18 janeiro 2012

Poetas moçamedenses: Fernando Moraes



LAMENTO DE MENINO GRANDE

Sim, eu choro…
… choro por estar longe da minha Angola querida,
distante do meu saudoso chão.



… choro porque já não vejo o voar do “rabo-de-jun-
co”, nem a garotada jogar à bola no terreno do
subúrbio.


… choro porque já não vejo o azulinho do “papo-ce-
leste”, o vermelhão de uma queimada surgida ao
longe, nem o sol a esconder-se por de trás do Pon-
ta-do-Pau-do-Sul.





… choro porque já não vejo a imensidão das praias
do Chiloango e do Arimo, nem a grandeza do meu de-
serto de Moçâmedes.


… choro porque não descubro o fim de uma picada,
nem saboreio o pirão, o musonguê, a manga e a bu-
lunga.


… choro porque já não vejo o sorriso aberto do ne-
grinho humilde, nem sinto a amizade do mulato pim-
pão.


… choro porque já não vejo a elegância da gazela, a
curiosidade da “suricata”, nem a secura da lendária
Welwitschia mirabilis.


… choro porque já não vejo a beleza das garotas
praieiras, nem leio os poemas que elas inspiraram.

… choro porque já não vejo uma rebita bem puxada,
nem oiço o barulho de um batuque, nem gozo o calor
de uma fogueira numa anhara.


… choro porque já não passeio na marginal da minha
baía, nem percorro o caminho das palmeiras até às
furnas.

… choro porque já não vejo o Castelinho de S. Fernando,
nem sinto o silêncio de uma madrugada quente, nem
oiço as histórias do velho boiadeiro da lagoa.


… choro porque já não vejo o túmulo dos meus antepas-
sados e tudo que eles criaram.

… choro porque só vejo o luto em Angola, a traição
e o lamento.


Sim, eu choro…
… choro de saudade!

Fernando Moraes

(ex-bancário do ex-Banco de Angola)

1 comentário:

Retornado disse...

Esperemos que a multidão de «doutores» portugueses que zarparem para aquelas terras, sejam tão bem recebidos como os que antes foram para lá de «tamancos»

Enviar um comentário