21 fevereiro 2013

Maria da Cruz Rolão a regedora e horoína de Porto Alexandre (Tombwa)


Estátua erigida em Porto Alexandre (Tombwa)  em  homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, a heroica Regedora de Porto Alexandre (actual Tombwa).



Soberania Nacional Assegurada por mão forte ... de Mulher



O episódio, com sabor naval, que nos propomos divulgar teve por cenário o que é hoje um dos mais importantes  centros piscatórios do espaço português e, para além disso, uma bonita e progressiva cidade, realidade bem visível de quanto vale o esforço e a tenacidade da raça lusíada. Trata-se de Porto Alexandre que, para além da simples menção de ter sido cenário da nossa história, bem merece mais algumas palavras. Ao percorrer o mar do litoral sul-angolano depara-se-nos a certa altura uma excelente e convidativa baía, orientada na direcção leste-oeste, de águas calmas, protegidas por uma extensa restinga de areia. Foi Diogo Cão quem dela deu notícias pela primeira vez, em 1485, designando-a por Angra das Aldeias, e com tal realce e entusiasmo o fez que esse recanto passou a constituir ponto de paragem apetecido para descanso dos navegantes portugueses em demanda de novas descobertas. Em flagrante contraste com a excelência da baía e quietude hospitaleira das suas águas, surgia aos olhos dos nossos navegadores uma paisagem desoladora, de areias em redemoinho, batidas pelo vento, sem vegetação nem água, onde qualquer ideia de fixação e vida se afigurava impossível. É certo que decorreram 3 séculos desde que Diogo Cão descobriu a velha Angra das Aldeias até ao início da ocupação efectiva das terras desertas do sul de Angola; porém, chegado o momento da arrancada, todas as dificuldades foram vencidas, mercê da persistência e tenacidade tão características do povo português.

Foi em 1860 que, atraídos pela piscosidade das águas do Sul de Angola, grupos de decididos, tenazes e abnegados algarvios iniciaram a ocupação efectiva daquele rincão de Portugal e, em gesta que, sem exagero, podemos apelidar de heróica, venceram a dureza e a desolação do terreno, souberam dominar a fome, a sede e o isolamento e suportaram estoicamente a ausência total de um mínimo de conforto.

Nasceram rudimentares habitações, os ventos e areias foram sendo dominados. Rodaram os tempos e com estes se foi acentuando a vitória do homem sobre o deserto, em obra notável de que se destaca uma extensa cortina verde, iniciada há 37 anos e que conta actualmente com cerca de 300 000 casuarinas. Quebrada a violência dos ventos predominantes e sustidas as areias que tudo soterravam, a velha Angra das Aldeias, que desde 1835 passou a ser designada por Porto Alexandre, voltou-se para o futuro e cresceu. Cresceu em extensão e formosura e surge hoje aos nossos olhos como uma linda cidade dotada de todos os requisitos modernos, verdadeiro milagre de dinamismo e força de vontade, obra transcendente iniciada por portugueses de «antes quebrar que torcer», continuada por sucessivas gerações de igual têmpera que ainda hoje se mantêm, alardeando ao mundo as altas qualidades dum povo de vontade inquebrantável. Mas, feito este pequeno apanhado da história de Porto Alexandre, modesta homenagem aos seus fundadores e continuadores, voltemos ao nosso episódio. Passou-se ele poucos anos após a chegada dos pioneiros da colonização, em data exacta desconhecida, que se pode, sem receio de grande erro, situar no período 1865-1870. 

Foi a partir de 1860 que experimentados homens do mar, algarvios, utilizando os já desaparecidos caíques olhanenses - embarcações à vela, de  pano bastardo triangular, com cerca de 14 metros de comprimento e 4 metros de boca - decidiram deixar as suas terras e enfrentar o Oceano Atlântico com destino ao Sul de Angola, muitos deles acompanhados por velhos, mulheres e crianças, membros de suas famílias. Num desses caíques chegou a Porto Alexandre, em 1860, a familia CRUZ ROLÃO, donde sairia a heroína da nossa história, MARIA DA CRUZ ROLÃO, que deixou bem vinculado àquela localidade o seu prestigioso nome. Era possuidora duma energia, determinação e coragem muito fora do vulgar e tinha alguma cultura, qualidades reconhecidas por todos os colonos que, por decisão unânime, a elegerem sua pri-  meira autoridade civil, nela depositando uma confiança que nunca desmereceu. Variadas foram as oportunidades em que MARIA DA CRUZ ROLÃO, sentindo a responsabilidade do cargo em que fora investida, defendeu com ardor a comunidade que chefiava, patenteando as suas altas qualidades. Foi numa destas ocasiões, em defesa da sua gente e da soberania nacional, que o carácter de MARIA DA CRUZ ROLÃO mais uma vez se envidenciou impondo a saída das nossas águas territoriais a um navio de guerra inglês. Em data que não ficou registada, fundeara na baía de Porto Alexandre uma unidade naval inglesa.Pouco depois da chegada, o seu comandante, esquecendo-se que estava em  águas duma nação estrangeira e das deferências devidas e inerentes a essa situação, deu início, inesperadamente, a exercícios de tiro, utilizando por alvo as areias da restinga. Muitos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde os nossos pescadores se encontravam na faina quotidiana. Cientes da situação, receosos que os projécteis atingissem os seus pais, maridos e filhos e indignadas contra tão grande falta de cortezia e respeito, as mulheres, em cortejo, acompanhadas das crianças, acorreram a casa da regedora e pediram-lhe que interviesse no sentido de acabar com tamanho abuso do navio estrangeiro. MARIA DA CRUZ ROLÃO não hesitou; mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio inglês. Ali chegada, punhos cerrados, gesticulando, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com o exercício e a abandonar as nossas águas. O oficial inglês não precisou compreender o fraseado de MARIA DA CRUZ ROLÃO. Perante atitude tão enérgica, desassombrada e demonstrativa de justa indignação mandou imediatamente interromper o tiro, e suspendeu, deixando as águas de Porto Alexandre. Fora mais uma vez assegurada, neste caso por mão forte de mulher, a soberania nacional. Já em tempos recuados a mulher portuguesa sabia impor a sua personalidade  e presença na defesa e construção do nosso ultramar, onde foi e continua a ser pedra basilar, merecedora de toda a admiração e respeito. Porto Alexandre, ao completar mais um ano da sua já mais que centenária existência, prestou justa homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, erigindo-lhe uma estátua.


MARIA DA CRUZ ROLÃO nascida em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes em 21.Setembro 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do cérebro.  Era filha de Domingos da Cruz Rolão e de Maria do Rosário da Cruz (CMM Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883-1898, fl 95). Era casada com Manuel Tomé do Ó,  porquanto no óbito seu filho  José António Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes 1 de Dezembro de 1905 motivado por tuberculose  pulmonar, no estado de casado e com 53  anos de idade, nascido em Olhão em 1852 registou-se a filiação:  filho de Maria da CRuz Rolão e de Manuel Tomé do Ó  (Idem, Livro 5 de Registo Óbitos  1898-1911). Outro registo de óbito deste filho diz que tal facto se verificou na residencia do finado, na Rua dos Pescadores em Moçâmedes, com os sacramentos. Indica a sua profissão: marítimo, seu estado civil: casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão, confirma a sua filiação: de Manuel Tomé do Ó e de Maria da Cruz Rolão, natural de Olhão, e esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz) não fez testamento, deixou 6 filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião de Moçâmedes Registo de Óbitos, 1905,  Deparamos também com o óbito de João da Cruz Rolão verificado em 06 de Julho de 1902,  com indicação da idade:  70 anos, e do estado civil: casado; apenas com menção do nome da mãe: Maria da Cruz (CMM livro 52? Registo de obitos 1898-1911).











...........................................................................................................................................................................

Siga UM texto de Alberto Iria: descendente da regedor


«Em Moçâmedes, no dia de S. João em 1965, ainda me foi dado o prazer e a honra de visitar, em sua casa, um venerando homem do mar, natural de Olhão, já com 74 anos de idade, casado com D. Felicidade dos Santos Frota. Trata-se do senhor Januário Mendes Tendinha, nascido a 12 de Janeiro de 1891, na freguesia de N. Srª. do Rosário, filho de Januário António Tendinha e de Maria da Cruz Rolão Tendinha, prima-irmã da celebrada Regedora de Porto Alexandre Maria da Cruz Rolão. Veio para Moçâmedes a bordo no vapor Cazengo, apenas com 12 meses, na companhia de seus progenitores. Seu pai que chegou ser Regedor de Porto Alexandre, ali montou um estaleiro naval, contratado pelo mestre João Gregório Hungria, com mais dois calafates, e fez a travessia atlântica a bordo do caíque Harmonia. Este caíque, construído em Olhão nos estaleiros de mestre João da Carma, foi reparado e comprado em leilão, pelo pai do senhor Tendinha, e, mais tarde, vendido para o Lobito, onde foi transformado num barco motorizado com o nome de Nelson. O senhor Tendinha só depois de atingir os 21 anos é que teve licença oficial para governar o caíque Harmonia, durante cerca de 30 anos. É irmão do senhor Lordino Fernandes Tendinha, industrial de pesca em Porto Alexandre e ali presidente da Câmara».








Sem comentários:

Enviar um comentário