31 janeiro 2013

Moçâmedes, Namibe. As festividades do Carnaval no tempo colonial...





Postal de um Carnaval em Moçâmedes no início do século XX



Nada melhor do que a aproximação da quadra carnavalesca para colocarmos aqui algo que nos remeta para o modo como os Carnavais foram acontecendo em Moçâmedes (hoje cidade do Namibe), ao longo dos tempos.


Através da foto acima, a mais antiga que conseguimos a este respeito, tirada no início do século XX, podemos ver uma "dança de rua" de africanos "quimbares" a desfilar na Rua dos Pescadores, enquanto às janelas de suas casas alguns moradores curiosos observam, munidos de guarda-sóis (sombrinhas). O grupo social "Quimbar" formou-se a partir dos primeiros serviçais africanos que, oriundos de vários pontos do território angolano, e pertencendo a várias etnias, começaram a chegar ao distrito de Moçâmedes a fim de prestarem serviço nas actividades económicas dos brancos em formação, e ali chegados, longe das suas tribos se miscigenaram , apenderam a falar português e passaram a vestir panos da cintura para baixo, com pequenas blusas cobrindo o busto (as mulheres), calças, camisas e chapéu (os homens), não andavam nús ou semi-nús como os povos que habitavam as margens do rios Bero e Giraúl, e deambulavam pelo Deserto do Namibe, levando uma vida nómada ou semi-nómada, dedicando-se à caça, ao gado e ao pastoreio, cuja maior parte nunca se deixou assimilar, não obstante os contactos e a proximidade que passaram a ter com os recém chegados ali residentes.
 
Postal  de um Carnaval em Moçâmedes no início do século XX


Esta foto mostra-nos um grupo de "quimbares" num outro Carnaval em Moçâmedes,  nas primeiras décadas do século XX. Este grupo, integralmente formado por elementos  masculinos, exibe indumentárias muito europeias, algumas das quais ligadas à Marinha. À esquerda, de chapéu, duas figuras que sugerem pela postura, dois "sobas" da região (Quipola e Giraúl?).  Repare-se nos instrumentos musicais, onde a harmónica ou concertina convive lado a lado com o tambôr e o pandeiro ... Gilberto Freyre, o sociólogo brasileiro, encaixaria esta foto, no quadro da sua concepção muito "lusotropical" da colonização portuguesa.

 
Postal de um batuque realizado em Moçâmedes por mondombes, assim eram conhecidos os mucubais(?)

 
Muita gente havia que era levada a acreditar ter sido o  CARNAVAL, como festa do povo, introduzido pelos africanos, mas foi precisamente o contrário. O Carnaval tem origem europeia, e o Carnaval angolano tem origem no Carnaval português. Recebeu, é  certo, e como não podia deixar de ser, a influência de elementos africanos, do mesmo modo que o Carnaval português recebeu a influência das "mascaradas" italianas. 

Introduzido, primeiro em Luanda e Benguela,  o  CARNAVAL  "desembarcou" em Moçâmedes nos anos 1849 e 1850, levado pelos colonos idos de Pernambuco, do Recife e do Rio de Janeiro (Brasil), que na sua viagem se fizeram acompanhar por serviçais afro-brasileiros, livres e escravos, que  transportaram consigo uma cultura própria, ainda africana mas já cristianizada, eivada de usos e costumes luso-brasileiros adquiridos no contacto com os seus "patrões", nas relações de trabalho.   Estes afro-brasileiros já dançavam o Carnaval nas Terras de Santa Cruz e chegados a Moçâmedes teriam introduzido ali as primeiras "danças de rua" ,  às qual empregaram o seu cunho próprio, com seus cânticos e rituais. 

Admite-se que o Carnaval  em Moçâmedes tenha começado a ser festejado  no seio da população europeia, algum tempo após a chegada  dos primeiros grupos de famílias idas do Brasil, aos quais se juntariam mais tarde famílias algarvias e madeirenses. 

Testemunhos que passaram de geração em geração referem que os antigos Carnavais ali realizados, na forma de Entrudo, incluíam uma verdadeira luta em que as armas eram os ovos, cocotes de farinha ou fuba, água de cheiro, etc. etc., para além de concursos carnavalescos,  festas em casas particulares (assaltos), e com a chegada dos boers  e a introdução das carroças de tracção animal, também passaram a ter lugar as tradicionais largadas  de combates de carro para carro.

Com a chegada de sucessivos contingentes de algarvios idos sobretudo de Olhão para Moçâmedes,  as ruas da Torre do Tombo, bairro piscatório de  Moçâmedes onde se fixaram, passaram nesta época a ser percorridas, à noite, depois do jantar, por grupos de "mascarinhas", que por lá deambulavam  em pequenos grupos, gente de várias idades,  disfarçadas com trajes improvisados no momento. Uns tapados da cabeça aos pés com um  simples lençol  com dois buracos na zona dos olhos (fantasmas), segurando um cajado numa das mãos. Outros disfarçados com peças de roupas que lhes vinha à mão. E assim, nesse tempo em que não havia luz eléctrica e a escuridão metia medo, calcorreavam as ruas, batiam de porta em porta, entravam e saiam, falavam com voz disfarçada, gesticulavam ou simulavam um qualquer defeito físico, tendo a brincadeira por objectivo o desafio ao reconhecimento dos mascarados, que de modo algum se davam a conhecer. Num tempo em que não havia à venda as requintadas máscaras dos dias de hoje, a improvisação era a saída. Eram paródias nocturnas e diurnas que se foram perdendo conforme se avançava para meados do século XX e os ventos da modernidade chegavam até nós.

Com o correr do tempo, o Carnaval em Moçâmedes passou a insinuar-se no interior dos salões dos clubes desportivos que iam surgindo pela cidade. O Ginásio Clube da Torre do Tombo foi o clube pioneiro, onde a partir da sua fundação, em 1919 passaram a realizar-se animados bailes de máscaras que canalizavam para aquele bairro, gente de todos os cantos da cidade. Estou imaginando os primeiros bailes de Carnaval ali organizados, numa época em que o ritmo da dança passou a ser ditado pelas valsas, os tangos, o charleston, essa dança vigorosa em que as mulheres agitam os vestidos, balançando os longos colares e ondulando as plumas e os leques, cruzando e descruzando as mãos sobre os joelhos... Mas também as marchinhas inspiradas pela cadência rítmica dos ranchos populares...  Outros bailes famosos realizados no salão do Ginásio, eram os da Pinhata, por ocasião da Páscoa, em que os pares  dançavam em volta de uma grande pinha em madeira pintada  que a determinada altura abria e deixava ver toda uma série de brindes que eram disputados pelos mais ardorosos dançarinos.
 


Foto gentilmente cedida por Maria Etelvina Ferreira de Almeida datada de 1938, numa festa realizada no Ginásio em Moçâmedes, por ocasião da visita do Presidente sa República Óscar de Fragoso Carmona a Moçãmedes.


Mas aconteciam também no pequeno palco do Ginásio Clube da Torre do Tombo concursos de máscaras carnavalescas infantis e juvenis, recitais, momentos de teatro e revista, recitais, assaltos carnavalescos, bailes de máscaras, reveillons, etc etc.



Foto gentilmente cedida pelo Dr. Farrica. Anos 1940.

Durante os três dias de Carnaval tudo servia de paródia, inclusive imitar A ou B,  a silhueta de alguém demasiado gordo ou demasiado magro, capaz de desencadear o riso que a quadra suscitava. Na foto, a divertida moçamedense Regina Peixoto (proprietária da Papelaria Regina, na Rua da Praia do Bonfim) num Carnaval algures na década de 1940, vestida com o fato do Dr. Novais, o médico na época director do Hospital de Moçâmedes. A seu lado, a esposa do Dr Farrica, em foto cedida por este saudoso Dr.

Avançemos até aos anos 1950, e vejamos como o Carnaval de rua era festejado entre os africanos, através das fotos que seguem conseguidas através do espólio que herdei de minha sogra:



 A concentração das danças de rua africanas começava no velho campo de futebol, situado ao fundo da Avenida da República... Foto de MariaNJardim





As danças do Forte de Santa Rita e do plateau da Torre do Tombo, nos anos 1950. Foto de MariaNJardim (espólio da minha sogra)

 
Outra foto da concentração no velho campo de futebol de terra batida. Foto de MariaNJardim.
(espólio da minha sogra)




Por essa altura, amos 1950, eram quatro as chamadas danças de rua indígenas* em Moçâmedes: a do plateau da Torre do Tombo, a do Forte de Santa Rita, a do Benfica e a da Aguada. A concentração das "danças" do "Forte de Santa Rita", do "Benfica" e da "Aguada" começava cedo, e fazia-se, como foi dito, no interior dos muros do antigo campo de futebol, situado ao lado da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes. Era do interior do velho campo de futebol que partiam as danças indígenas, que durante os três dias em que decorria o Carnaval, desfilavam pelas ruas da cidade, cantando e batucando, lideradas pelos seus reis e pelas suas rainhas, que trajavam carnavalescamente à guisa dos reis e rainhas europeias, aos quais não faltavam as respectivas corôas e os ceptros reais, corôas que nas rainhas eram colocadas em cima de véus que vinham até ao chão, fazendo lembrar as santas dos altares nas igrejas católicas.

Tudo servia de indumentária nesses três dias de paródia...Foto de MariaNJardim.
(espólio da minha sogra)

Na década de 1950, com seus reis, suas rainhas, e damas de honor, festejando o Carnaval em Moçâmedes. Foto MariaNJardim.
(espólio da minha sogra)





"Quimbares" ensaiam passos de dança no interior do campo de futebol de Moçâmedes. Foto MariaNJardim.
(espólio da minha sogra)
 
E a dança saia à rua passando junto às pérgulas e aos caramanchões da Avenida da República, como se pode ver... Foto de MariaNJardim.
(espólio da minha sogra)


A seguir ao rei, à rainha, damas de honor e súbditos, vinham os tocadores que utilizavam músicas compostas especialmente para os desfiles e vários instrumentos de percussão para marcar a cadência rítmica que se fundia com as passadas inimitáveis da dança: tambores, bombos, cornetas, reco-recos, marimbas, quissanges, apitos, latas, garrafas, ferrinhos, etc. Mais atrás seguiam os bailarinos, e toda uma mole humana, dançando, cantando, erguendo paus, cartazes, bandeiras e estandartes,  rostos pintados, panos garridos, lenços coloridos, capas, colares, soutiens, pulseiras, brincos, óculos, chapéus de abas largas, bonés, calças listadas, casacas ornamentadas com adornos representando postos de exército, etc... Outros exibiam-se semi-nús, com saia curta de sarapilheira, rostos pintalgados, penas na cabeça, simulando indios emsuas lutas e rituais, azagaias, máscaras rudimentares de papelão, etc...  O ritmo da dança era comandado pelo apito do mestre, que rodopiando esbracejava, gesticulava, incentivava ao movimento constante.

O cozinheiro do ti Óscar d' Almeida, era sempre o rei da «dança» do plateau da Torre do Tombo.  O Dominguinhos ceguinho, poeta muito conhecido e acarinhado em Moçâmedes, que aos sábados percorria a cidade de ponta a ponta em busca de esmolas, era quem compunha a música e a letra da «dança» do Forte de Santa Rita. As letras continham críticas sociais, apontavam para assuntos na ordem do dia ( o alcoolismo, o endividamento, as mulheres de mau porte, os amores perdidos, achados, frustrados e maculados), mas também a crítica velada ao sistema vigente era tema para a letra das canções.

As danças ao desfilarem pelas ruas da cidade paravam em determinadas portas, onde faziam a sua exibição, que terminava com uma vénia cortês do líder, que assim se despedia dos espectadores, ao mesmo tempo que recebia em troca um «matabicho», que podia ser uma garrafa de vinho e algo para comer, (o que vinha sempre a calhar, sobretudo quando a fome e a sede começavam a apertar), ou uma gratificação em dinheiro .

E a festa terminava em apoteose, quando ao fim do dia, no regresso a casa, já bem bebidos e excitados, fruto da colheita de vários donativos conseguidos pelas "danças", no decursos das exibições efectuadas às portas das casas, os "Quimbares de Moçâmedes", componentes de grupos rivais, se encontravam frente a frente, lá para os lados do Cemitério, e do encontro redundava numa autêntica "batalha campal", de luta corpo a corpo, que obrigava à intervenção da polícia.





Cumprindo «rituais de iniciação» no antigo campo de futebol.  Entre outros: José Adriano Borges, Amadeu Pereira, Norberto Gouveia (Patalim), Caála, Mário Bagarrão, Helder Cabordé, Renato Sousa Veli, Artur Paulo Carvalho (Turra). Foto do livro de Paulo Salvador


Dois povos, duas culturas! 

A colonização teve sempre ao leme governantes metropolitanos e que tudo determinavam a partir das ordens ditadas do Terreiro do Paço. As gentes brancas  laboriosas de Angola, inteiramente dedicadas ao trabalho do dia a dia, não tinham qualquer voto na matéria e limitavam-se ao seu viver pacato, herança de seus pais e avós,  e nestas alturas ganhavam também elas  direito de se expandirem e queimar as energias acumuladas. Aos costumes europeus aderiam também a população mestiça e um ou outro elemento da população negra assimilada à cultura portuguesa. Estava-se na década de 1950, em pleno apogeu da ditadura do Estado Novo.

Esta era a chamada "juventude rebelde" de Moçâmedes, por volta de finais dos anos 1940, início de 50.  Na foto imediatamente acima  vemos um grupo de adultos jovens, destemidos, provocadores, irrequietos, mas como alguém disse, cujo comportamento se transformava radicalmente, quando, ao anoitecer, começavam as matinés dançantes nos clubes da terra (ao tempo, no Aero Clube, mais tarde no Atlético ou no Clube Náutico), sabendo ser romântica, quando as circunstâncias convidavam a tal!


A Batalha da "cocotes" decorria normalmente na Avenida da República. Aqui a disputa fazia-se junto do "Quiosque do Faustino"
Outra foto da "batalha da "cocotes" que fazia vibrar a juventude nos anos 1950.Esta também  junto ao referido Quiosque


Era assim que o Carnaval, na sua forma semi-entrudesca,  era vivido entre os jovens, e atingia o seu clímax em Moçâmedes, com as fustigantes "batalhas de cocotes" entre grupos "rivais", como mostra esta foto, tirada em 1955, ali bem juntinho ao "Quiosque do Faustino", nos inesquecíveis jardins da Avenida da República, o ponto de encontro da comunidade.


Estas "batalhas" tanto se desenrolavam no terreno, corpo a corpo, como a partir do cimo de camionetas de caixa aberta, alugadas para o efeito e enfeitadas com folhas de bananeiras, que se deslocavam ao longo da Avenida, e ao se cruzarem davam origem a violentos e cruzados "bombardeamentos" de cocotes. Para tal, cada grupo de véspera começava a confeccionar os ditos «cocotes», colocando pequenas porções de farinha de trigo dentro de quadrados de fino papel de seda de várias cores, atando-os com linha de forma a produzirem pequenas bolas, uma prática possivelmente herdada dos chavaris medievais que incluiam zombarias, pancadarias simbólicas, enfarinhadas, seringadas e molhaças que decorriam nas ruas das cidades europeias.

Esta  é a memória de um tempo que nos apraz aqui registar, um tempo que não volta mais, o tempo da nossa adolescência, da nossa juventude descontraída, despretensiosa e alegre, em que as ditas "batalhas" deixavam durante três dias a cidade irreconhecível, tendo a Câmara Municipal  que, logo pela manhã, mandar proceder à limpeza daquele local, que era o epicentro da cidade.




Bilibaus e Tragateiros. Foto do livro de Paulo Salvador

Carnaval de 1955 em Moçâmedes. "Bilibaus" e Tragateiros" antes das "batalhas de cocotes" . Da esq. para a dt., em cima: Leão da Encarnação, Mário de Figueiredo, ?, António Ferreira (Penha), Amadeu Pereira, Fernando Peçanha, Anatálio Pereira, ?, ?, ?, Norberto Gouveia e António Barbosa. Embaixo: Albertino Gomes, José Adriano Boorges, João Bernardinelli, Wilson Pessoa, Edgar Aboim, ?, João António Guedes, ? , Renato Sousa Veli, Artur Paulo de Carvalho (Turra) e Mário Júlio Peyroteu...


Outro grupo de intervenientes na "batalha de cocotes", este do bairro da Torre do Tombo.Foto do meu album . 1955.

No topo: Zequinha Esteves, ? e Amilcar Almeida. De pé: Arménio Jardim, José Patrício (aviador), ?, Nelinho Esteves, Bulunga, Eduardo Faustino (gémeo) Lopes, Fernando Pessanha, Armando Esteves (Trovão), José Carlos Lisboa (Lolita), Manuel Cambuta, João António Bagarrão Pereira (John), Mário Ferreira e Gabriel. De joelhos: ?, Pedro Eusébio, Joaquim Gregório, Bernardino (Noca), Zeca Carequeja, ?, Eugénio Estrela, Dito Abano e Rui Carapinha. À frente ?.

Desfile de carros alegóricos: "O Tragateiros" . Foto do meu album.

A evolução do Carnaval permitiu um novo tipo de exibição: o desfile de carros alegóricos que em Moçâmedes foi inaugurado nesse fabuloso ano de 1955, e que decorreu, como não podia deixar de ser, ao longo da longa Avenida da República. Nesta foto, podemos ver o grupo "Os Tragateiros", empurrando  um veículo transformado numa enorme pipa de vinho.



Desfile de carros alegóricos em 1955. Este representativo do bairro da Torre do Tombo, que há época ainda era grandemente habitado, sobretudo por famílias de pescadores e de industriais ligados à indústria da pesca. Foto do meu album.  Nesta foto, o carro alegórico representativo do Bairro da Torre do Tombo passa junto do edifício dos Correios. Integravam este carro: Osvaldo Correia, Óscar, José Duarte, Eurico Rolão, Nidia Almeida, Eduarda Bauleth Almeida, Celisia Calão, Ricardina Lisboa, Manuela Bodião, Salete Braz e Francelina Gomes (quase todas as componentes femininas faziam parte da equipa de basquetebol do Ginásio Clube da Torre do Tombo). O carro foi construído no quintal da casa grande de João Duarte, junto da estrada que subia para a Praia Amélia, que há época se encontrava alugada à familia de Olimpio Aquino.

Neste Corso realizado no ano de 1955 participaram mais de uma dezena de carros, que poderão ser vistos, mais pormenorizadamente, clicando Aqui . Do cimo dos "carros", grupos de foliões, rapazes e raparigas, em brincadeira animada com os que os observavam  a partir da Avenida, ou acompanhavam a pé o cortejo, trocavam confetis, serpentinas, flores, etc.



O carro alegórico representativo do Banco de Angola, passando junto da sede do referido Banco
O carro alegórico representativo do Banco de Angola passando junto do edifício onde ficava a Papelaria Regina...
O carro alegórico representativo do Grupo Desportivo do Banco de Angola foi o mais requintado e por via disso, o vencedor!

Este carro alegórico representava a firma João Pereira Correia, Lda. (de João Pereira Correia e José Duarte), representantes em Moçâmedes das máquinas de costura Oliva. 



Foi o Corso possível, nesse período de pós II Grande Guerra, florescente para outras nações, mas que entre nós só o engenho e a arte podiam suprir a carência de materiais disponíveis no mercado moçamedense, fruto da reprovável política de fixação e desenvolvimento conduzida pela Metrópole, que submetia as colónias a mecanismos de import/export, que durante muito tempo as impedira de progredir. A verdade é que este Corso ficou para sempre na memória daqueles que na época viviam em Moçâmedes, nesses tempos anteriores a 1960, quando todos nos conhecíamos e "todos eram primos e primas"... Tempos anteriores  à explosão populacional que a partir daí se verificou em toda a Angola, após os trágicos acontecimentos no norte de Angola (1961), que deram lugar ao início da luta armada contra os movimentos nacionalistas, quando Portugal suportando-se no lema " para Angola, rapidamente e em força",  resolveu, a par de uma guerra sem fim à vista, arrepiar caminho, impulsionar o desenvolvimento do território, e estender os benefícios a toda a população,  numa palavra, recuperar o tempo perdido, como nenhum outro país colonizador jamais o fizera. Mas era tarde demais! O tempo das colonizações e dos colonialismos tinha chegado ao fim. O mundo seguia outros caminhos...

Momento da eleição dos Reis de Carnaval num baile realizado em Moçâmedes em 1955


Mas continuemos... 


Um dos momentos culminantes destes bailes era da eleição do Rei e a da Rainha da festa, recaindo a escolha, infalivelmente, nos mais divertidos da noite. A foto acima mostra-nos o momento da eleição do Rei e da Rainha num baile de Carnaval realizado no salão do Atlético Clube de Moçâmedes em 1955. A Rainha eleita tinha sido a Maria Julia Maló de Abreu (Pitula), filha de Moçâmedes, à época basquetebolista no Sporting Clube de Moçâmedes. O Rei, escapa-me o nome, sei que trabalhou na Casa das Noivas, que corria na maratona de fim de ano em Moçâmedes, e nada mais. A entrevistar os eleitos, o chefe de produção do Rádio Clube de Moçâmedes, Carlos Moutinho, tendo a seu lado Oliveira (Maboque). À esq. Lalai Jardim, por detrás da "Rainha", Silvestre, e mais à dt, Arnaldo Matos?, Renato Veli, Mário de Sousa; um pouco baixo, Simão. Ao fundo, elementos do animado conjunto musical "Os Diabos do Ritmo", que na foto a seguir surge em pleno, e do qual fizeram parte, nesta noite, o pianista e acordeonista Albino Aquino (Bio), Albertino Gomes, Frederico Costa e Marçal. Faltava aqui o Lico Baía (acordeonista).
 


O conjunto musical os «Diabos do Ritmo» era nesta década e início dos anos 1960, o grande animador das festas da cidade de Moçâmedes, pelos animados bailes que proporcionou, que se prolongavam pela noite fora até ao raiar do dia, bem como pelas matinées dançantes, aos domingos à tarde, que acabavam impreterivelmente às 20 horas. Segue um poema dedicado por Neco Mangericão a este conjunto por um moçamedense:


"DIABOS DO RITMO

Às meninas do meu tempo
Acabei de ouvir a história dum violão
Uma coisa tão linda assim,
trouxe-me a velha recordação
de um grupo folião e seresteiro,
de malta pobre e sem dinheiro
mas com muita, muita vocação.

Ai que saudade sinto em mim
desse tempo pioneiro
em que vos tiravam da cama
acordes que subiam em chama
numas canções apaixonadas,
tocadas e em coro e cantadas
pelo Jaime Nobre, o Albertino
pelo Neco, o Cerieiro, o Bino (*)
e o Lito Baía, viola fenomenal,
e, ainda, pelo barbeiro Marçal

Assim passávamos o verão,
entre capoeiras assaltadas,
serenatas e churrascadas,
ou caranguejadas e afins,
lá na Aguada, no Martins,
que as fazia, a troco de nada.

E o tempo tudo levou.
Tudo passou e acabou
Aquela malta boa e temerária
seus instrumentos arrumou,
eu já não tenho o meu bandolim,
e a nossa voz p'ra sempre voou,
tal como também se acabou
aquela Banda extraordinária
que "Diabos do Ritmo" se chamou,
e que o nosso grupo formou.

Não se voltou a ver outra assim...
Quem se lembrará hoje dela?

(*) Desculpa lá Bio, pus Bino só para rimar NECO

(João Manuel Mangericão)



A propósito, os "Diabos do Ritmo" tinham por hábito fazer, de quando em quando, no Verão, aos fins de semana, por volta da meia noite, enquanto a cidade dormia, serenatas à porta das casas das raparigas, deslocando-se para o efeito em camionetas de caixa aberta que transportavam também os instrumentos musicais (por vezes até o piano). Eram serenatas umas vezes efectuadas por iniciativa dos músicos, outras vezes encomendadas por namorados que se juntavam aos músicos e até participavam do côro. E nem todas as raparigas as recebiam de igual modo. Umas, com mais à vontade e desinibição, vinham às janelas oferecer sorrisos e agradecimentos e até algo de comer/beber. Outras, mais tímidas, limitavam-se a observar e a escutar as românticas canções, embevecidas, por detrás das cortinas... Todas felizes com a genial ideia!
 
 

Esta é a foto de mais um animado baile de Carnaval ocorrido na cidade de Moçâmedes, este no Salão do Clube Nautico, em 1954. E como não podia deixar de ser, foi também abrilhantado pelos famosos "Diabos do Ritmo". Através da foto podemos ver o acto da coroação do Rei e da Rainha da festa, ou seja, de Maria Lídia e de Arlindo Cunha, (pequeno comerciante da praça), os mais dados à paródia. Maria Lídia foi em 1954 a merecida «Rainha» deste baile de Carnaval, senhora de uma vivacidade contagiante, para além disso cantava lindamente e emanava uma simpatia que não podia deixar de prender aqueles que com elas tiveram o privilégio de contactar. Arlindo Cunha, o «Rei», marcava pela seu modo de ser e de estar, pela sua simplicidade e boa disposição, era um homem apaixonada pelas coisas de que gostava, dinâmico e empreendedor, e um grande amigo e mecenas do Atlético Clube de Moçâmedes.Entre outros, da esq. para a dt, por detrás dos eleitos: Renato de Sousa Veli, ?, Tó Zé Carvalho Minas, Carlos Moutinho (chefe de produção do RCM), Jesuina Almeida Carvalho, Carla Almeida Frota, Beatriz Almeida Frota, Alvaro dos Santos Frota e José Adriano Borges (o popular tio Alegria dos programas infantis das manhãs de domingo no RCM, e treinador, fundador e jogador de hóquei em patins do Atlético Clube de Moçâmedes) .




Foto do meu album pessoal

Esta foto foi tirada no meu primeiro baile de Carnaval. Estávamos no Verão de 1954, em pleno salão do Clube Nautico (Casino), à época considerado o mais "IN" da cidade. Entre outros, da esq. para a dt, Rui Bauleth de Almeida (RCM) e a inesquecível e irrequieta Octávia de Matos, Nídia e Arménio Jardim, Marta e Gabriela, Antunes Salvador (fotógrafo) e Justina Salvador, à esq. Um pouco atrás, à esq., Monteiro, Cristão (Quitólas) e Artur Homem da Trindade (desenhou as vivendas e os edifícios mais bonitos de Moçâmedes).

Eram bailes onde todos se divertiam em conjunto, pais, filhos, tios e primos, e até avós. Aunda estávamos longe da era das discotecas, em que jovens adolescentes de ambos os sexos se divertiam entregues a si mesmos, sem a companhia de um familiar mais velho. A década de 1950 foi, aliás, uma década de transição entre duas épocas. Por esta altura ainda não tinha chegado  até nós o Rock n' Roll, nem o Twist.  Dançava-se ainda agarrado ao par,  e os clássicos tangos e valsas eram muito solicitados  ( «Comparcita», «Caminito», Danúbio Azul, Valsa dos Patinadores, etc.), também se dançavam baiões, marchas, passodobles, rumbas, slows, boleros, etc.). Mas eram sobretudo as marchinhas brasileiras, os animados baiões, os passodobles e as rumbas que animavam os nossos Carnavais, tocadas pelos inesquecíveis "Diabos do Ritmo". Muito em voga nesse tempo a marcha brasileira "Você pensa que cachaça é água...". Era com  a marcha "Já está na hora" que encerravam os bailes de Carnaval. Mas dava-se preferência também a  passodobles...  e a tangos como a  «Comparcita» de Carlos Gardel  (o tango eleito pelos namorados), ou não fossem os tangos o género musical que dançado proporcionava o prazer da proximidade física "por instantes socialmente tolerado" pelo romantismo que os tangos acarretam. Sim, porque nos anos 1950, numa cidade pequena como Moçâmedes,  ainda as raparigas eram alvo fácil para críticas, muitas vezes demolidoras, que punham em causa a sua reputação. A verdade é que prevalecia a compostura socialmente aceite, e  ninguém parava até ao raiar do dia, e quando o baile chegava ao fim, toda a gente pedia mais uma musiquinha... e ninguém saia dali cansado! Terminado o baile, era comum os rapazes sairem do salão de baile directamente para uns refrescantes mergulhos na Praia das Miragens, que ficava mesmo ao lado do Clube Nautico (Casino). E a partir das 17hs do novo dia, lá estávamos todos de novo, fresquinhos como um alface, para a matinée dançante! 

Acontecessem no Casino ou no Atlético, nos Carnavais ou Reveillons de passagem de ano, ou em outras quaisquer datas, a lotação das mesas sempre esgotava, restando aos mais jovens, do sexo masculino, ficarem de pé junto ao átrio de entrada do salão, enquanto as raparigas, as senhoras e os casais mais idosos ocupavam o conjunto de mesas que rodeavam os salões.


Recordar os bailes de Carnaval em Moçâmedes é  pois recordar momentos inesquecíveis de grande animação, com bailes de máscaras e quermesses, passados no salão do velho Ginásio Clube da Torre do Tombo (até meados dos anos 1940);  ou no salão do Aéro Clube da terra (até finais de 1940),  e mais recentemente nos do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Nautico (Casino). E até no velho Ferrovia, e no salão do velho Hotel Central ... É recordar os assaltos de Carnaval em casas particulares, ou em garagens das novas vivendas que começaram a surgir a partir da década de 1950, por toda a cidade,  organizados por grupinhos de adolescentes e jovens que ali apareciam devidamente mascarados.  É recordar as histórias contadas pelas nossas avós de um tempo em que não existiam clubes nem salões e as festas decorriam ao ar livre, dançando-se em cima de estrados de madeira montados para tal, ou em casas particulares e no interior de velhos barracões.



Carnaval de rua em Porto Alexandre (Tombwa). Fotos cedidas por Álvaro Faustino

Por esta altura (anos 50/60), na vizinha Porto Alexandre (actual Tombwa), a juventude da terra não deixava em mãos alheias as festividades do Carnaval. Para além dos animados bailes de salão, podemos ver aqui, como no seio daquela comunidade europeia, à semelhança das chamadas "danças indígenas", aconteciam também danças de rua. Era como que uma interpenetração de culturas que estava em marcha, fenómeno aliás deveras interessante, porquanto era acompanhado de perto pelos africanos da terra, que sem participar na dança, os os acompanhavam, como as fotos nos mostram.



Carnaval de rua em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Em Porto Alexandre, Carnaval sem Gigantones e cabeçudos não era Carnaval...Foto cedidas por Álvaro Faustino
Baile de Carnaval em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino
Baile de Carnaval em Porto Alexandre. Foto cedida por Álvaro Faustino



Divertidos como era os alexandrenses, também os bailes do Recreativo (anos 50, 60, 70...) eram inigualáveis pela alegria e pela camaradagem com que se desenrolavam. Aliás o que se poderia esperar de uma festa onde o casal Álvaro Faustino e Elizabete Pessanha estavam presentes? Paródia, paródia e mais paródia!


No Clube Nautico em 1960, crianças num concurso de máscaras infantis: Fernanda Alves, ?, ?, Graciete Vaz Pereira e Tita Vaz Pereira

Mas o Carnaval em Moçâmedes tinha outras facetas que não devem ficar esquecidas. Eram os concursos de máscaras de Carnaval dedicados aos mais novos que decorriam quer no Cine Teatro de Moçâmedes, quer mais tarde no Cine Esplanada Impala, ou ainda nos salões do Atlético e do Clube Nautico (Casino).



Nesta foto, Bellany Veiga Baptista faz a sua apresentação no Clube Nautico?, vestida de nazarena. À dt. Albertino Gomes (a dt.), o "endiabrado" baterista do conjunto musical "Diabos do Ritmo» Cedida por Marizete Veiga



Leninha Jardim Vilaça, vencedora num dos Concursos Infantis de Carnaval realizado no Impala Cine, no incio dos anos 1970. Cedida pela própria.
 

  Paula Jardim. Do meu Album


                                                
Outro Concurso Infantil, onde se evidencia, vestida de "boneca" no interior de uma caixa de papelão, a pequenita Carla Branco Câmara (Caly). 1970. Foto da Caly


Voltemos ainda mais uma vez ao Carnaval de rua dos africanos que teve o seu grande "apagão" em 1961, ano do início da luta armada do "exército português" contra os movimentos de libertação, em consequência dos massacres selvaticamente perpretados pela UPA (União dos Povos de Angola, mais tarde FNLA), não contra os verdadeitos "colonialistas", "os exploradores do povo angolano",  mas contra gente trabalhadora e indefesa, europeus e africanos, que ganhavam o seu pão a trabalhar duro nas fazendas do norte de Angola. Aqueles estavam bem de vida e a bom recato, e nunca em tempo algum foram lesados.  Mas foi a partir de então, com a proibição de ajuntamentos e  manifestações de rua, que acabaram as "danças indígenas" que durantes três dias desfilavam, cantando e batucando pelas ruas da cidade. 

O Carnaval, grande festa do povo acabou, abruptamente. Acabaram as exibições de máscaras, e até as animadas batalhas de «cocotes» que deixavam a Avenida da República e as ruas laterais todas desarrumadas e cobertas de farinha chegaram ao fim.  Deixámos de ver desfilar na Avenida os corsos de carros alegóricos, uma prática recente patrocinada pelos clubes e pelos jornais da terra, que dava oportunidade para competições e fazia jus a prémios patrocinados por casas comerciais aos carros melhor ornamentados, imprimindo à festa as caracteristicas de um Carnaval europeu. 

A quadra carnavalesca a partir de 1961 perdeu a graça e a alegria que havia proporcionado durante décadas à juventude da nossa terra, e a todos quantos na festa se queriam incorporar. Durante o interregno que se seguiu  - o qual foi mais prolongado em Moçâmedes que em outras cidades de Angola, como o Lobito e Luanda - ; as festas passaram a ser realizadas no interior dos salões dos Clubes desportivos da cidade e em casas particulares, através de Bailes e «assaltos» de Carnaval, ou de um ou outro concurso de máscaras juvenis, e pouco mais. Tenha-se em conta   que, com o início das comemorações das "Festas do Mar" em 1961, muito do brilho do Carnaval foi desviado para as estas festas, cujas datas eram muito próximas.

Mas a grande festa do povo acabaria por regressar às ruas de Moçâmedes...  Não tão rapidamente nem com o deslumbramento que veio a adquirir em cidades como Luanda Lobito, que apresentavam já  com uma certa organização, regulamentos próprios e um novo tipo de promoção que incluía desfiles cada vez mais grandiosos com trajecto previamente demarcado, etc, transformando-se em cartaz turístico.

Saltemos então uns anos adiante. Eis-nos em 1974, mês e meio antes do golpe militar de 25 Abril que veio depôr o Estado Novo, e instaurar a democracia em todo o Portugal. Estava-se a pouco mais de ano e meio da independência de Angola. As tradicionais "danças indígenas"  não tinham voltado em força às ruas de Moçâmedes, cantando, dançando e batucando. O Carnaval  não lhes possibilitava ainda de novo  o extravazar de emoções por demasiado tempo contidas na alma do povo...

Outras "danças de rua", menos tradicionais e primitivas, mais organizadas, mais coloridas, menos africanas, mas onde traços da cultura africana e europeia se fundiam numa cultura carnavalesca de tipo "abrasileirado" que apontava já para os Carnavais do futuro...



Fotos cedidas por um amigo


Nesse derradeiro Carnaval de Moçâmedes, assistiu-se a um desfile em torno da Avenida da República que teve a participação de jovens africanas e jovens europeias como estas duas fotos testemunham, umas brasileiramente vestidas, com sedas e setins alaranjados, brincos, colares, turbantes, etc., outras exibindo trajes que evocavam usos e costumes da cultura greco-romana, raiz da cultura europeia, onde não faltava o coche, símbolo do poder monárquico dos séculos XVII e XVIII.


Mas também desfilarem carros alegóricos que transportavam em sí outras mensagens, como o  da JAEA  (Junta Autónoma de Estradas de Angola), a sugerir a nova Angola progressiva e multirracial que se pretendia para o futuro... Por esta altura, fruto da nova política  de assimilacionismo acelerado, levada a cabo pelo Estado Novo a patir de 1960, já muitos africanos ocupavam lugares de destaque um pouco por toda a Angola, sobretudo no funcionalismo público. Mas todas as medidas visando recuperar o tempo perdido, e que finalmente haviam lançadoo terrutório na senda de um imparável progresso, revelar-se-iam tardias demais...

Este Carnaval foi festejado como que representando um derradeiro encontro de culturas a encerrar o ciclo dos carnavais coloniais em Moçâmedes, a grande festa do povo  levada pelos portugueses pat Angola, e que durou ali quase um século. Mas o derradeiro Carnaval foi mesmo o de 1975, no ano da independência.


Alexandrenses parodiando o seu último Carnaval em terras do Namibe. Foto de Alvaro Faustino. 1975
1975, o último Carnaval  no recindo do Ferrovia. Foto de Alvaro Faustino



Segundo informações recolhidas, estas fotos foram tiradas no  Carnaval de 1975, em Moçâmedes. Ainda aqui, a situação mantinha-se calma nas cidades  litorâneas do sul de Angola, e nada parecia perturbar ou demover a vontade das gentes de Moçâmedes e de Porto Alexandre, de se manterem em Angola, e de se divertirem.


A independência aconteceu. Entre o fogo cruzado das balas e dos morteiros, que de quando em quando cruzavam o ar da outrora pacata e calma cidade, a comunidade branca de Moçâmedes não teve outro remédio senão abandonar a sua amada cidade. E o êxodo aconteceu, com a dimensão de uma verdadeira "limpeza éunica". 

Eis algumas fotos do 1º Carnaval da cidade do Namibe, já após a DIPANDA.  As "danças de rua" voltaram em força, umas apresentavam um cariz mais genuinamente africano nas suas raízes, mais popular, mais primitivo, como que sobrepujando o formalismo "pomposo" do desfile de carnaval à europeia...


 

 
 

Outras mais organizadas, menos tradicionais e primitivas, mais coloridas,  onde traços da cultura africana se fundiam numa cultura carnavalesca de tipo"abrasileirado".

Os portugueses partiram, o Carnaval ficou para animar a festa do povo, povo brando ou negro para quem sobram sempre as migalhas da cornucópia que deveria ser distribuida por todos. 

Ficam mais estas recordações.

MariaNJardim
                                                                             



(1). A este primitivo grupo, embrião do povo "quimbar" oriundo do Brasil, vieram juntar-se africanos de outras etnias, escravos libertados de navios de tráfico negreiro clandestino apresados por força do Decreto de abolição da escravatura, de 12 de  Dezembro de 1836, enviados de Luanda para Moçâmedes para prestarem serviço nas diversas actividades económicas que se iam constituindo,  no quadro de um novo paradigma colonial, de povoamento e desenvolvimento do território. Ou seja, por força da implantação da agricultura de exploração e do sector das pescas em Moçâmedes, a partir da fundação da cidade, em 04 de Agosto de 1849.   Estava assim criado o nucleo populacional africano designado por "quimbar", saído da miscigenação entre  povos de várias etnias e de diferentes proveniências, que, deslocados do seu meio, sem radicação étnica nem uma língua única, passaram a adoptar a cultura "quimbar", que era já uma mistura de costumes afro-europeus.  Quimbares  podiam ser encontrados a viver tanto em Moçâmedes, como espalhados pelas várias povoações pesqueiras e agrícolas do distrito, entre Benguela e a Baía dos Tigres, e entre Moçâmedes e o  Lubango, Humpata e Chibia. 

Com o desenrolar da colonização também alguns povos oriundos das margens do Bero, Giraúl e Curoca, entre os quais os Cuisses, Curocas e Hereros, ou mesmo os mais distantes Nhanecas-Humbes, Ambós e Ganguelas (W) (estes não tanto),  ao se aproximarem daa cidade e de locais onde trabalhavam quimbares, acabaram alguns por sofrer um certo grau de aculturação e adoptar a cultura "quimbar", passando inclusive, com o rodar dos tempos, a mandar os filhos à escola oficial. Mas muito poucos infelizmente.  O deserto do Namibe era maioritariamente povoado pelo povo etnolinguístico Herero, Helelo, ou Ovahelelo, entre os quais se destacam os subgrupos Cuvales (o maior), Dimba, Chimbas, Chimucuas, Cuanhocas e Quendelengos. Eram povos insubmissos, resistentes à integração,que preferiam deambular pelas margens dos rios Bero, Giraúl, Vintiaba/Bentiaba, por toda uma zona que abrange uma área que se estende pelas encostas da Serra da Chela, e chega muito perto do Chiange, mantendo o seu estatuto de tradicionais pastores/criadores de gado, e praticando uma vida nómada, devido à constante procura por pasto e água de que o Deserto do Namibe, o habitat onde vivem, carece, por falta de chuvas.
                                                                     

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Debruçemo-mos um pouco sobre a História do Carnaval, que começou há mais de 4 mil anos antes de Cristo, no antigo Egipto, com determinados rituais de cariz religioso e agrário na época das colheitas, tais como as festas de culto a Ísis. Desde então as pessoa pintavam os rostos, dançavam, bebiam, divertiam-se, libertando tensões acumuladas. Há também indícios que o Carnaval tem origem em Roma em festas pagãs, rituais de orgia e danças em homenagem ao Deus Pã e Baco. Eram as chamadas Lupercais e Bacanais ou Dionísicas. Com o advento da Era Cristã, a Igreja para conter os excessos decidiu-se pela inclusão do período momesco no calendário religioso, e o Carnaval ficou sendo uma festa que termina em penitência na quarta feira de cinzas. Mas estas acentuavam no período que antecedia a Terça-feira Gorda (o último dia em que os cristãos comiam carne antes do jejum da quaresma), no decurso do qual haveriam que ter també abstinência de sexo e até mesmo das diversões, como circo, teatro ou festas. De acordo com o calendário gregoriano, o Carnaval é uma festa móvel cuja data é indicada pelo domingo de Páscoa, também para que não coincida com a páscoa dos judeus. regra,segundo a qual o domingo de Carnaval cairá sempre no 7º domingo que antecede à Páscoa.

Na Idade Média, predominavam os jogos e disfarces. Em Roma havia corridas de cavalos, desfiles de carros alegóricos e divertimentos inocentes como a briga de confetes pelas ruas. O baile de máscaras foi introduzido pelo papa Paulo II, no século XV, mas ganhou força e tradição no século seguinte, por causa do sucesso da Commedia dell'Arte. As mais famosas máscaras era e ainda são as confeccionadas em Veneza e Florença, muito utilizadas pelas damas da nobreza no século XVIII como símbolo máximo da sedução.

Na Europa um dos principais rituais de Carnaval foi o Entrudo, termo latino que significava a abertura da Quaresma, existente desde 590 d.C., quando o carnaval cristão foi oficializado. O povo comemorava comendo e bebendo para compensar o jejum. Mas, aos poucos, o ritual foi se tornando bruto e grosseiro e atingiu o máximo de violência e falta de respeito em Portugal nos séculos XVII e XVIII, com homens e mulheres a atirarem água suja e ovos das janelas dos velhos sobrados e balcões, enquanto nas ruas havia guerra de laranjas podres e restos de comida e se cometia todo tipo de abusos e atrocidades.

Este seria, pois, o substrato básico da cultura carnavalesca vivida em Moçâmedes no periodo apontado, em que se assistiu a uma contaminação de culturas, entre africanos e europeus que nada nem ninguém jamais poderá derrubar!

Não há culturas puras. Bastaria para tal verificarmos que dentro de cada um de nós existem culturas diversas. O multiculturalismo é muito mais antigo do que pensamos. Ser europeu, por exemplo, já é um produto histórico com muitas misturas! O povo quimbar de Moçâmedes, hoje NAMIBE, é simbolo dessa miscigenação de culturas, à qual só podem resistir os povos que persistirem em se manterem isolados no seu etnocentismo.   O futuro não se compadece com exemplos tais que estão condenados a desaparecer em prol de Angola unida e próspera! O povo quimbar de Moçâmedes, dada a sua miscigenação, não representa qualquer etnia, e por isso mesmo é simbolo da NAÇÃO ANGOLA!


MariaNJardim


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