05 fevereiro 2007

As caçadas de Antonio Abreu, o Mata-porcos, no Deserto do Namibe. Há leões nas ruas de Moçâmedes...






Trata-se de Manuel Abreu, exibindo um troféu de caça, uma leoa abatida no Deserto do Namibe (1ª foto) e numa zona não muito longe da cidade. Manuel Abreu que aqui vemos à porta do quintal da sua casa, na Rua das Hortas, entre a padaria de Pedro Bento Rodrigues e a «Casa Inglesa»era mais conhecido como «Mata-porcos», porque era ele que fornecia à população de Moçâmedes a carne de suinos que ele próprio criava, abatia e esquartejava e colocava à venda na sua loja, bem como os saborosos «torresmos» que a partir de toucinho tão bem sabia preparar e faziam a delícia de adultos e crianças.

Manuel Abreu era natural da Ilha da Madeira onde já exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que continuou de certo modo a exercer, quando resolveu emigrar para Moçâmedes. Era proprietário do «Bazar do Povo» , loja que vendia de tudo um pouco e que ficava na Rua das Hortas, em frente à loja do Graça Mira e Jacinto, numa esquina,
onde mais tarde passaram a ficar os «Armazéns da Beira», cujo principal sócio era Pedro Bento Rodrigues (Pedro Padeiro), ainda mais tarde passou a «Casa Inglêsa» e ultimamente, a firma «Santos & Cabeça.

Mas o que nos traz aqui é uma outra faceta de Manuel de Abreu, a de exímio caçador dos animais do deserto de Moçâmedes. Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à sua actividade ligada ao com+ercio de carnes. Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consuno da população, não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens que ele próprio esquartejava e preparava para pôr à venda no seu Bazar e talho.

Contudo em pouco tempo o gostinho pela caça acabaria por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu e de seu grupinho de amigos que passaram a frequentar o Deserto do Namibe, não já apenas para matar gazelas , olongos e outros animais tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, por puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade fugindo às perseguições de que eram alvo, tornando mais difícil o transporte dos animais abatidos para a cidade.

Mas o engenho humano não para, e eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxera consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo, porquanto subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem de quê. Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes, de regressado da Alemanha trouxera consigo uma moto com «side-car», veiculo que veio facilitar as caçadas sempre necessárias e para fazer o gosto ao dedo. O Engº convidava o «Mata-porcos» para o acompanhar e o ajudar posteriormente no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe.

E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para
além do bom peixe que no rico mar da terra sempre existia com fartura. Mas ainda não ficamos por aqui, pois com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como o reverso da medalha nunca deixa de estar presente, é precido dizer que muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de outros antílopes mais corpulentos, incluindo equideos. Os abusos chegaram a tal ponto que, quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por probir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.

Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado lá ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que o fazia sem que a pessoa em causa ficasse a apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente da terra a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.
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2ª foto: Crianças da familia observam, no quintal da casa de Manuel de Abreu, a leoa abatida.

3ª foto: Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes na frente de uma carrinha «Brokway». Na esquina desta Rua ficava a Loja de Rogério Ilha, na rua morava a família Anselmo e os Armazéns de Antunes da Cunha

4ª foto: Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Mata-Porcos, e Raul de Abreu

5ª foto: Grupo de que faz parte Angelo Abreu (1º à esq.), Manuel Abreu (5º, à partir da dt.) e esposa (senhora 3ª à esq. da qual apenas se vê o chapéu), João Abreu? e algumas senhoras vestidas a preceito, entre as quais sentada e a segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)...

6ª foto: Manuel Abreu, David Abreu (óculos). António Abreu (?)...

7ª foto: Manuel Abreu (no interior da «Brokway»)
8ª foto: Manuel Abreu (3º, à dt.), David Abreu (2º à dt.), Raul Abreu ao volante

9ª foto: Manuel de Abreu à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. O 2º à dt., de branco é filho de Manuel, o Raul de Abreu, o 3º, David Abreu... Anos 30.

10ª. foto: Manuel de Abreu com os seu grupo de familiares e amigos exibindo o troféu da caça, um enorme guelengue. O «Mata-porcos» encontra à dt. de chapéu e cigarro na boca.

Repare-se como naquele tempo ia-se para o deserto caçar de fato e gravata...

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A respeito de caça...

O moçamedense António A. M. Cristão, publicou no seu livro «Memórias de Angra do Negro -Namibe- Angola», uma crónica assinada por Silvestre Newton da Silva que representa uma sentida alusão aos vândalos e caçadores furtivos que já nessa altura (1958) vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que, segundo autor, para nada mais serviam que a serem exibidos a ingénuos pacóvios...



Silvestre Newton da Silva foi um jornalista profissional que a determinada altura abandonou o jornalismo para se tornar Gerente do Banco de Angola em Moçâmedes, e posteriormente


abandonou o Banco de Angola para, juntamente com Raúl Radich Júnior, criar a empresa Cicorel que se dedicava ao comércio, à construção civil e à industria extractiva de mármores e granitos. Foi graças a esta empresa que os mármores e granitos de Moçâmedes se tornaram conhecidos além fronteiras, e que vendidos em bruto, chegaram a ser em seguida transaccionados, dada a sua qualidade, como se de mármores de Carrara se tratasse.


Clicar AQUI para ler excelente artigo sobre a caça no deserto de Moçâmedes.

Eis a crónica de Newton da Silva:



Nota: fotos dispensadas por Nito Abreu
 No entanto, devo lembrar que pelo facto de estarem disponíveis online não significa que possam ser usadas sem o respeito pelas condições em foram licenciadas. Essa licença CC significa que qualquer pessoa as pode usar desde que: 1) refira claramente quem é o autor da foto; 2) O uso da foto não seja comercial; 3) A obra resultante seja partilhada nos mesmos termos desta licença

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