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12 janeiro 2009

Cerimónia de «baptismo» da «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo (1946)





















1ª foto: Cerimónia de «baptismo» e lançamento ao mar, no ano de 1946, da «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, ocorrida sob o telheiro da ponte do Sindicato da Pesca de Moçâmedes, na Torre do Tombo.

Da esq. para a dt.

Sentados: Capitão do Porto de Moçâmedes, Dr. Novais (médico) e Padre Simões.

De pé : Álvaro Frota (ao centro, de óculos escuros), Luís da Piedade (marceneiro), Paulino Bexiga (de camisola desportiva) José dos Santos Frota (de óculos escuros, à dt.) e Mário dos Santos Frota (a discursar). As meninas, à dt., são: Maria Helena Ramos e Maria Celeste Custódio. De perfil, à esq., António Guedes e José Nascimento.

A «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, o clube pioneiro da cidade de Moçâmedes, criado em 1919, foi construida na pescaria de Óscar Duarte d´Ameida por Gilberto Abano, João Custódio e Urbano Canelas, numa altura em que, na presidência daquele clube (fundado em 1919) se encontrava o moçamedense Mário dos Santos Frota.

2ª foto: A «guiga» do Ginásio na Praia das Miragens, tendo por fundo a ponte e a Fortaleza de S. Fernando. Entre os «remadores» e curiosos, reconheçoída esq. para a dt.: António Martins Nunes (Cowboy), Eduardo Lopes Braz, José Ferreira (Penha), João Viegas Ilha, Velhinho, Mário Lisboa Frota (Mariuca), Virgiíio Gonçalves de Matos e António Gonçalves de Matos (Sopapo).

Sobressai por detrás dos ocupantes da «guiga»,
junto da ponte e do guindaste, a vela de um «sharpie», modalidade que nessa altura fizera a sua aparição em Moçâmedes, no quadro do desporto escolar levado a cabo pela Mocidade Portuguesa. Relativamente à modalidade «REMO», o entusiasmo decrescia, já que existiam somente três barcos, um do Independente de Porto Alexandre, mais leve, quase sempre vencedor, uma «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e um «Yolle» do Centro Náutico da Mocidade Portuguesa. Embora musculosos os respectivos remadores careciam de treinamento adequado, situação que impediu o pleno sucesso das equipas respectivas. Contudo, a rivalidade entre eles foi sempre notória, sob manifestações populares de simpatia. Não havia condições, obviamente, de participar em grandes competições intra-muros, que eram então lideradas por tripulações do Lobito e de Luanda.

Ver também: MemóriasDesportivas
Fotos/Fonte: meu álbum de recordções

19 dezembro 2008

Passeio à Praia das Conchas em Moçâmedes (Namibe), Angola, na década de 1940




Nesta foto, tirada em 19.4.1941, por Rodrigo Baião Alcario, podem ver-se três dessas famílias. Reconheço nesta foto, em cima e da esq. para a dt: ?, Mário António Guedes da Silva (o 2º), seguido de António Guedes da Silva , Júlia Celeste Gomes Guedes da Silva, ?, Lídia de Sousa Alcario , Orbela Gomes Guedes da Silva (um pouco à frente), e os restantes ???? Em baixo, sentados: Élia Paulo, ?, José Nascimento?, ?, e Maria do Carmo Paulo (Carminha).

Foto gentilmente cedida por Mário Guedes da Silva.



Familias de Moçâmedes na Praia das Conchas. Os Ribeiro/Pires Correia


Em Moçâmedes era costume uma ou mais familias irem ais fins de semana a um passeio até à Praia das Conchas

 


Chamavam praia, mas de praia não tinha nada, pois era pedregosa, não dava para banhos de mar, e até magoava os pés, mas ali apanhavam-se búzios, burriés, pequenos caranguejos, ostras, mexilhões, pescava-se à cana e à linha uma imensa variedade de peixe, como garoupas, pargos, sargos, etc.


O farol do Saco do Giraúl para além da função estritamente inerente à sua actividade, estava inserido num local onde as pessoas se deslocavam, designadamente aos fins de semana para passearem pela zona litorânea a norte de Moçâmedes, passando dali até à Praia das Conchas e Barambol.


 Aliás, toda a zona do Farol até à Praia das Conchas, onde se situava um banco rochoso, é uma zona de muita rebentação, e, se uns iam para o local com o fito de darem asas ao gosto pela pesca/caça aos peixes, outros iam simplesmente para as zonas menos rochosas apanhar búzios, burriés, pequenos caranguejos, ostras, mexilhões, sujeitando-se, a cortar os pés ou as sapatilhas com as conchas afiadas como lâminas, outros ainda para contemplarem o espectáculo que lhes era dado apreciar das altas ondas do mar envoltas em espuma a baterem furiosas nas altas rochas da zona, como que as querendo galgar.

Também era comum verem-se ao fim do dia pescadores desportivos dos  mais aguerridos a tentarem ali a sorte levar para casa uma variedade de peixes, tais como garoupas vermelhas pintadas, pargos, sargos / mariquitas, canelas, meros, moreias, anchovas, tinhas, badejos, chocos, polvos, lagostas, que davam para encher o frigorífico para a semana. Eram 3 zonas muito frequentadas, especialmente, por pescadores desportivos de pesca à linha, de pesca à cana e caça submarina, a partir da Praia das Conchas até foz do rio Giraúl.

Afinal valia mesmo a pena ir até ao Farol, à Praia das Conchas e ao Barambol! Uma curiosidade: na «Praia das Conchas», como em algumas outras praias como a do Chiloango, etc., é comum verem-se grandes ossaduras de baleias, que ali vão «encalhando» trazidas pelas correntes desde a Praia Amélia (*), em tempos mais para trás (década de 1920/30), uma vez que durante essa década existiu naquela praia, a 6 km a Sul do centro da cidade de Moçâmedes, uma grande empresa norueguesa que ali se instalou, vocacionada na industrialização de carne e gordura desses cetáceos.

MAR DESFEITO

Na praia das Conchas, fito
O mar revolto, infinito
Bater nas rochas, desfeito...
E olhamo-nos, tanto, tanto,
Que suas ondas são pranto,
Que vem bater no meu peito...

Angola, 1968
"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão


MariaNJardim

08 dezembro 2008

Famílias de Moçâmedes:a família Duarte e a pescaria da Praia Amélia





 João Duarte entre os  filhos Armando Guedes Duarte (Mandinho), à esq., e João Carlos Guedes Duarte (Jinho), à dt. À esq, Carlos Humberto Freitas de Sousa (Beto)




João Duarte era um bem sucedido industrial e comerciante,  proprietário de uma pescaria na Praia Amélia, a 5km do centro da  cidade do Namibe,  que foi durante muito tempo o local onde as famílias de Moçâmedes se juntavam em grupinhos, aos fins de semana, no Verão, para um dia bem passado, que incluia banhos de mar, pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, e que tinha o seu ponto alto numa animada almoçarada que se prolongava pela tarde fora, e que geralmente constava de uma caldeirada de peixe acabadinho de pescar, feita mesmo alí embaixo do telheiro da pescaria, ou seja, sob um amplo barracão onde ficavam os tanques de salga do peixe.

Estes passeios, importa referir, já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as pessoas se deslocavam para a Praia Amélia em baleeiras de pesca, à vela, a partir das pontes que ficavam mais à mão, a da Praia das Miragens, ou a partir das várias pontes das pescarias da Torre do Tombo, carregando consigo cestos com produtos alimentares destinados à ementa, cebolas, batatas, azeite, fruta, doces, sobremesas, refrigerantes, bebidas variadas, toalhas, etc., para além do carvão para combustivel ou de um fogão a petróleo , desses que foram vedeta na época, antes do surgimento dos fogões alimentados a gás.

João Duarte era considerado um homem rico para a época. A pescaria de João Duarte  na Praia Amélia, onde toda a gente era sempre bem recebida, encontrava-se nos anos 1960 apetrechada com uma fábrica de farinhas e óleos de peixe, totalmente automatizada, instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, 3 traineiras de bom porte, uma ponte, várias casas para o pessoal e 1 capela.  João Duarte era também proprietário de algumas vivendas ocupadas por familiares, de um conjunto de casas antigas situadas na Torre do Tombo que ocupavam quase todo um quarteirão  junto à estrada que subia para a Praia Amélia, e ainda de um prédio de 4 pisos  num gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro,  arrendado ao Banco de Angola.  João Duarte era considerado um homem rico, mas naquele tempo, ser rico, nada tinha a ver com as rápidas e por vezes escandalosas fortunas que se estão a criar em Angola  nos dias de hoje.  É preciso que se saiba que ser industrial de pesca em Moçâmedes no tempo de João Duarte, podia ser um bom investimento, mas envolvia também muito trabalho e grandes riscos, uma vez que se tratava de uma actividade dependente das capturas de peixe.  Para que a industria de pesca fosse rentável, cada traineira tinha que pescar  no mínimo 5 mil toneladas por ano, e quem não pescasse essa quantidade de peixe tinha prejuízo pela certa. Bastava um ano de crise para de um momento para outro tudo ir por água abaixo. Foi o que aconteceu em 1957/58, com a  crise do pescado que avassalou os mares de Moçâmedes e  abalou muitas boas empresas de pesca do distrito, levando umas à falência,  outras ao total desaparecimento, e ainda outras a desistirem do sector pesqueiro e a ficarem-se pelo comércio, pela agricultura, e  pelo imobiliário. Lembro-me que desapareceram na voragem dessa crise do sector das pescas,  a "Casal dos Herdeiros de João Maria Inácio",  a "J. Patrício Correia, Lda" ,   a "Marcelino de Sousa, Lda", e todas as pescarias da zona da Lucira, valendo aos primeiros o grande número de bens imobiliários que detinham. Desapareceram a "Angopeixe, Lda", e a "Raúl de Sousa" , na Baía das Pipas. Desapareceram a "Conserveira do Sul de Angola, Lda", a  "Portela & Guedes Lda", a "Manuel Nunes de Carvalho & Filhos, Lda , todas em Porto Alexandre. No caso particular da "Conserveira do Sul de Angola, Lda", esta entrou na posse do Banco de Angola, como credor hipotecário, sendo depois vendida ao Dr Urbulo Cunha, em sociedade com ? Ferreira, a prestações mensais de 50 contos. Outras empresas como a "Sena & Ribeiro Lda" e a "Sampaio & Irmão Lda", de Porto Alexandre, também desapareceram como tal. Em Moçâmedes, a SOS,  "Sociedade Oceânica do Sul, Lda.", fábrica de conservas do Capitão Josino da Costa, encerrou a sua actividade industrial, sendo as instalações adquiridas por Gaspar Gonçalo Madeira. Desapareceu a "Sociedade Industrial da Ponta Negra Lda", no Canjeque, sociedade da qual faziam parte António Bernardino, Virgilio Almeida e Matos,  adquirida pela "Projeque, SCRL Lda", e foram abaladas por esta  crise a "Torres & Irmão, Lda" e  a "José Carvalho & Sybleras, Lda", do Saco,  bem como a "Venâncio Guimarães, Lda" da Praia Amélia,  e a "João Martins Pereira & Filhos, Lda", da Torre do Tombo. Por arrastamento, como seria de supôr a crise afectou também o comércio,  abalou empresas como por exemplo  a "Carvalho de Oliveira & Cª. Lda". Umas conseguiram recuperar porque se dedicavam paralelamente à actividade do comércio, como a "Antunes da Cunha, Lda", em Porto Alexandre. Como a "Torres Irmão, Lda"  que  ficou-se pela Horta, e com o imobiliário.




Este é um exemplo de como não era fácil ser-se industrial de pesca naquele tempo e naquelas paragens. E  para se fazer uma ideia da complexidade do problema e da relatividade do valor do produto, nesses anos bons nem sempre a capacidade de laboração das fábricas davam resposta à quantidade das capturas, e quando o pescado excedia, era vendido às outras pescarias, a 300 escudos a tonelada.





A empresa de João Duarte, na Praia Amélia também não escapou aos efeitos dessa grande crise de pescado.  A sua pescaria  chegou mesmo a ser vendida a uma empresa sul-africana, porém a sorte esteve ao lado do proprietário, pois a operação acabou por não se concretizar porque o Governo daquele país não autorizou o investimentos no estrangeiro, tendo os compradores acabado por perderem o sinal que tinham adiantado por via de contrato de promessa de compra e venda que haviam efectuado. A empresa de João Duarte conseguiu como poucas não apenas vencer a crise, como nos anos a seguir à crise conseguiu até modernizar em termos de maquinaria as suas instalações fabris, e  partir ainda  para a construção de um prédio, na Rua dos Pescadores, que veio a ser alugado ao Banco de Angola.

Estamos a falar dos estragos acontecidos nos finais da década de 1950.  Retenha-se que o grande "boom" piscatório em Moçâmedes veio a acontecer  a partir dos anos 1960, com a inovação de todo o mecanismo ligado à indústria de pesca, designadamente com a instalação de fábricas de farinhas e óleos de peixe totalmente mecanizadas, e o uso nas traineiras de sondas para captação de peixe e aladores mecânicos para carregamento do pescado.




João Duarte possuia um quarteirão quase inteiro de casas no bairro da Torre do Tombo, em Moçâmedes. Casas de traça colonial portuguesa, de grande valor em termos de património arquitéctónico, cultural e histórico para a cidade do Namibe, que, lamentavelmente, apresentam hoje em dia um avançado estado de degradação. E quanto a cidade teria a ganhar com a  recuperação deste património que ainda hoje faz a delícia de visitantes, sobretudo os estrangeiros, que não resistem em o fotografar...


Nasci e cresci numa casa mesmo ao lado da casa onde viveu a familia João Duarte, e embora tenham passado já 50 longos anos, tenho na memória recordações nítidas deste loca, que me foi familiar, e deste conjunto habitacional, que conheci por fora e por dentro, como às minhas mãos.

Tenho bem presente os momentos de alegres brincadeiras que partilhei com alguns dos filhos desta numerosa familia, sobretudo aqueles que mais se aproximavam da minha idade, a Zita Lurdes, o Zé, o Helder...  Os outros filhos de D. Micas e de João Duarte, os mais velhos, eram o Jinho, o Norberto, o Quim, e o Mandinho, e os mais novos, a Guida, o Mário e o Eduardo. O Norberto faleceu era ainda muito novo, cheguei a conhecê-lo. O Mandinho também faleceu relativamente jovem.

Recordo as bonecas de pano com as quais a Zita brincava, sentada na escadaria da entrada do casarão familiar. Eram confeccionadas pela D. Micas, que lhes colocava longas tranças feitas de lã amarela, e as vestia com  vestidinhos de chita estampada com flores colorida. E as bonecas feitas de papel de lustro colorido que a Zita guardava religiosamente no interior de uma caixinha de lata, munidas dos respectivos vestidinhos, sainhas, meias, sapatos, chapéus, etc.  Naquele tempo  não havia à venda a variedade de brinquedos que hoje em dia apresenta o mercado, e as nossas mães jogavam mãos às suas habilidades manuais para proporcionarem este tipo de brinquedo às suas filhas; as bonecas de pano com tranças de lã...

Ainda sinto o cheiro da água de colónia que a D. Micas, ela própria fazia, colocando num frasco uma porção de perfume ao qual adiciona água, talvez para suavizar o efeito sobre a pele. Era com este líquido, cuja mistura tomava a côr branca, que perfumava os filhos caçulas, a Guida, o Mário e o Eduardo após o banho diário.

Lembro-me dos "apetitosos" odores que emanavam daquela cozinha,  onde a azáfama diária não parava, desde manhã cedo até à hora de dormir, e onde D. Micas, mulher-mãe, esposa, dona de casa, educadora de seus filhos, embora ajudada por seus empregados, não declinava suas grandes atribuições em mãos alheias.

Recordo os "jogos de esconde esconde" e outras brincadeiras mais, que nós, garotada endiabrada, fazíamos por baixo do assoalho daquela casa, construído sobre uma caixa de ar, onde um dia encontrámos um saco com moedas antigas. Essa casa que surgia aos meus olhos criança como um enorme casarão

Moçâmedes era uma terra santa em termos de segurança. Lembro-me que o meu pai deixava à porta da nossa casa a carrinha de caixa aberta que possuia, uma Ford, com a chave na ignição. E que a porta da nossa casa ficava sempre aberta, excepto à noite. E à noite fechada apenas no trinco. No Verão, as janelas da rua também ficavam abertas de par em par. Como o mundo mudou neste aspecto. Hoje em qualquer cidade proliferam gradeamentos e não faltam policiamentos.
 
Naquele tempo brincávamos no meio da rua, em frente das nossas casas. A rua era o campo onde se jogava futebol, era o trajecto que se percorria quando se brincava às escondidas, era o palco onde se representava, era  terreiro onde se jogava à macaca e aos queimados. Rapazes e raparigas. Meninos e meninas. Tanto juntos como separados. Não havia casa da vizinhança que não lhes conhecessemos os recantos. Para brincar às escondidas devassávamos as imediações, saltando  de um lado para o outro da rua, entre a casa do João Duarte e a  casa do velho Reis e da Ritinha Seixal onde sobre terraços de quartos feitos com bordão punham a secar rodelas de batata doce,  as célebres "macocas",  que faziam a delicia da garotada.  Do grupo de rapazes faziam parte o Zézinho e o Helder Duarte, o Amilcar, o Monteiro (Necas), o Juju, o Aires Domingos e o irmão Vitor,  o Lolita Lisboa (às vezes), e quando se tratava de futebol também  o Zequinha Esteves e o Travão alinhavam na brincadeira.

Brincava-se muito naquele tempo. Escola da parte da manhã, brincadeira o resto do dia. Nada a ver com escolas-prisão dos tempos de hoje. Nossas mães estavam em casa, não trabalhavam, não havia essa coisa que hoje chamam os "deveres de casa", terminadas as aulas brincava-se até à hora do jantar, mais propriamente, até à hora da chegada a casa de João Duarte, na sua limousine cinzenta, Dodge, por volta das 20 horas.  Era o limite,  a hora do descanso do "guerreiro", a nossa hora do recolhimento a casa.

Uma coisa que João Duarte não dispensava, era o "encontro dos velhotes" até à hora do jantar, no "Quiosque do Faustino". Alí encontravam-se, diariamente, ao fim da tarde, para animada cavaqueira, o velho Cabral, de fato e lacinho;  o velho Ringue, de origem boer, tradutor de profissão e ex-cultivador de tabaco (Bibala); o velho Pimentel Teixeira acabadinho de chegar na sua bicicleta, vindo da Farmácia do Sindicaro da Pesca, depois Grémio, onde trabalhava; o sempre bem disposto Virgílio Gomes (do Armazém) ou Virgilio Russo, também conhecido carinhosamente, por "Virgílio aldrabão", devido às mirabolantes anedotas (*) que sempre tinha para contar, e outros mais que a memória e o tempo não permitem recordar. E outros mais que a memória, traiçoeira, não deixa lembrar...

João Duarte foi, pois, um exemplo da vontade, persistência e determinação de mais um português do Norte, simples emigrante, que um dia resolveu partir para Angola, ali fixar-se para sempre, nessa terra onde viveu, casou, teve filhos, teve netos, labutou, gerou riqueza, proporcionou trabalho e investiu o fruto desse trabalho, sem se preocupar em amealhar para si e para os seus algures em algum Banco na Europa. Hoje tende-se em Angola a confundir "colono" e "colonialista". Pior ainda, o "colono", simples emigrante, foi elevado a "bode expiatório" de todos os males do colonialismo. A perspectiva não irá mudar enquanto imperarem preconceitos que impedem uma visão mais clara e realista da história da ex-colónia. Uma coisa foi um projecto europeu de exploração económica e dominação política que aconteceu, dirigido por homens do poder encostados a homens de dinheiro, a partir das Metrópoles, os Oligarcas, outra  coisa são os "colonos", geralmente grupos humanos constituido de gente pobre e trabalhadora, dos quais os "colonialistas" se serviram, tal como se serviram dos povos colonizados, para levarem por diante os seus intentos sobre um território afastado do seu lugar de origem. Por vezes há "colonialismo" sem haver "colonização", aí os metropolitanos não se fixam, apenas desempenham cargos de funcionalismo, sempre a pensar no regresso. Quando há "colonização", como aconteceu em Angola, a camada de metropolitanos  fixa-se com carácter permanente na terra, onde lhes nascem os filhos, e onde, como refere Luiz Chinguar,  procuram o “ultimo refúgio na velhice, edificam uma casa com jardim à frente e horta e pomar no quintal..."  Em Angola onde houve "colonização" e houve"colonialismo". Era fácil distingui-los.  As leis não eram dirigidas para favorecer os colonos mas para favorecer colonialistas que delas beneficiavam. Ou seja, eram emanadas para benefício de uma oligarquia de Lisboa colada ao poder (detentora das grandes fazendas e de inúmeros privilégios e monopólios), que vivia em um execrável absentismo mas com um total poder de decisão, e que desde sempre desprezou a vontade dos colonos. Mas foi sobre estes que infelizmente recaiu o ónus das injustiças praticadas, enquanto as mais valias económicas e financeiras deste mau proceder ficavam para os oligarcas, que nunca deram a cara. Até na independência ficaram “assobiando para o lado”, acrescenta Chinguar. Angola teria beneficiado  imenso, se em vez de "descolonização" tivesse havido um "descolonialismo"! Este,sim, acabava com o colonialismo, principal causador do atraso cultural, económico e, principalmente, social.  Depois de 1974, em Portugal, não se procura a verdade, ou melhor, as verdades. Apenas o que é politicamente correcto. Oculta-se o passado através de uma imprensa controlada e ignorante, as consagradas “verdades” definitivas e oficiais. Aconselha uma consulta a : http://psitasideo.blogspot.pt/2009/06/os-ossos-da-colonizacao-1.html.

Símbolos positivos do fim do período colonial, estas pessoas, de que João Duarte é um exemplo, as que ali ganharam e alí investiram a totalidade do seu ganho, acabaram por ser a mais prejudicadas, porque Portugal, a potência colonizadora, que teve o direito de colonizar (de acordo com o direito internacional), não cumpriu o dever de descolonizar no tempo próprio. Rumando no sentido contrário da processo histórico, sem a mínima consideração pelos naturais e pelos europeus que alí labutavam e alí investiam o resultado do seu trabalho, optou por uma guerra sem fim à vista, que não podia ter outro resultado. E na hora da verdade, o Portugal de Abril foi obrigado a debandar pura e simplesmente do território, deixando aquelas gentes entregues a uma guerra fraticida, e oferecendo aos portugueses e aos seus descendentes, ali nascidos, e a uns poucos africanos vinculados ao Estado, como descargo de consciência e  única alternativa,  uma «ponte área» montada à pressa, e sem retorno. A juntar-se a isto, o "favor" de se poder trocar 5 mil escudos angolanos, por cinco mil escudos portugueses.

Estas pessoas regressaram às suas terras com as mãos mais vazias que nunca. Os que possuiam poupanças de uma vida depositadas em Bancos do dito Ultramar, tudo perderam. Sim, porque para nada valiam. Os outros, os tais Oligarcas, os grande empresários domiciliados na Metrópole, os protegidos do sistema, aqueles que desde sempre se serviram de Angola apenas para «sacar», e investir na Europa, sem vínculo afectivo que os ligasse àquela terra, nada perderam, porque tinham o seu pecúlio a bom recato!

Esperemos ao menos que a História consiga um dia separar o trigo do joio e finalmente fazer justiça àqueles que deram a Angola o melhor de si mesmos, e ainda hoje continuam escarnecidos e vilipendiados!

As lições da vida têm sido uma grande Escola para os angolanos! Sairam os portugueses, a guerra entre os movimentos de libertação arrastou-se até 2002, e tornou-se mais feroz que nunca. Acabada a guerra, foram-se os colonialismos, foram-se as ideologias, instalou-se o discurso do neo-liberalismo. Aliás hoje em dia, um pouco por toda a parte, assistimos, impotentes, ao surgimento de um tipo de Estado que já não controla a sua própria estrutura política, desprestigiado por agentes económicos sem ética, sem respeito pelos mais elementares direitos dos outros. Ali, aqui, acolá, e por toda a parte.

Angola é um país de futuro, apregoa-se. Oxalá um dia o seu povo possa vir, também a beneficiar das suas riquezas.




Algumas fotos de familia:



Aqui podemos ver a D. Micas (Maria da Conceição Guedes Duarte), esposa de João Duarte,  e os seus 8 irmãos, alguns dos quais trabalhavam na empresa da família Duarte. São: Isaura Guedes da Silva, Joaquim Guedes da Silva, João Guedes da Silva, António Guedes da Silva, Manuel Guedes da Silva, Armando Guedes da Silva, Delfina Guedes Lisboa e Carlos Guedes da Silva. 
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Aqui podemos ver o José Guedes Duarte (Zézinho para os familiares e amigos) e Teresa Banha enquanto namorados, no Parque Infantil de Moçâmedes.  José Duarte é um dos filhos de João Duarte e D. Micas. Os miúdos são o Ricardo (Kady), a irmã, Lena Duarte, e o Fernando Duarte que Deus Tem. Ao fundo o Colégio das Doroteias. São todos filhos do casal  Maria Helena Ramos Duarte e João Carlos Guedes Duarte (Jinho), portanto netos de João Duarte. Foto de finais doa anos 1950.

Acrescentarei ainda a esta postagem algumas fotos deste ramo alargado da familia Duarte, "roubadas" ao  Ricardo (Kady), neto de João Duarte:

João Carlos Guedes Duarte (pai), Maria Helena Ramos Duarte (mãe), com alguns dos seus 7 filhos: Lopo, São e Jorge e Lena, Mário, Fernando e Ricardo/Kady.



Familiares e amogos na ponte da pescaria da Praia Amélia. Da esq para a dt: Jorge Duarte, Kady Duarte, Lelito?, Marito Saavedra, Fernando Duarte, Lenita, uma prima de Sesimbra, Marito Duarte (o caçula), Lena Duarte (de óculos) menina de Porto Alexandre de Maria Cândida (Sial). Ao fundo duas traineiras e a ponta do Canjeque. Na foto a seguir: Lopo, São, Jorge. Embaixo; Lena, Márito, Fernando e Kady Duarte.
 


Interessante é o perfil que Kady traça de seu pai, o João Carlos Guedes Duarte, conhecido Jinho, que tinha enraizado em si o «bichinho» dos aviões e das corridas de automóvel...  Ei-lo:

"O meu pai João Carlos Guedes Duarte, também conhecido em Moçâmedes por "Jinho" começou a voar em 1956 e teve licença para pilotar aviões - o popular "brevet" - em 1958. A sua madrinha de vôo foi a Celísia Calão, uma senhora lindíssima, aliás lugar comum em Moçâmedes, pessoa que tive o prazer de reencontrar em Portugal continental, pois deu-se a feliz coincidência de a Celísia vir a ser colega da minha mulher na CGD em Lisboa. Foi a Celísia que deu o banho de baptismo de "brevet" ao meu pai com o tradicional balde de água pela cabeça abaixo.

"O meu pai começou por voar em Moçâmedes, com os aviões do Aero Clube local, tendo participado com boas classificações em diversos "ralis aéreos". Mais tarde acabou por adquirir um Tiger Mouth àquele Aero Clube com o qual fez inúmeras acrobacias aéreas e outras peripécias - desde aterrar na praia a colocar o passageiro a vomitar (diga-se situação um pouco incómoda até para o piloto) porque o Tiger "4 asas" não tinha carlinga e o passageiro viajava, por norma, no lugar da frente. Lembro-me do meu pai me contar que, de vez em quando perdia ferramenta e haveres, deixados por descuido dentro do cockpit, quando se punha a fazer "loopings" e "tonneaux".

 
João Carlos Guedes Duarte com Fragoso (aviador), o irmão Armando Guedes Duarte (Mandinho) e o Chefe do Posto Matos

João Carlos Guedes Duarte junto a um Auster da FAV com Fragoso, colega piloto.


"...Quem me lê conhece bem o meu pai e sabe do que ele era capaz de fazer de um avião. Quando cheguei a Portugal (em 1976) vivi por breves meses em Vidago e aí encontrei alguns ditos "retornados" que me contaram peripécias do meu pai com o Tiger que eram desconhecidas na família. Um desses senhores contou-me que o meu pai ia buscá-lo à Baía dos Tigres só para ele ir jogar futebol a Moçâmedes ao domingo e ele (futebolista) perdia mais peso na viagem (tais eram as acrobacias) do que durante todo o jogo!!! Na Baía dos Tigres os aviões aterravam na avenida principal e recolhiam-se ao pé da igreja, onde eram amarrados tal eram as ventanias e tempestades de areia. Como se sabe, os aviões levantam sempre contra o vento e nos dias de vento forte punham-se dois cipaios de cada lado das asas a segurar as mesmas enquanto o avião não tomava aceleração para não levantar antes do tempo!!!Esse Tiger Mouth (prateado) CR-LCN foi , mais tarde destruído em acidente tido pelo meu tio Mandinho (Armando Guedes Duarte) também ele piloto - fez um "cavalo de pau" e partiu a hélice e deslocou os apoios do motor. Vou "postar" aqui as poucas fotos que tenho de Moçâmedes (são só duas) mas prometo, para futuro breve divulgar aqui alguns filmes em 8mm, ou fotos deles extraídas, onde se podem apreciar os ralis aéreos com aviões do Aero Clube de Moçâmedes de outras cidades angolanas e alguma acrobacia aérea no Tiger Mouth.» ....

O «Tiger Mouth» de João Carlos Guedes Duarte com os filhos Lopo e Jorge


"...De 1957 a 1961 e nesse tempo de "vacas gordas" o meu pai andava nas corridas de automóveis e nas "brincadeiras" com avionetas do Aero Clube de Moçâmedes e até chegou a ser proprietário de uma pequena avioneta - um Tiger Moth de "4 asas". Há cá muita gente de Angola, que se lembrarão desses áureos tempos. »

 O casal João Carlos Guedes Duarte  e Maria Helena Ramos Duarte


Alguns elementos da familia Duarte, junto da sua moradia em Porto Alexandre, no dia 10 de Janeiro de 1976, já após a independência, momentos antes de abandonarem aquela cidade




Fica aqui mais uma recordação de gentes e factos ocorridos um dia, algures na nossa terra.




MNJardim 


Fotos/fonte - Blog Kadypress: clicar AQUI.
Aero Clube de Moçâmedes AQUI

27 novembro 2008

24 novembro 2008

Gente de Porto Alexandre






Quem se lembra da primeira loja dos gémeos de Porto Alexandre, do Álvaro e do Eduardo Faustino?

Quem se lembra deste carro original e do seu proprietário?

Ao volante, Caciano, atrás, Taruca Pacheco + Álvaro Faustino...

18 novembro 2008

Desporto escolar em Moçâmedes (Namibe, Angola) no âmbito da Mocidade Portuguesa Feminina: entre fins 1969 e meados 1970



Cecílio Moreira (de gravata) rodeado por um grupo de alunos da Escola Prática de Pesca e Comércio 
de Moçâmedes, em finais dos anos 1940.  Reconheço, entre outros, Tito Gouveia (filho), em cima, à esq. Bento
?, Mário Rocha?, ?, e Amadeu Pereira?


A Mocidade Portuguesa e o Desporto em Moçâmedes

1. A Mocidade Portuguesa Masculina

Foi nos finais da década de 40 que tiveram inicio as aulas de Educação Física na Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, no âmbito da Mocidade Portuguesa, tendo como professor Emídio Cecílio Moreira.

Cecílio Moreira era ainda um jovem de faces rosadas quando, na década de 40 chegou a Moçâmedes ido da Metrópole, integrado na Marinha portuguesa e vinculado à Capitania do Porto Moçâmedes, tendo em seguida enveredado pela carreira docente como professor de Ginástica  e de Trabalhos Manuais da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 
Cecílio Moreira, na Metrópole, fora campeão nacional de box de peso médio, talvez este facto tivesse influenciado a  sua carreira profissional e ao mesmo tempo contribuido para a grande colaboração que prestou à cidade na expansão das actividades desportivas nos clubes locais. Foi o caso do Sport Moçâmedes e Benfica, que viria a criar as suas primeiras equipas de basquetebol nas classes masculina e feminina, na sequência de aulas de Ginástica por si ministradas aos atletas do clube.
 

 Uma equipa de voleibol da Escola Pratica de Pesca e Comércio de Moçâmedes
no início dos anos 1950. Em cima, e da esq. para a dt. Mário Luís Figueiredo, ? José Manuel Frota e Soares. Embaixo: Caetano, Fernando Morais e ?



Uma equipa representativa da MP nos campeonatos distritais, com elementos
recrutados das equipas daquela modalidade do Benfica e do Atlético de Moçâmedes

Mas as actividades da MPM,  primeiro na Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, mais tarde da Escola Comercial e Industrial de Moçâmede, e ainda mais tarde na Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique, não se limitaram à Educação Física (os tradicionais exercícios ginásticos). Elas também se estenderam a outras modalidades desportivas, como futebol, voleibol, basquetebol, o hóquei em patins, ainda que estas não passassem de experiências de curta duração, dado o grande número de clubes existentes em Moçâmedes que as praticavam. Levados a sério, sim, nesta época, e em épocas anteriores, e quase até aos momentos finais da colonização portuguesa, foram os desportos náuticos que tiveram o seu início na década de 40 (finais), primeiro na classe de «Sharpie e mais tarde, na década de 50 e 60, na classe de «Snipes», e cujos velejadores-estudantes pertenciam ao «Centro Nautico» da Mocidade Portuguesa. O instrutor desta modalidade, como não podia deixar de ser, era o professor Emídio Cecílio Moreira.



  Vela «sharps», em 1950.
A velejar Mário Guedes e António Martins Nunes (Cowboy).

 
  Perspectiva da Praia das Miragens com «snypes» e velejadores da Mocidade portuguesa. 
Finais da década de 50.


A vela foi outra das modalidades desportivas, esta sim, grandemente beneficianda com o concurso da Mocidade Portuguesa.
A baía de Moçâmedes tinha óptimas condições para a prática da vela devido aos ventos não muito fortes que facilitavam os treinamentos dos jovens estudantes, e pelas «regatas» que alí por vezes ocorriam, por ocasião das Festas anuais da Cidade, a «4 de Agosto», e mais tarde durante «as Festas do Mar», «regatas» que eram entusiasticamente acompanhadas pela população que se concentrava na Praia das Miragens. Aliás foi para Moçâmedes que veio o título mais honroso alcançado em 1956, em Luanda, em «snipes» por Fausto Ferreira Gomes, coadjuvado por Leonel Matos Mendes, numa regata em que participaram excelentes velejadores dos principais Centros de Vela angolanos da Mocidade Portuguesa: Luanda. Lobito, Benguela e Moçâmedes. 

Quanto à modalidade de «REMO» esta coneçou por ser praticada em Moçâmedes, nos velhos tempos da «guiga» do Ginásio Clube da Torre do Tombo, e foi perdendo o entusiasmo dos jovens uma vez que existiam somente dois barcos, para além da «guiga», um do Independente de Porto Alexandre, mais leve, quase sempre vencedor, um «Yolle» do Centro Nautico da Mocidade Portuguesa.
O desporto era fundamental para a Mocidade Portuguesa devido à disciplina que esta actividade implica. A Mocidade Portuguesa, criada em 19 de Maio de 1936 era uma organização juvenil que procurava enraizar uma nova mentalidade ao serviço do Estado Novo que defendesse a trilogia «Deus, Pátria e Família». Para isso era necessário estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física da juventude, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina e no culto do dever cumprido. A ela deveriam pertencer, obrigatoriamente, os jovens dos sete aos catorze anos. A MPM encontrava-se dividida por quatro escalões etários: os lusitos (dos 7 aos 10 anos), os infantes (dos 10 aos 14 anos), os vanguardistas (dos 14 aos 17 anos) e os cadetes (dos 17 aos 25 anos).É evidente que a Mocidade Portuguesa não era inocente. Eram estruturas que de inicio serviam o sistema educativo e divulgavam doutrinas e princípios cujos objectivos eram o de formar consciências de acordo com ideologia do regime, identificada com a tradição, a obediência, o respeito pela autoridade, o patriotismo e a aversão à modernidade estrangeira, etc., etc.
De início a Organização abrangia toda a juventude escolar ou não, contudo acabou por recrutar quase exclusivamente os alunos dos ensinos primários e secundário, e com o pós Guerra (1939-1945)  foi perdendo o caracter  para-militar que detinha desde o seu início  sendo extinta após o 25 de Abril de 1974.

Na década de 1950  ainda que a juventude continuasse a ser  de certo modo politica e ideológicamente  manipulada, era-o subrepticiamente, e não tinha disso a consciência. O que  contava para a juventude, na Mocidade Portuguesa, era a parte lúdica, e nada mais. Através da MPM tinham acesso a muitas coisas gratuitas que os jovens de agora para as terem tem que as pagar a bom preço, e nesse aspecto a Mocidade Portuguesa era camaradagem, alegria, desporto, a oportunidade de viajar, de disputar campeonatos provinciais desportivos etc., etc. Através da MP ganhavam amigos, passavam momentos agradáveis, nos acampamentos, nos passeios, no desporto, ou seja, em actividades que as posses da maioria não permitiriam penetrar. E não creio que os objectivos de inculcação ideológico-políticos da MP tenham tido algum sucesso entre os jovens da minha terra. Em termos factuais, o que sei é que eles souberam aproveitar aquilo que era bom na MP, ou seja os já citados aspectos lúdicos; e que houve alguns que nos anos 60 se tornaram mesmo activistas contra o regime de Salazar e do Estado Novo quando tiveram que partir para a Metrópole para prosseguirem os estudos para níveis superiores, uma vez que na altura Angola não possuía uma Universidade. Curiosamente, todos eles faziam parte de uma segunda geração de brancos nascidos em Angola, todos eles , portanto, rotulados à nascença como euro-africanos ou «brancos de 2ª». Curiosamente também muitos deles estiveram ligados à Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa. Perduraram até à década de 60, normas que visavam distinguir os filhos de portugueses originários de Portugal (reinóis), dos brancos nascidos em Angola para lhes limitar os direitos civis, reflexo da desconfiança e suspeição em relação aos naturais das colónias. Estes não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia a nível superior na administração pública colonial, etc., etc. O próprio facto de não haver em Angola uma Universidade era significativo...  







Equipa de basquetebol feminino da Mocidade Portuguesa Feminina do Liceu 
de Moçâmedes
Anos 60.


 Equipas de Badmington.Mocidade Portuguesa Feminina do Liceu de Moçâmedes
 
Excursão à Metrópole da Mocidade Portuguesa Feminina. ECIIDH

  
A Mocidade Portuguesa Feminina foi Criada em Portugal, em 1937 com o objectivo de criar a nova mulher portuguesa: boa esposa, boa mãe, boa doméstica, boa cristã, boa cidadã, sempre pronta a contribuir para o bem comum, mas sempre longe da intervenção política deixada aos homens, ou seja, como veículos de transmissão dos valores e comportamentos ditados pelo regime de Salazar de acordo com os ditames da trilogia "Deus, Pátria e Familia". Assim descreve esta organização estudantil do Estado Novo a historiadora Irene Flunser Pimentel, que acrescenta, ser a MPF uma organização que dava indicações inclusivamente sobre o fato de banho oficial com decote pouco generoso e saia não muito curta, sobre a atitude a ter em casa com o marido, conselhos sobre livros fundamentais e outros proibidos aos olhos das jovens, e a aprendizagem das virtudes dos grandes heróis nacionais como D. Filipa, etc.

 
Naquele tempo os ideólogos do regime como veículo indispensável à prossecução do programa do Estado Novo. Aliás, no ano a seguir ao golpe do 28 de Maio de 1926 e à «ditadura militar», logo o Estado Novo se apressou a estabelecer através do regime jurídico algumas das obrigações em relação à mulher, tais como regime de separação de sexos nas escolas, a introdução da disciplina de Economia Doméstica incidindo nas tarefas de "coser, bordar, cozinhar, olhar pelo asseio da casa, talhar, cozer e conservar as peças de vestuário da sua família, considerar o valor da higiene, etc. E em 1931 se é reconhecido o direito de voto foi apenas àquelas que possuíam cursos superiores ou secundários, enquanto aos homens bastaria saber ler e escrever. Também o Código do Processo Civil de 1939 veio submeter ainda mais a mulher à tutela do marido, interditando-lhes o poder de afiançar, exercer comércio, viajar para fora do país, celebrar contratos e administrar bens sem a autorização escrita do marido.

Inserida neste contexto, a
Mocidade Portuguesa Feminina o objectivo prioritário de estimular nas jovens portuguesas a formação do carácter, o desenvolvimento da capacidade física, a cultura do espírito e a devoção ao serviço social no amor de Deus, da Pátria e da Família, tendo a biologia vinda em socorro da ideologia através da apresentação desse argumento infalível que é a capacidade da mulher gerar mais «filhos da Nação", de os educar assimilando para tal o programa instituído e dispensando toda e quaisquer pretensões de autonomia, fazendo lembrar o que passava noutros regimes ditatoriais europeus tais como a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, a Espanha de Franco.

Já na década de 1960, houve como que  um reoganizar da MP masculina e feminina. Existem fotos dos alunos do secundário de Moçâmedes e de Porto-Alexandre, tiradas na década de 60 e na década de 70,  que nos motram  como a MP see encontrava activa, mesmo mais activa que nunca, com especial empenho ao nível do desporto.

Quanto à Mocidade Portuguesa Feminina esta foi uma organização serôdia entre nós raparigas moçamedenses daquele tempo, veriicando-se como atrás foi dito uma grande actividade  nas décadas de 1060 e 1970.  Eu própria frequentei em Moçâmedes o secundário na segunda metade da década de 1950 e ao nível da Escola que frequentava, a Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, nunca me dei conta da existência de qualquer actividade feminina levada a cabo por aquela organização. Nunca vesti nem vi colegas minhas envergarem fardas, não obstante  tive acesso a fotos de finais dos anos 1940 que mostravam desfiles da MP feminina, em saudação olímpica, desfilando pelas ruas da vizinha de Sá da Bandeira. 

E em relação a actividades desportivas escolares, na segunda metade da década de 1940  chegaram a ter a disciplina de Educação Física, prática que  quando muito perdurou pelo menos até 1950, pois já não existia esta disciplina quando frequentei a Escola Comercial de Moçâmedes que veio substituir a Escola de Pesca.

Concluo que entre nós a MPF, excepto talvez nas décadas de 1940 e inicios de 1950, a MP masculina que frequentava o secundário, não demonstra objectivos de inculcação ideológica de que Irene Flunser Pimentel nos fala quanto à MP metropolitana, e que até aos finais do Império,  se encontrava reduzida à actividades desportivas e lúdidas. Aliás, segundo a própria história da MP, a partir de meados da década de 50, na Metróple, já a organização havia começado a perder o seu anterior carácter de obrigatoriedade e de otganização para-militar. Não obstante, o Curso de Formação Feminina, Disciplina de Lavores no Ciclo Preparatório, foi uma realidade defebdida peka MPF, veiculava pois a ideologia  do Estado Novo em relação à mulher.

Quanto ao resto,
imposição de
decote pouco generoso, saia não muito curta, etc. etc., só posso dizer que as jovens da minha geração não deram por isso. Seguiamos a moda que chegava a nós atravé da Revista BURDA. Praticavamos a modalidade de basquetebol com curtos calções e treinavamos nos nossos clubes jogando contra equipas constituídas por rapazes sem quaisquer dessas inibições de que nos fala a referida historiadora. Aliás, a década de 1950 foi entre nós de grande actividade  desportiv promovida pelos vários clubes da cidade, altamente ouganizadosm que pouco espaço deixavam à MP. 






Como referi nas décadas de 1960 até 1975, a MPF teve realmente um grande incremento entre os jovens estudantes de Moçâmedes, de ambos os sexos, tendo  chegado a organizarem-se torneios provinciais em algumas modalidades como basquetebol, badmington, e outros, realizados fora de portas, excursões incluso à Metrópole da Mocidade Portuguesa Feminina, tal como as fotos  testemunham. 

De qualquer modo, a verdade é que os jovens gostavam da MPM e da MPF pela camaradagem, alegria, desporto, a oportunidade de viajar, de disputar campeonatos provinciais desportivos etc., etc. que naquela organização encontravam. Quanto ao resto as mudanças que, entretanto, se foram verificando no  seio da Familia, a instituição basilar da sociedade portuguesa, tal como fora concebida por Salazar e pelo Estado Novo exigiam, nestas décadas já não tanto uma educação que formasse jovens apegadas ao ideal doméstico e ao futuro papel de boas esposas e boas mães capazes de transmitirem aos filhos os princípios ideológicos e os valores morais do Estado Novo, mas também jovens preparadas para se confrontarem com as mudanças que estavam surgindo em toda a parte, saudáveis e fortes para os embates e capazes de manterem uma prole sem degeneração. As décadas de 1950 e 1960, foram aquelas em que se verificou entre nós, a saída em massa das mulheres para o mundo do trabalho remunerador.