05 fevereiro 2013

O farol da Ponta Albina albergava um hóspede de peso : Simão Toco, o profeta angolano



Simão Toco

"Tudo está escrito. Custa o que custar, fale o que o mundo quiser falar contra os Tocoístas, mas a verdade é esta: Deus tirar-vos-à desta terra para outra e passareis o Jordão.

"Mas é pena que os rapazes que estudam a língua portuguesa não se interessam servir à Cristo. Pobres africanos que até aqui não pensam, nem prevêem o futuro."


Simão Gonçalves Toco


Ponta Albina Light from NW


O farol da Ponta Albina albergava um hóspede de peso : Simão Toco, o profeta angolano

O farol da Ponta Albina, entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres,  albergava  um hóspede de peso, era simultâneo faroleiro e preso, um dos paradoxos de que Angola ao tempo era rica.  Simão Toco chefe sa “Seita Tocoísta”

Segundo Simão Toco, a libertação de Angola estaria dependente da sua libertação espiritual. Angola teria primeiro que ser libertada espiritualmente, porque acarreta consigo e está presa a todos os países que no passado dependiam do Reino do Congo. "Os poderes místicos de Ntotela foram levados para Portugal e estão revestidos em Salazar. Por isso, é preciso que alguém vá a Portugal e resgate esses poderes"


No Ntaya, Toco disse aos militares da FNLA:


“Será que fostes vós que disparastes a arma que atingiu o senhor Oliveira Salazar? Ou fostes vós que arremessastes a pedra que o matou? Se não conheceis a razão do vosso surgimento, então saibam que está na base do hino entoado por este povo e que se encontra no hinário BMS n.º 237 (Kikongo) que diz: ‘Nwiza, nwiza tu aleke, nwiza kutuyikama’.

Então como podem provar-me que foi graças as vossas armas que eu alcancei a liberdade?
E se foi graças as vossas armas que eu sai de Portugal, onde me encontrava na cadeia. Então graças à quem é que vocês conseguiram sair das matas onde se encontravam?  Ou que grandes armamentos possuíeis lá nas matas com que podíeis expulsar os colonialistas Portugueses em Angola?

“A minha guerra é espiritual! Não é carnal! Os políticos pensam que só eles que pegaram em armas é que libertaram este país. Mas enganam-se. Nós também lutamos. A nossa luta é espiritual e só os espiritualistas podem entendê-la”.

“Temos de lutar, não com armas. A nossa luta não é de armas. A nossa luta é com a mensagem de Deus. Temos de conversar, quer dizer convencer. A minha luta, já disse, não é de armas. Não é lutar com armas. O lutar, quer dizer, trabalhar espiritualmente, ensinar as pessoas o caminho do bem. Será como já afirmei tantas vezes, ir ao encontro das pessoas para lhes dizer que todos somos irmãos. É esta a minha luta de que tenho falado.

Em Setembro de 1974 através de Spínola, Portugal propõe a Simão Toco para que assumisse a governação de Angola independente, porque era considerado o único angolano em condições para dirigir o país com sapiência. Mas Simão Toco rejeita a proposta porque não tinha um staff a altura deste desafio, e porque este propósito não fazia parte do eu projecto inicial.


"O senhor Spínola dizia: 'Olhando para Angola, não vemos outra pessoa capaz de aguentar o país. Porque se for outros a dirigirem Angola, vão destruir o país. Portanto, para que isso não aconteça, a única pessoa confiada que achamos é o senhor Simão Toco'. E eu disse-lhe: 'Não, houve aqueles que pegaram em armas durante anos. É a esses que deve ser entregue o país». «Áh, mas esses não servem... Não, entreguem à eles. Se não poderem e se destruírem o país, mais tarde surgirá quem vai endireitá-lo'. Profecias de Mayamona, 4:8-11.

 Muito mais tarde, Toco disse: "Foi Deus quem escolheu o Doutor António Agostinho Neto e a sua governação seria para vinte e quatro anos. A ele foi-lhe dado força e o poder e Angola seria uma nação próspera durante a sua governação. Ao rejeitar o meu conselho acerca do perigo que paira sobre Angola e ao ter-me dito que eu deveria limitar-me apenas a tratar dos assuntos de Deus e deixasse os políticos resolverem os problemas políticos, o Doutor Agostinho Neto já não será digno de receber a glória de Deus. Ele poderá governar, mas não prosperará o tempo todo que durar a sua governação. Deus quis elevar o Doutor Agostinho Neto ao ponto de torná-lo um dos mais fortes e poderosos presidentes de África e do mundo. E quando estivesse a discursar, todo mundo teria de prestar-lhe toda a atenção. Isto, porque Deus quis compensar todo bem que seu pai Agostinho Neto fez à mim durante o tempo em que frequentei o liceu em Luanda". Profecias de Mayamona, 4:92-96.


O governo português procurou dividir e espalhar os Tocoístas pelos Colonato Vale do Loge, por Luanda, Benguela, Cabinda, Moçamedes, Sá Bandeira, Cela Jau, Caconda, Chibia, Porto Alexandre, Baia dos Tigres e até por S. Tomé, Índia sendo Simão Gonçalves Tôco deportado para Portugal, Açores.

Após o golpe militar do 25 de Abril de 1974, Toco regressa a Angola em 31 de Agosto do mesmo ano, depois de ter cumprido a pena que durou 11 anos. Neste mesmo ano o governo português reconhece a INSJCM.

Devido a um mal entendido que houve entre a Igreja e o Governo de Angola, os trabalhos da Igreja são novamente encerrados e os grupos são reduzidos a 3 a 4 pessoas, e mais tarde nomeado um grupo de 6 à 28 pessoas para oração e para estarem em contacto com as outras Classes, Tribos e os 12 Mais Velhos. Este grupo ultimamente veio a auto-intitular-se “Cúpula de Anciãos e Conselheiros da Direcção Central”.
Com a realização da festa organizada pelo Coro de Kibokolo aos 25.12.1982, Toco celebra a última Ceia com os Tocoistas e despede-se neste dia. No dia 01 de Janeiro de 1984, aos 66 anos de idade, na sua residência sita na Travessa do Algarve nº 18-Bairro da Terra Nova em Luanda perece o Professor/Dirigente Simão Gonçalves Tôco, tendo sido enterrado à 10 de Janeiro do mesmo ano na localidade de Ntaya (Maquela do Zombo) após uma caravana ter partido de Luanda transladando os seus restos mortais aos 08/01/1984.

Para saber mais:
http://www.carlosduarte.ecn.br/apontamentosorgreligiosas.htm



SIMÃO TOCO
(artigo assinado por Rui Ramos)

Tocoísmo é o nome dado aos seguidores do profeta angolano Simão Gonçalves Toco (1918-1984). Actualmente, estão constituídos eclesiasticamente sob a denominação “Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo”. Trata-se de um dos maiores movimentos cristãos em Angola, contando igualmente com sedes em vários outros países africanos e europeus. Tem a sua catedral no bairro do Golfe, no sudeste de Luanda, Angola. A sua sede espiritual é em Sadi-Zulumongo (NTaia), local de nascimento do profeta.
Histórico
Simão Gonçalves Toco nasceu em 1918 na localidade de Sadi-Zulumongo (Ntaia, Maquela Do Zombo, província do Uíge, Angola), tendo recebido o nome kikongo de Mayamona. Após frequentar o ensino primário na missão baptista de Kibokolo, concluiu os estudos liceais no Liceu Salvador Correia em Luanda. Por esta altura, terá conhecido um acontecimento milagroso que terá despoletado a sua missão religiosa: o encontro com Deus em Catete (Abril de 1935). Depois, regressará ao Uíge para trabalhar nas missões baptistas de Kibokolo e Bembe. Em 1942, decide partir para Leopoldville (Congo Belga) para colaborar com a missão local e dirigir um coro musical com cantores zombos, oriundos da mesma região que ele (Maquela do Zombo). A este coro dará o título de Coro de Kibokolo.
Em 1946, graças ao trabalho que lhe fora reconhecido no âmbito da missão baptista e do coro, foi convidado, junto com outros dois “indígenas” (Gaspar de Almeida e Jessé Chipenda Chiúla) para intervir nos trabalhos da Conferência Missionária Internacional Protestante, realizada de 15 a 21 de Julho de 1946, na localidade de Kaliná em Leopoldville (actual cidade de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo). Nesse momento, dirige uma prece onde pede para o Espírito Santo descer em África.
Tal prece é atendida a 25 de Julho de 1949 quando, após um desentendimento com a Missão Baptista de Leopoldville, decide convocar uma vigília de oração na sua residência (rua de Mayenge, nº 159). Naquele momento, segundo contam os presentes, sentiram um vento e começaram a tremer, realizando milagres invocando algumas passagens bíblicas
Este momento é assumido pelo tocoísmo como o momento em que o Espírito Santo desceu em África e a igreja cristã foi “relembrada”, de forma a retomar o caminho da igreja original do tempo dos Apóstolos. É portanto a data fundacional do movimento tocoísta.
Após estes acontecimentos, Simão Gonçalves Toco e muitos dos seus seguidores foram presos pelas autoridades belgas, sob a acusação de alterar a ordem pública. Em Janeiro de 1950, são deportados do Congo Belga e entregues, no posto fronteiriço de Nóqui (província do Zaire), às autoridades portuguesas. Estas procuram dar por terminado o movimento daquilo que consideravam ser uma “seita perigosa”,dividindo o grupo em pequenos grupos que serão dispersos, no âmbito da política de povoamento colonial vigente à época, em distintos colonatos e campos de trabalho forçado por toda a colónia. O líder é enviado numa primeira instância pelo Vale do Loge e, após passagens por Luanda, Caconda e Jáu, é enviado para a Baía dos Tigres, na província de Moçâmedes (hoje Namibe). Pouco tempo depois, é enviado para trabalhar como assistente num farol em Ponta Albina, na mesma região.
Em 1961, quando tem início as campanhas de libertação de Angola no norte do país, as autoridades portuguesas, conhecedoras da capacidade de mobilização do profeta, ordenam a sua ida para o Uíge e a região fronteiriça com o Congo para chamar as pessoas que tinham fugido para as matas na sequência das acções militares. Simão Toco consegue mobilizar milhares de conterrâneos, mas a desconfiança das autoridades portuguesas relativamente às suas intenções faz com que se decidam por enviá-lo para um segundo período de exílio.Desta vez, é enviado para a ilha portuguesa de São Miguel, nos Açores, onde trabalhará como assistente de faroleiro na localidade de Ginetes.
A sua permanência neste país demorará 11 anos. No entanto, não esmorecerá o seguimento da sua missão. Ao longo deste período, o dirigente intercambiará milhares de cartas com os seus seguidores em Angola, com quem construirá um movimento de carácter nacional. Em 1974, na véspera da saída de Portugal do território angolano, Toco é finalmente autorizado a regressar ao seu país, o que acontece a 31 de Agosto desse ano. Recebido pelo então governador em transição, o Almirante Rosa Coutinho, Simão Gonçalves Toco vê finalmente reconhecida a liberdade de expressão e de culto do seu movimento.
Com o advir da independência, antevendo as dificuldades de entendimento entre as três principais organizações participantes no movimento de libertação de Angola (FNLA, MPLA, UNITA), Simão Toco decide abrir uma campanha de conversações entre os seus líderes (Holden Roberto, Agostinho Neto, Jonas Savimbi) para encontrar um caminho pacífico para o país. No entanto, esta iniciativa não foi bem sucedida e Angola entra em guerra civil.
Em 1984, tem lugar o desaparecimento físico de Simão Gonçalves Toco.


Rui Ramos


Ainda sobre Simão Toco

"A creatura para ali estava naquela imensidão e ainda por cima com mordomias do Estado. Viemos a saber depois que se tratava do Sr.Simão Toco, este senhor era nem mais nem menos que um poderoso patriarca religioso que, aglutinava ao tempo milhares e milhares de seguidores, praticamente em todo o norte de Angola, e até para lá da fronteira pois os povos das duas zonas eram os mesmos Quicongos. Quem estava em Angola ao tempo sabia bem o que era o tocoismo. O que é curioso é que o homem estando preso, era em simultâneo funcionàrio do estado português com a categoria de faroleiro. Os mantimentos faziam-se-lhe chegar da seguinte maneira. No período das marés vivas e em plena vazante, o jipão fazia-se à praia e era vê-lo com o prego a fundo a calcorrear a distancia que nos separava do farol. O cabelo flanava qual bandeira em desfralda, o peito ao léu recebia os ventos marítimos como um bàlsamo, contrariando o ar seco e abafadiço do deserto; foram tempos de vida em plenitude.as trocas eram feitas e raramente se podia fazer a viagem de regresso na mesma vazante esperando pois pela seguinte. O homem à despedida abriu-se-nos, num sorriso franco,e bom. E lá fomos.
Assinado: Drakemberg

Ver tb:
 http://intelectualidatocoista.blogspot.pt/2011/08/4-o-papel-dos-ideologos-no-tocoismo.html



O ‘Tocoismo’ e o Pensamento Político Religioso Zombo Contemporâneo
Ver também: Rituais alternativos do poder em Angola 
 http://www.muanadamba.net/article-os-zombos-na-tradicao-na-colonia-e-na-independencia-50-100704186.html
 http://www.revistamilitar.pt/modules/articles/article.php?id=479
 http://www.estudosafricanos.com/
LIVRO:   http://www.calameo.com/books/000990622a8d560bdab34


 https://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:yZkWcBFEeIUJ:ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6947.pdf+&hl=pt-PT&gl=pt&pid=bl&srcid=ADGEEShtjBMWF1a0dRJOLyjWUc5TiW_YF6eLwmEDbCJC9ZFvVh72Kq2G-Oo_sYSFAvWbnchYftMc56ec5WbAWnayjCyPwCkYyGkH750cWE_PJody0rtZ1G7xVNcbsdJatI3V9pElmuJg&sig=AHIEtbSPkIFKTJIHc1h12PWQHaQ1Omo5Cw

 http://dragoscopio.blogspot.pt/2006/09/memria-perdida-iia-metstase-submersa-o.html


DAQUI http://kimbolagoa.blogs.sapo.pt/150054.html

4 comentários:

Anónimo disse...

SUA SANTIDADE SENHOR SIMAO GONÇALVES TOCO É O CRISTO QUE VEIO PARA A AFRICA NA COR NEGRA E BREVEMENTE VAI MANIFESTAR-SE.

Anónimo disse...

Bom dia MariaNJardim

As minhas saudações.

Gostava de a contactar o meu email é marco.arraya@marcoarraya.com

Obrigado
marco

drakemberg disse...

Ainda hoje me custa a acreditar que por lá passei foram tempos dignos de serem vividos! O senhor Simão Toco ali esteve como preso, e eu vivi a mesma tragédia contemporânea com a dele. Claudino Rosa Soares 1º Cabo atirador especial no Namibe,1961

José Jorge disse...

Eu conheci o Profeta Simão Toco na Ponta Albina no ano de 1954. Eu tinha 10 anos!

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