1ª Foto: Nos anos 1950, Moçâmedes era uma cidade pequenina onde toda a gente se conhecia e todos eram primos e primas. Em consequência as pessoas conviviam muito em família e entre amigos, através de almoços efectuados nas Hortas e nas praias dos arredores, piqueniques, etc etc. É o caso desta foto que nos mostra uma família reunida para o almoço, à sombra de um telheiro na pescaria de Venâncio Guimarães, na Praia Amélia. Trata-se da família Pestana/Costa Santos:
À esq., Francelina Almeida (mãe de Júlio Almeida) com a neta, Vina Almeida, ao colo. Ao centro/fundo, Maria Pestana, José Pestana (o encarregado da pescaria), Zeca Pestana, Oswaldo Sampaio Nunes, e Lita Pestana (esposa de Júlio de Almeida, que se encontra de pé, ao fundo). À direita, junto ao pilar de cimento, Olinda Pestana, seguida de C. Costa Santos (Carriço) e Julieta Costa Santos.
2ª foto: Reconheço Lita Pestana e Zeca Pestana tendo ao colo os pequeninos Vina e Juleco. À frente: Nélinha Costa Santos, ? e Calinhas,
Era comum em Moçâmedes, nas décadas de 40 e 50, juntarem-se grupos de famílias e amigos no Verão, aos domingos, em almoçaradas na Praia Amélia. Os preparativos para a viagem começavam bem cedo, pela manhã, para que o precioso tempo fosse aproveitado o melhor possível já que muito havia a fazer até à hora do almoço.
Ao chegarem ali, os homens do grupo munidos com linhas, isco e anzóis faziam-se ao mar em busca de meros, pargos, garoupas, etc., que geralmente encontravam ali bem perto, no canal, tendo em vista uma boa caldeirada. Às mulheres, cabia-lhes os preparativos para o almoço, o ponto alto da festa. Para tal haviam levado consigo panelas, pratos, talheres, toalhas, guardanapos, pão, fruta, sobremesas, o vinho que não podia faltar, os refrigerantes para as crianças e todos os ingredientes necessários (tomate, cebolas, batatas, alho, farinha de milho, óleo de palma, etc...).
Quanto ao transporte, utilizavam-se carrinhas de caixa aberta com carroceria, a fim de caberem nelas o grande número de pessoas que faziam parte do grupo. E assim se viajava naquele tempo, uns três ou quatro à frente, um grupo enorme de cerca de uma dezena de pessoas, sentadas ou de pé, atrás, cabelos ao vento, com a força da aragem a bater no rosto, mas sempre, sempre, com o ar radiante de quem vai para a praia para se divertir verdadeiramente. Importa referir, porém, que em termos de transporte nem sempre foi assim. No início, quando os carros eram poucos ou nenhuns, ia-se de embarcação a partir das várias pontes das pescarias que na altura circundavam a baía na zona da Torre do Tombo, antes da construção da marginal. Escusado será dizer que às vezes havia gente que enjoava no caminho e estragava a sua festa.
Mas voltemos aos anos 50. Chegados à Praia Amélia, era geralmente para a Pescaria de João Duarte que as pessoas se dirigiam. Verdade seja dita, João Duarte era de facto um homem como uma mentalidade aberta, uma vez que permitia que toda aquela gente, quase por sistema, invadisse as instalações da sua pescaria aos fins de semana, desde a zona destinada aos tanques de salga até ao extremo da ponte. A ponte da pescaria de João Duarte era de facto um grande atractivo para os mais novos, que, assim que chegavam a Praia Amélia corriam em direcção a ela para se atiravam ao mar em mergulhos acrobáticos e saltos mortais (na zona havia um fundão), mostrando deste modo as suas habilidades. Uns tomavam banhos de mar mesmo ali junto a ponte, na zona do fundão, outros partiam em correria louca pela praia fora para se atirarem às altas ondas do mar, que um pouco mais adiante sempre se faziam sentir, enquanto outros ficavam espalhados por aqui e por ali, deitados na areia da praia a tomar banhos de sol, ou conversando, todos a aguardando a hora do saboroso «repasto» e da confraternização geral.
Recordo que uma das caldeiradas preferidas na época em Moçâmedes era a de corvina , peixe que se prestava muito a este tipo de refeição, que muitas vezes levava, em vez de azeite, o óleo de palma, para além do imprescindível piri-piri... O acompanhamento era à boa maneira africana, uma «piroada» de farinha de milho amarelo. Era de comer e chorar por mais! E se a caldeirada em vez de corvina, fosse de barbelas de corvina, tanto melhor. A variedade de peixes também era uma opção.
A partir da década de 60, a prática das almoçaradas na Praia Amélia caiu em desuso, ficando delas a grata recordação de inesquecíveis momentos de convívio que mobilizaram durante décadas, gente todas as idades, familiares e amigos. Não obstante esta praia continuou a receber como sempre os veraneantes e os amantes da pesca desportiva e submarina, que não se cansavam de se dirigirem para ali, ou para outras praias da zona, tais como a Praia das Barreiras e a Praia Azul.




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