para o  novo  complexo desportivo do Benfica, situado na parte alta da cidade, gente de todas as idades  e de ambos os sexos.que não se cansavam de aplaudir os clubes da sua preferência.

[Atlético Clube + + Moçamedes ++ 1.jpg]

Foto do meu álbum. Arménio Jardim, capitão da equipa de hóquei em patins do Atlético de Moçâmedes, campeã de Angola, faz a sua entrada no campo.



 Na foto, Helena Gomes, do Ginásio da Torre do Tombo, faz lembrar uma gazela a saltar quando procura libertar-se da adversária e partir para a bola ao cesto... Foto do meu álbum


 Um registo muito especial para os clubes que ao longo de décadas, no decurso das "Festas do Mar" ou não, marcaram com a sua presença a qualidade do futebol moçamedense: Ginásio Clube da Torre do Tombo, Atlético Clube de Moçâmedes, Sporting Clube de Moçâmedes , Sport Moçâmedes e Benfica, e ainda para  o Independente de Porto Alexandre que fez a proeza de não apenas ganhar o Campeonato de Futebol de Angola como a vencê-lo por três anos sucessivos (1969, 1970 e 1971), tendo ficado na posse da monumental taça «Cuca».

Independente de Porto Alexandre

 

Ficam mais estas recordações



Texto e pesquisa de

MariaNJardim

Veja aqui o raide TTT (Turismo Todo-o-Terreno) 2008 que teve como destino a foz do rio Cunene. 

Videos Vários de Moçâmedes e Namibe: 
Filme 1, Filme 2, Filme 3, Filme 4, Filme 5, Filme 6, Filme 7, Filme 8
Filme 9
Filme 10 
Filme 11
Filme 12  


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