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30 janeiro 2017

Recordando Moçâmedes de outros tempos... A Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. Os professores. O Padre Galhano. Os enfermeiros de Moçâmedes.






 O Padre Guilhermino Galhano,
 em dia de comunhão solene. 1946


O Padre Guilhermino Galhano, integrando o corpo docente da
 Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 1951

   O Padre Guilhermino Galhano, no time de futebol 
do Ginásio Clube da Torre do Tombo
 O Padre Guilhermino Galhano ministrando no velho campo de futebol de terra batida, a missa campal, por ocasião da passagem da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em peregrinação por terras de Angola. 1948.






- Ó Pai Galhano -



O Padre Galhano, ao que creio, chegou a Moçâmedes na 2ª metade dos anos 40. Com uma visão diferente do "munus" de pároco relativamente aos seus percursores ,cedo se mostrou mais próximo dos seus paroquianos, em particular das classes mais simples e das crianças. Na sua postura, o Padre Galhano marcava um certa distância dos " importantes da "vila". Era frequente ver-se o Padre Galhano, com as suas barbas negras e boina preta, de batina branca arregaçada até aos joelhos, a participar com os mais jovens nas "peladas" que se realizavam no descampado entre a Igreja e o Palácio do Governador. Habilmente passava do futebol ao catecismo.

Adepto do desporto, aos domingos lá estava o Padre Galhano no campo de futebol misturado com a claque do Ginásio da Torre do Tombo, a incitar os seus jogadores. Não poucas vezes vimo-lo a acompanhar o Ginásio, até mesmo nos jogos realizados na vizinha Porto Alexandre, contra o Independente.
 
Belenenses de alma e coração, ao chegar a Moçâmedes, logo aderiu ao Ginásio da Torre do Tombo, sua delegação, e tornou-se seu fervoroso adepto.Ali o dragão era a sua " cruz de Cristo", com o mesmo fundo azul. Mau grado algumas tentativas falhadas de levar os pescadores a assistir à missa dominical, tal não o impedia de estar com eles, ao fim do dia, na sede do Ginásio, jogando às cartas, às damas ou ao dominó.

Nunca se vira em Moçâmedes um Padre com tal espírito " democrático ". Sabia como poucos lidar com a gente mais humilde, sem cobrar a ida à missa dominical.

O Padre Galhano deixou a sua marca na Paróquia de Santo Adrião. Em certa medida, e com as devidas proporções, o Padre Galhano parecia antecipar no tempo o espírito do actual Papa Francisco.


Repórter ASA




- Os nossos enfermeiros -



Ao tempo, a Torre do Tombo conheceu dois enfermeiros.  Primeiro, o Coelho e mais tarde, o Franco.
O Coelho era " o terror" das crianças. Desde miúdo que nos habituamos a temer a sua presença. O paludismo era atacado com as dolorosas injecções de quinino aplicadas pelo Coelho, nem sempre da forma mais correcta.Muitas crianças ficavam para sempre marcadas com as injecções agravadas nos seus rabinhos. A "marca do Zorro" como se dizia. Nunca mais dele se esqueceriam.
Ao que constava o Coelho era muito amigo da aguardente. Nem sempre estaria nas melhores condições e as consequências ficavam à vista. No caso do autor, ficamos para sempre com problemas na perna esquerda, o que viria a condicionar a nossa actividade desportiva futura .Na época,teve de ir a Luanda fazer choques eléctricos para poder recuperar a força na perna esquerda. Minha mãe dizia que quando entrava em casa sentia o meu pé a arrastar-se pelo corredor. E tanto quanto sei,à época o Coelho nunca foi chamado à responsabilidade.

Mais tarde, surgiu um novo enfermeiro - o Franco, negro. Trabalhava no Grémio da Pesca e vivia numa casa na Torre do Tombo, com a mulher e duas filhas.Dedicado profissional, rapidamente granjeou simpatias e foi substituindo o nefasto Coelho.

Era o Franco que tratava dos nosso furúnculos e das feridas que sofríamos nas nossas brincadeiras e jogos de futebol. Infelizmente, vieram ambos a sofrer idêntico percalço.

Na época, a bicicleta era o meio de transporte mais usado.Surgiram entretanto as motorizadas e naturalmente os dois enfermeiros aderiram à moda e adquiriram motorizadas para facilitar as suas deslocações em serviço.Por razões que desconhecemos, a não ser a velocidade na condução das motorizadas, ambos tiverem acidentes idênticos, resultantes de choques com automóveis em cruzamentos. Acidentes esses que lhes afectou a vida profissional. Ambos tiveram de passar a usar próteses nas pernas para toda vida, o que o enfermeiro Franco de todo não o merecia.

 Repórter ASA





O dia da despedida do Dr Borges ( o 3º ao fundo à dt, a contar da esq para a dt.)

  O Padre Guilhermino Galhano, integrando o corpo docente da
 Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes. 1948




- Os meus professores do Curso Comercial -


Os jovens da nossa geração estudaram na "velha" Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes. Designação enganadora pois ali apenas se ministrava o Curso Comercial.Também lá fomos aluno desde Abril de l948 , concluindo o Curso Comercial em Dezembro de l952 , com aproveitamento de "Bom".

Recordamos os nosso professores de então:

O Dr. Borges, que era o Director da Escola e leccionava a aula de Comércio, Contabilidade e Direito Comercial.Coxeava numa das pernas com um aparelho" que trazia no bolso.Como não pertencia ao grupo dos melhores desportistas,nem era um fã da Mocidade Portuguesa, deveu-se a ele concerteza a minha escolha para integrar um grupo de 50 estudantes das várias escolas secundárias de Angola que em Março de 1953 visitou a Metrópole. Bom professor, fazia assim justiça ao nosso trabalho.
O Dr. Rodrigues, "O Calhau" como era conhecido, Professor de Matemática. Os seus métodos de ensino não conseguiam motivar os alunos para tão difícil disciplina. O nosso aproveitamento não ultrapassava o 10.

Seguiu-se-lhe o Tenente Faustino, militar que veio prestar serviço na Fortaleza de São Fernando. Bom professor e bom pescador de garoupas e meros nos barcos do meu pai. Muito exigente, fez de mim um bom estudante de Matemática. Tornou-me a Matemática uma disciplina apetecível.
A Dra. Emilia, professora de Português, Francês e Inglês. As suas aulas eram muito "chatas". Na sua incapacidade para nos ensinar duas línguas "vivas"´, enchia-nos os cadernos de regras e mais regras de gramática. Tornou-se enfadonha e festejamos a sua saída.

Sucedeu-lhe a Dra. Brigitte, esposa do Capitão do Porto. Mulher simpática e bonita, com métodos pedagógicos inovadores . Nas aulas de francês e inglês passamos a privilegiar as traduções e retroversões e iniciamos alguma conversação.A gramática era um mero auxiliar.Os progressos da turma foram evidentes. Habituamo-nos a pouco e pouco a escrever e falar em francês e inglês. Quanto ao português ,a Dra. Brigitte privilegiava as composições redigidas pelos seus alunos.Torna-mo-nos então a atracção das aulas com as redacções em que apelávamos a uma grande imaginação.Eram lidas "com suspense" no final das aulas.

Recordamos uma delas, pela sua originalidade - a génese da palavra "Moçâmedes"...Na minha imaginação de jovem adolescente via um barco que zarpava a Angra do Negro, nome então dado à bela baía de Moçâmedes, onde fundeou. Os barcos iam ali abastecer-se de água e alimentos frescos para as suas tripulações.Os tripulantes vieram a terra para festejar o acontecimento numa taberna junto ao mar.Uma solicita jovem fazia as honras da casa e distribuía canecas de vinho pelas mesas. Já muito animados, os tripulantes do barco entoavam em coro:" moça mede, moça mede,." pedindo-lhe para que enchesse os copos de vinho. Assim terá nascido a génese da designação de Moçâmedes... sem barão.

Escusado será dizer que o autor foi muito cumprimentado pelos colegas do curso.Mais tarde, o Zé Coco , no seu semanário, divulgou a expressão "Namibe", do nosso deserto.

Continuando, o Prof. Carrilho ministrava as aulas de Caligrafia, Dactilografia e Estenografia.Era um calígrafo muito talentoso.Na horas vagas fazia as "escritas" de várias firmas da terra.

O Prof. Cecilio Moreira coordenava as aulas de educação física e desport.


Repórter ASA


 Resultado de imagem para ESCOLA DE PESCA MOÇAMEDES
  As instalações da Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes.



- A criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais -



Mais tarde, já a trabalhar no Grémio da Pesca, resolvemos retomar os estudos. Na época, havia uma grande discriminação entre alunos da Escola Comercial e dos Liceus. Eram compartimentos estanques.Os alunos do Curso Comercial eram os patinhos"feios" e os do Liceu do Lubango os meninos "bonitos". Não se permitia que se transitasse de um curso - o comercial- para o outro - o liceal-.. O que significava que apenas era possível prossseguir os estudos na área de Economia e Finanças e em Lisboa.
Assim, tornou-se imperioso lançar um forte movimento para a criação da Secção Preparatória para os Institutos Comerciais na nossa escola, requerendo ao" poder colonial de Lisboa " a sua instalação. A iniciativa , com grande apoio dos diplomados da Escola, teve sucesso e veio a começar a funcionar pela primeira vez no ano lectivo de 1955, em regime de horário post-laboral.
Tivemos a honra de ser o primeiro aluno da Escola a frequentar o Instituto Comercial de Lisboa,que funcionava no palacete da Rua das Chagas.



Repórter ASA


07 dezembro 2016

Meninos do Namibe, estudantes no Lubango...





O Sport Clube Maristas, no 1º torneio do sul de Angola de hóquei em patins. Da esq. para a dt., em cima 3 moçamedenses: Maló de Abreu (Nico), Hernâni Silva, Álvaro Ascenso, e embaixo, outros 2: José Castro Alves e Mário Augusto Lopes em baixo. Reconheçe-se o huilanos Caria (em cima, a dt.) e Agostinho ( o 2º, em baixo).  Dos oito, cinco são moçamedenses e alexandrenses, o que mostra bem quanto o «bichinho» do hóquei em patins estava entranhado nos jovens de Moçâmedes da época. Aliás, a década de 1950, na qual teve início esta modalidade, foi uma época de ouro do hóquei em patins na cidade de Moçâmedes, que se prolongou até finais da década de 60. A foto foi tirada em 1956, em Sá-da-Bandeira (Lubango), mostram-nos alguns jovens de Moçâmedes e da vizinha Porto Alexandre que se encontravam a estudar no Liceu naquela cidade onde alinhavam na equipa de hóquei em patins do Liceu Diogo Cão e na equipa de futebol dos Maristas. O mesmo em relação às fotos que seguem.




Equipa de futebol dos Maristas (Huila) Da esq. para a dt., em cima apenas reconheço o moçamedense Alvaro Ascenso (3º).  Embaixo: Apenas reconheço, entre os jogadores, dois moçamedenses. de entre os quais reconheço, embaixo, José Alves(1º) e Júlio Eduardo Almeida (Juju, o 3º)






A equipa de hóquei em patins do Liceu Diogo Cão, de Sá da Bandeira. Aqui, no decurso de uma excursão a Lourenço Marques. Da esq. para a dt, em cima, reconheço entre outros, os moçamedenses Álvaro Ascenso (1º), ?,?,?, Artur Trindade (5º), ?, Nono Bauleth (7º), ?,?,? Embaixo: Reconheço entre outros, o huilano Peyroteu (1º) e o moçamedense Pólvora Dias (2º), ?,?,?.  


Porque teriam os nossos jovens que abandonar a sua terra e a sua família para, aos 10 anos de idade, após o primário,  se deslocarem para Sá da Bandeira, se quisessem prosseguir os estudos?

Isto acontecia devido à ideia retrógada que vigorava na época (anos 1950), de que a escola pública deveria realizar uma reprodução social e cultural, ideia que levou as autoridades portuguesas a entenderem que Moçâmedes, considerada que era uma cidade essencialmente voltada para as coisas do mar, não deveria possuir uma instituição liceal, bastando proporcionar à sua juventude estudos práticos, considerados mais adequados ao meio, numa escola secundária e apenas ao nível do curso geral (5 ano) , Era a ideia da educação escolar  como adequação ao meio e ao papel a desempenhar, que segundo a reforma de 1930, a organização dos cursos,de cada escola está em função das características das profissões e da impor-
tância da atividade industrial ou comercial em cada contexto (Art. 7º).
Vidé "O ensino profissional: do Estado Novo ao Pós-25 de Abril de 1974" pg 15 https://repositorio.ipcb.pt/bitstream/10400.11/5389/1/A_visao_do_ensino_tecnico_profissional_portugues.pdf

Os estudos liceais, considerados como propedêuticos ao ensino superior,  pela carga literária formativa que incorpora o seu currículo,  destinavam-se  a uma insignificante  minoria , ou seja aos futuros candidatos a uma Universidade na Metrópole,  cujos familiares  conseguissem por seus meios suportar,  uma vez que a
Universidade de Luanda foi tardia,  só veio a ser criada já em 1969. Esta ideia não só prejudicou os filhos de Moçâmedes, como obrigou aqueles jovens que pretendiam prosseguir os estudos para níveis superiores, a muito cedo, aos 10 anos de idade, terem que deixar as suas casas e as suas famílias, para  após o primário ingressarem no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, a cidade mais próxima, a expensas de suas famílias, e quantas vezes com os maiores sacrifícios.

Em Moçâmedes, até 1961, ao nível do ensino secundário oficial, existia apenas a Escola Comercial r Industrial de Moçâmedes , que havia sido convertida 
em 17 de Março de 1952 a partir da antiga Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, ambas escolas de cariz técnico-profissiona ate ao 5º ano, que não davam a equivalência ao curso geral dos liceus de modo a que os alunos pudessem continuar os estudos .para níveis superiores.
HPIP
 
Uma vez no Liceu Diogo Cão, em Sá-da Bandeira,  alguns dos nossos jovens desde os 11 anos de idade.  ficavam alojados no Internato dos Maristas que servia de apoio àquele Liceu,  em pensões, em casas particulares ou de familiares. No Internato dos Maristas onde a maioria dos estudantes ficavam alojados, os adolescentes na idade considerada crítica (os «médios») eram entregues à vigilância do Irmão Celso, que fazia o culto da ordem e da disciplina, e que segundo os próprios estudantes, os castigava com dureza sempre que considerava necessário. Outros estudantes de Moçâmedes houve, que por razões de preferência, ou por motivos económicos, escolhiam a Escola de Regerentes Agrícolas do Tchivinguiro, onde ficavam alojados em regime de internato. Esta Escola, de frequência gratuita, ficava situada na província da Huíla, no alto da Serra da Chela, em edifício de grandes dimensões, no isolamento de uma imensidão de terras até onde a vista alcançava, era algo de conventual, calmo, sossegado, silencioso. Para ali entravam após o 2º ano, e dali saiam ao fim de uns anos aptos a investirem os seus conhecimentos em prol do desenvolvimento agrícola e pecuário de Angola.

Quanto à instituição liceal em Moçâmedes, esta só viria a ser fundada com o nome de Liceu Almirante Américo Tomás, a partir de 21 de Outubro de 1961. Ainda tenho presente o dia em que o Professor Doutor Adriano Moreira, então na qualidade de Ministro do Ultramar,  se deslocou a Moçâmedes, quando da sua visita a Angola, no ano crítico das matanças da UPA nas fazendas Norte de Angola, e foi feita uma manifestação nocturna junto ao Palácio do Governador com gritos de ordem: se faziam ouvir: queremos um Liceu!...queremos um Liceu!... Foi então que o Ministro, surgindo na varanda do Palácio, disse simplesmente para a multidão: «o Liceu de Moçâmedes chama-se «Liceu Almirante Américo Thomá! ». A manifestação tinha sido uma encenação, porque a decisão já estava tomada. Mas finalmente Moçâmedes tinha alcançado o direito ao seu Liceu, ainda que numa 1ª fase apenas ao nível dos estudos gerais liceais (5º ano).

Seis amigos, três dos quais de partida para a Metrópole no paquete Império, onde iam continuar os estudos: Júlio Eduardo Almeida (Engenharia), Manuel Dias Monteiro (Medicina), e Amilcar Almeida (Direito).  Os que ficaram: Zeca Carequeja, Carlos Manuel Guedes Lisboa e Norberto Edgar Almeida.  


Para aqueles que 1961 não frequentaram para o Liceu Diogo Cão, ingressar numa Faculdade da Metrópole era problemático, uma vez que tinham que se submeter a contínuas provas de aferição que obrigavam a mudanças de áreas, etc, etc.. que e constituiam verdadeiros malabarismos.   Estudantes houve que  tendo se juntaram e fizeram uma exposição ao Ministro da Educação,  solicitando que se tornasse possível  em Moçâmedes a Secção Preparatória aos Institutos, que lhes daria acesso ao Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Não foram muitos, mas o processo veio deferido. Um deles encontra-se na foto imediatamente acima, então já entre amigos a bordo do paquete Império a caminho de Lisboa  tendo em vista o ingresso no referido Instituto. Era o caso do Amilcar que viajou para Lisboa com a ideia  de vir a poder ingressar em Económicas e Financeiras, após o Instituto, mas depois de tantos esforços, tantos exames de equivalências  mas anos mais tarde conseguiu enveredou na Faculdade de  Direito, acabando por ser Conservador e mais tarde Notário.  Júlio Eduardo e Manuel tinham frequentado o Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, para eles foi tudo fácil, e puderam ingressar de imediato nos cursos que escolheram, Engenharia e Medicina. Amilcar teve que frequentar na Metrópole, o Instituto para ter a equivalência do 7º ano, e numa abertura entretanto permitida pelo Ministério da Educação, através de explicações pode habilitar-se por ele mesmo, a outras disciplinas exigíveis para área pretendida (Direito), teve que fazer cerca de mais 3 anos de estudo na Metrópole para conseguir o acesso ao seu sonho.

1961 foi o ano da sublevação no norte de Angola pela UPA, e do início da luta armada contra os movimentos independentistas. Foi também o início de uma era de progresso para Angola  a vários níveis  r foi nesse ano que se começou a pensar seriamente na implementação dos Estudos Gerais Universitários em Angola, algo proibitivo até então.  Até 1961 o Estado Novo não queria, nem mesmo os angolanos brancos demasiado cultos. De nada serviriam Universidades e Doutores para ficarem no desemprego, Assim pensava Salazar. Por detrás destas vagarezas com que então se caminhava rumo ao progresso, estava o trauma da independência do Brasil  que perseguia os nossos maiorais. O 1961 veio acompanhado de apelos à ida dos Portugueses da metrópole para Angola e em força. Já não eram necessárias as célebres "cartas de chamada".    Em 1962 finalmente  o Plano Deslandes propõe a criação urgente do ensino superior em Angola. Leis foram mudadas desde então e pelo Decreto Lei nº 44530, de 21 de Agosto, do Ministério do Ultramar foram criados dez (10) cursos superiores (DecretoLei nº 45180, de 17 de Agosto de 1963), designadamente Médico-Cirúrgico, Engenharia Civil, Engenharia de Minas, Engenharia Mecânica, Engenharia Electrotécnica e Engenharia Químico-Industrial, em Luanda, os cursos de Agronomia, Silvicultura e Medicina Veterinária na então cidade de Nova Lisboa (Huambo) e os cursos de Ciências Pedagógicas, na então cidade de Sá da Bandeira (Lubango). Era agora uma politica desenviolvimentista que se erguia nas colónias de além mar.

Em 1968, os Estudos Gerais Universitários de Angola passaram a designar-se Universidade de Luanda através do Decreto nº 48780, de 23 de Dezembro, do Ministério do Ultramar e de Educação Nacional. Através do Decreto – Lei nº 86/75, de 5 de Julho, do Ministério da Educação e Cultura, do Governo de Transição concedeu-se a descentralização Administrativa e Pedagógica Universitária e se reconheceu-se a existência de três Universidades do Estado, nomeadamente, as Universidades de Luanda, Huambo e Lubango. 

Como referiu o Secretário Provincial, Amadeo Castilho Lopes, «...visava-se, com a criação do ensino superior, a formação e a actualização de técnicos de agro-pecuária, médicos, engenheiros e professores do ensino secundário, no sentido de Angola passar a dispôr de condições que lhe permitissem formar os técnicos e agentes qualificados das actividades básicas, indispensáveis para promover o desenvolvimento económico e social do território e que as Universidades da Metrópole não se mostravam capazes de fornecer, em tempo útil nem na qualidade desejável».

A verdade é que a Universidade de Luanda só veio a ser criada já em 1969 e oferecia cursos apenas em Ciências, Engenharia, Medicina e História, sendo notória a falta em Angola de uma Faculdade de Direito e outra de Economia.  Os alunos que quisessem prosseguir estudos nesses campos, tinham de fazer um exame de aptidão à universidade e depois seguir para a Metrópole (Portugal - Lisboa, Coimbra ou Porto). O governo português era naturalmente adverso a esses desejos e assim resistiu durante anos para que esses cursos  fossem leccionados nas colónias. Foi graças a um pedido de um grupo de alunos finalistas do Liceu Salvador Correia de Luanda, no ano de 1969, dirigido ao Governador Geral Coronel Rebocho Vaz e ao Reitor da Universidade de Luanda, Professor Ivo Soares que em Agosto de 1970, o Curso Superior de Economia foi estabelecido em Luanda e em Lourenço Marques (Moçambique), e moldado segundo o modelo do Curso Superior de Economia da Universidade do Porto. 

A partir da década de 70, o Curso de Regentes Agrícolas passa a denominar-se Curso de Engenheiros-Técnicos Agrários.

Para culminar, em 05.07. 1975, já em vésperas da independência de Angola, foi resolvido à pressa, desdobrar a Universidade de Luanda em três: Universidade de Luanda, Universidade do Huambo e Universidade do Lubango. A resistência à Faculdade de Direito manteve-se até ao fim. Eles lá sabiam porquê! E nós também!

Por curiosidade, transcrevo parte de um texto que encontrei aqui

«(...) Reza a história, que o processo da criação do ensino superior em Angola não foi nada pacífico e teria mesmo conduzido a uma crise política no Conselho de Ministros de Portugal, dirigido por Oliveira Salazar.

«A criação do ensino superior em Angola, nas circunstâncias em que se verificou – por iniciativa e decisão do Governo Geral e do Conselho Legislativo de Angola – viria a ser considerado mais um acto de irreverência e de insubordinação, que gerou um conflito grave com o Governo Central e comprometeu, nos círculos de influência política, o próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira».


A este propósito, explica-nos Amadeu Castilho Soares:

« (...) para certas personalidades e grupos de influência do regime político nacional, a decisão do Governo de Angola da época, ao criar o ensino superior, teria sido instigada pelo próprio Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira, numa manobra considerada traiçoeira, para tornear os obstáculos que o impediam de realizar as reformas de fundo que intentava introduzir na política ultramarina do Governo Central, na linha da autonomia progressiva e irreversível, que defendia. A difícil situação pessoal em que o Ministro foi colocado, em toda esta questão, teria oferecido então o pretexto para provocar o afastamento da cena política de um protagonista incómodo, que conquistara grande prestígio e popularidade na opinião pública».

Em Setembro de 1962, o Governador Geral de Angola, General Venâncio Deslandes seria exonerado pelo Conselho de Ministros e algum tempo depois o Ministro do Ultramar Professor Adriano Moreira, seria também afastado do seu cargo. Estes factos históricos revelam-nos, na sua substância, a ausência de uma visão estratégica do Conselho de Ministros de Portugal, no que concerne à implantação do ensino superior e à criação de uma Universidade em Angola.

Tudo era complicado para Salazar, que preferia manter o povo o mais possível afastado do saber, convencido que desse modo melhor preservaria a sua «jóia da corôa», Angola, e com ela o regime instituído, incapaz da abertura mental suficiente para evitar a tempo a autêntica «ratoeira» que nos estava a criar... A ousadia do Governador teria também os seus efeitos, na demissão do cargo de que era titular na Administração Pública Amadeu Castilho Soares, o jovem e corajoso Secretário Provincial que havia concebido e posto em acção o PLANO DO GOVERNO GERAL DE ANGOLA PARA 1962, aprovado pelo Conselho Legislativo, em 7 de Outubro de 1961, e conhecido pela designação: «Levar a escola à sanzala». 


Voltando aos estudantes moçamedenses, apesar da inexistência de uma instituição liceal em Moçâmedes até 1961, e de uma Universidade em Angola até 1969, alguns moçamedenses conseguiram aceder a uma Universidade na Metrópole, ou até mesmo na África do Sul. Não eram ricos, uns (um ou dois) fizeram exposições e lá conseguiram uma bolsa de estudo de Salazar, outros fizeram-no a expensas das respectivas famílias e com grandes sacrifícios, e alguns deles numa luta titânica contra toda uma série de condicionalismos, como era, por exemplo o caso das equivalências, que lhes dificultava o caminho ou mesmo os impossibilitava de ir mais longe. Cito o caso pessoal de um conhecido e brilhante moçamedense que tão empolgantemente o relata, e que pode ser lido com um «clic» aqui: «Menino do Namibe».
Como se pode ver, os condicionalismos existentes não conseguiram demover a vontade de vencer deste «cabeça de peixe» ou «cabeça de pungo», como eram conhecidos os filhos de Moçâmedes. E de modo idêntico aconteceu com outros mais. Os ditos «cabeças de pungo» tinham já por toda a Angola fama de pessoas muito inteligentes, e não me refiro apenas àqueles que antes de 1969 tiveram que partir para bem longe para se licenciaram, alcançando por via dos seus cursos cargos de prestígio, mas também àqueles que ali permaneceram, ali trabalharam e ali se projectaram como proprietários nas áreas da agro-pecuária, comércio e indústria piscatória, e a tantos outros que se evidenciaram no campo profissional em altos postos na função pública (sobretudo Finanças, Obras Públicas), e na Banca, onde inúmeros moçamedenses ascenderam à categoria de Gerentes e Inspectores bancários, cargos que na época eram de elevado prestígio.

A título de curiosidade recordarei aqui, que era comum defender-se já naquele tempo e naquelas paragens o quanto uma alimentação rica em peixe era essencial ao bom funcionamento do cérebro. Sem dúvida, o povo é sábio! E o certo é que hoje pesquisas científicas confirmam claramente que, quando as pessoas consomem quantidades mais adequadas de ácidos glaxos ômega-3, a sua função cognitiva, especialmente a sua memória, melhora significativamente, e que o omega 3 ajuda ao desenvolvimento do cérebro. Orgulho à parte, os moçamedenses comiam muito peixe!

Enfim, parafraseando o «Menino do Namibe» : Meninos do Namibe que souberam, como tantos outros, superar a mediocridade dos que os queriam ver espartilhados entre o mar sem fim e o imenso Kalahari e, com o estigma do seu apoucamento intelectual...

Pesquisa e texto de MariaNJardim
 
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Para saber mais sobre: Estudos Gerais Universitários


Slideshow Angola do outro lado do tempo V, in Dailymotion- Angola V
Colocado por mariusangol

07 novembro 2016

Raul Radich Junior









RAUL RADICH JÚNIOR



A terra que me tem e que me guarda os ossos
É a mesma que amei e que servi!,
Aquela onde nasci
E onde sempre medi
Os homens por colossos!

Amei a minha terra como ama
A luz seus brilhos!
Foi para mim orgulho, honra e fama
Ter sido, embora humilde, um dos seus filhos!
Por ela me nasceram sonhos de riquezas,
E a alma se me abriu de toda fascinada:
Ah!, vê-la transformada
Na mais rica e feliz das terras portuguesas!
Lutei conforme pude
E a ela me entreguei sem outro norte
Que servi-la com honra e com virtude
Do berço até à morte!
A vida, à terra, dei-a
Com sonho e com labor
Na grande maré cheia
De todo o meu amor!
Quando tombei,
Tive-a no pensamento!
E lembro-me que chorei,
Nesse momento!



( Angelino da Silva Jardim )


  


Texto da Homenagem prestada ao Raul Radich
Júnior, a 1 de Agosto de 2004 no Encontro anual
em Caldas da Rainha.
in: Adimo

27 outubro 2016

Inauguração do Estádio Municipal de Moçâmedes, em 26 de Novembro de 1972






Inauguração do Estádio Municipal de Moçâmedes (actual Namibe) «Telmo Vaz Pereira», em 26.11.1972.



Estávamos a 3 anos da independência de Angola, quando finalmente Moçâmedes passou a dispôr de um novo Estádio Municipal: o "Estádio Municipal Telmo Vaz Pereira", no local conhecido por "furnas de Santo António". Este local, que ficava perto do antigo campo de aviação, foi aproveitado para o efeito por se tratar de um baixio que se adaptou perfeitamente àquela construção. Uma curiosidade: era para essas "furnas" que em tempo de cheias do rio Bero escoavam as águas que transbordavam do leito,
quando as margens do rio ainda não se encontravam reguladas.


 

                            Descerramento da placa comemorativa pelo Governador do Distrito de Moçâmedes.
 
 Na bancada de honra: o Governador do Distrito, Luís Gonzaga Bacharel, Presidente interino da Câmara Municipal de Moçâmedes, o Eng.Alípio Pinheiro da Silva, Lourdino Tendinha, Presidente da Câmara Municipal de Porto Alexandre.
Sentadas: as respectivas esposas



Este dia, para além da cerimónia tradicional de descerramento da placa comemorativa pelo então Governador do Distrito de Moçâmedes, foi marcado por um desfile de atletas de todas as modalidades desportivas, e ainda por um jogo de futebol disputado entre o Independente de Porto Alexandre e o Varzim Sport Clube. A partir de então, atletas e espectadores passaram a dispor de melhores condições e a cidade em geral passou a beneficiar de instalações mais compatíveis com a época e as necessidades crescentes do um distrito em permanente evolução.







  Desfile de atletas de todas as modalidades no dia da inauguração do Estádio Municipal «Telmo Vaz Pereira», dia 26 de Novembro de 1972



Para trás ficaram os campos de terra batida e sem condições onde se efectuavam os encontros de futebol, primeiro em frente ao edifício dos Caminhos de Ferro, em seguida no largo um pouco mais ao fundo, com bancadas e balneários rudimentares, e inadequadas ao tempo.


Os clubes no distrito de Moçâmedes, sem quaisquer subsídios por parte do Estado e das Câmaras Municipais, foram até ao fim da colonização portuguesa, carentes de recursos materiais, e iam sobrevivendo na dependência das quotizações dos seus sócios, das poucas receitas dos jogos que se iam efectuando, e de outros mecanismos como o bingo (quino), festas, etc... Restava o esforço e empenhamento dos atletas, a «carolice» e dedicação de uns quantos, que nas horas de lazer se dedicavam à causa clubista, bem como o incentivador calor dos aplausos das gentes de Moçâmedes no momento dos jogos.  
Nunca é demais lembrar que em Moçâmedes os pioneiros do futebol partiram para estas lides adquirindo equipamentos com o seu próprio dinheiro, que suportaram todos os sacrifícios e limitações, treinando e jogando em campos de terra batida, em péssimas condições e que nunca se deixaram vencer, fazendo rejubilar de alegria uma cidade inteira. 
Nunca é demais lembrar que desses mesmos campos sairam «vedetas» que foram alimentar o desporto desta modalidade noutras paragens longínquas, levando consigo o nome da cidade, e de Angola. Um exemplo, talvez o máximo, foi Fernando Peyroteo, conhecido por «o pé de canhão», que fez parte dos célebres «cinco violinos» do Sporting Clube de Portugal e da Selecção Nacional e que figurou entre os melhores do desporto português de todos os tempos, chegando a ser seleccionador nacional o ano de 1961. Fernando Peyroteo era natural da Humpata-Angola e inciou-se no futebol em 1832, aos 14 anos, no Atlético Clube de Moçâmedes. E já em meados do século XX, nomes como de João Luis Maló de Abreu que começou em Moçâmedes, sua terra natal, a sua actividade futebolística e que se revelou um grande guarda-redes na Académica de Coimbra, quando para aquela cidade se deslocou para prosseguir os estudos, onde se formou, e onde hoje é conhecido como o Professor Dr. Maló, catedrático da Faculdade de Medicina, principal responsável pela criação do Curso de Medicina Dentária.  
E já próximo da independência de Angola as gentes do distrito rejubilaram com a grande proesa do Independente Clube de Porto Alexandre, que foi não só o único Clube do distrito  a ganhar o Campeonato de Futebol de Angola, como a vencê-lo por três anos sucessivos (1969, 1970 e 1971), tendo ficado na posse da monumental taça «Cuca». Uma vitória estrondosa que ficou a dever-se ao esforço abnegado dos seus jogadores e do seu jogador-treinador, Manuel Gancho e de dirigentes tais como Rui Filipe Barreto de Lara e Manuel Trocado. Dessa equipa tri-campeã de Angola fizeram parte: Gavino, Gancho l (treinador e capitão), Gancho ll, Fernando, Cardeal, Quicas, Estrela ll, Estrela l, Osvaldo Bastos, Armandinho, Mário José, Castro, Agostinho e Neto.

Apesar do Independente ter sido um dos clubes pioneiros no desporto do Distrito, durante muito tempo este clube viu bloqueadas as suas aspirações de ir mais além, na medida em que não possuía instalações, e o campo de que passou a dispor para os treinos de futebol, a partir de 1953, reduzia-se a um areal nas traseiras da antiga Delegação Marítima. E também, porque as deslocações semanais a Moçâmedes para participarem nos campeonatos distritais exigiam um grande espírito de sacrifício aos seus jogadores, dado a morosidade e penosidade dos percursos até à década de 50,  uma vez que tinham que atravessar o deserto em incómodas camionetas que chegavam a demorar 4 ou mais horas para percorrer apenas 100 km. Seria caso de nos interrogarmos: o que seria então o Independente, se este clube pudesse disponibilizar aos seus desportistas as condições existentes hoje nos países avançados?


Para texto mais completo sobre Futebol em Moçâmedes, ver aqui: 
 http://memoriasdesportivas.blogspot.pt/2007/11/blog-post_5439.htm


 
Nota: Após ter sido publicada esta postagem, recebi um contacto de alguém que me informou, que, não obstante  de início,  o nome escolhido ter sido "Estádio Municipal Telmo Vaz Pereira", tal não se concretizou.  Manteremos contudo o nome, enquanto aguardamos uma clarificação do assunto, pois não me souberam esclarecer. No livro de Mário Guedes da Silva sobre o desporto moçamedense , consta o "Estádio Municipal Telmo Vaz Pereira".

25 março 2016

Poema "Encontro", de Angelino da Silva Jardim


Foto: O Clube Nautico (Casino) de Moçâmedes (Namibe), em dia de "calema", num tempo em que a "Praia das Miragens" ainda não possuia as suas arcadas...





ENCONTRO


Velho Mar,
Aqui me tens, de novo e por inteiro,
No gosto de rimar
E de me embriagar
De sal... de sol... de sul... e nevoeiro!
Funda saudade foi a que me trouxe,
Presa dentro de mim
Como o eco sem fim
Da tua voz salgadamente doce!
Nos recessos ocultos da minha alma
Sopra o leste da antiga inspiração,
Que encrespa a onda calma
Da tua sempiterna agitação!
E vislumbrando, ao longe o assomo da calema
Que faz ranger os mastros no convés,
Dou forma, vida e cor ao meu poema,
-Marinhos versos que te são fiéis!
E sinto na extensão das minhas veias
Onde, em contínuo anseio, o sangue estua e salta,
O pronúncio das grandes marés-cheias
Que hão-de trazer à praia a rima que me falta!
De novo, pois, fraternalmente unidos,
inundo-me de paz e imensidade,
Sentindo refluir nos meus sentidos
A onda...a espuma... os longes...e a saudade!


(Angelino da Silva Jardim)
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Poema seleccionado para o CATÁLOGO do 1º Salão de fotografia do Mar, realizado na cidade de Moçâmedes pelo Grémio dos Industriais da Pesca do Distrito, tendo como finalidade promover a cultura da fotografia relacionada com a natureza maritima e suas actividades, aproveitando a celebração do 123ª aniversário da chegada à baía de Moçâmedes da 2ª. Colónia de Pescadores Portugueses oriunda do Brasil.
O Salão esteve patente ao público na sala de exposições da Associação Comercial, Industrial e Agrícola, em Moçâmedes das 17 às 20 horas de 26 a 30 de Novembro 1973.

24 fevereiro 2016

Concha Pinhão in "Sabor Amargo Amargo Sabor"



Concha Pinhão, a poetisa, junto do marido, o médico Dr Pinhão, Delegado de Saúde, na época



Moçâmedes, a minha terra e suas suas gentes, foram fonte inspiradora de poetas que por ali passaram, ou que ali nasceram, e nos legaram poemas dignos de serem dados a conhecer ao mundo. tocados pelo sentimento e pelas emoções sentidas e vividas pela acutilância da mensagem que procuraram passar .

É o caso de Concha Pinhão que no seu livro "Sabor Amargo Amargo Sabor" nos mostra  toda exuberância de artista numa Angola que a fascinou quer pela sua majestática beleza quer pelas suas gentes com quem partilhou anos mais dourados  de sua vida.

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Concha Pinhão ( a meio da foto, de óculos escuros) participando num almoço de confraternização do pessoal da Casa de Saúde do Sindicato dos Empregados do Comércio e Industria de Moçâmedes,  juntamente com o marido, Dr Pinhão, Delegado de Saúde 
 


No seu livro "Sabor Amargo Amargo Sabor", a Concha mostra logo de início, toda a exuberância de artista para aquela Angola que a fascinou , quer pelas suas gentes com que partilhou os anos mais doirados da sua vida quer pela sua magestática beleza:


"Tem no corpo cheiro a manga
Braços longos de palmeira
Na boca gosto a pitanga
Saída da Pitangueira"


Seguem mais alguns dos seus poemas:


AQUELA ANGOLA

Aquela Angola Mulata!...
Aquela Angola Mestiça!...
Beleza que às vezes mata
E se não mata enfeitiça!...
"Sabor Amargo, Amargo Sabor"
de Concha Pinhão
Poesia Angolana


NAMIBE
Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.
E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.
Angola 1968


Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)


EMBONDEIRO

Irei amar-te,
Embondeiro
Meu tronco seco no teu,
Braços que vão pocurar
Outros que buscam o céu,
que nesse monte cimeiro
onde vives desolado,
Vou cobrir teu peito nu.
Com o meu cabelo enrolado!


Na solidão... eu e tu.


Estendo tuas raízes
A dar seiva a quem passa,
Agente que passa a rir,
Fingindo que são felizes
Num mundo todo a ruir.


Ao menino deserdado,
mais pobrinho,
mais sozinho,
Que brinca lá na lagoa,
Dou teu fruto aveludado
Para fazer uma canoa.


Dou o teu ventre fibroso,
A mendigo desditoso,
Por abigo em noite fria;
E as feras mansas, tremendo,
No medo sem companhia.


Nós vamos rindo embondeiro
Desse teu monte cimeiro,
De quem ri da solidão.
De ti, que não vales nada,
Nem dás tábua para caixão


Como é bom ser esse nada!...
Não dar tábua serrada,
Não ser madeira forrada,
A transportar podridão!...

....

Concha Pinhão foi a vencedora do 1º prémio dos Jogos florais das «x Festas do Mar» 1971, com o poema «Embondeiro»
 Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»)


Nota: fotos dispensadas pelo grupo Moçâmedes/Namibe
 No entanto, devo lembrar que pelo facto de estarem disponíveis online não significa que possam ser usadas sem o respeito pelas condições em foram licenciadas. Essa licença CC significa que qualquer pessoa as pode usar desde que: 1) refira claramente quem é o autor da foto; 2) O uso da foto não seja comercial; 3) A obra resultante seja partilhada nos mesmos termos desta licença.