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18 outubro 2010

O «dia de S. Vapor»: em Moçâmedes...



Até meados dos anos 1950, os navios ficavam fundeados, ao largo, na baía de Moçâmedes...





Até à inauguração do 1º troço das obras do cais comercial, em 14 de Maio de 1957, os navios que chegavam a Moçâmedes ficavam ancorados a meio da baía, e o transporte das pessoas e das mercadorias, da ponte para os navios e dos navios para a ponte, era efectuado através de "gasolinas" e de "batelões" ou em "escaleres motorizados". Mais para trás no tempo o transporte era efectuado em barcos à vela. Existem fotografias que conformam que no ano de 1938, quando da visita do Presidente Carmona a Moçâmedes ainda estávamos nos tempos dos barcos à vela. No entanto, em 1948, quando da peregrinação da imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda da Cova da Iria, por terras de África, já havia em Moçâmedes traineiras a motor. Foi aliás no pós guerra que foi possível  a Angola avançar com obras de fomento que se encontravam bloqueadas, uma vez que nem a colónia nem Portugal possuíam uma industria à altura nas necessidades, e as fábricas europeias fornecedoras do material necessário se encontravam ao serviço da guerra. O início das obras do cais acostável de Moçâmedes aconteceu em 24.06.1954, por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes, e a inauguração do 1º troço do cais comercial aconteceu em  24 de Maio de 1957, com a presença do Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo o então Governador Geral de Angola.


No título desta postagem fizemos referência ao «Dia de S. Vapôr»? Mas do que se tratava então?

Até pelo menos aos meados dos anos 1950, entre a população de Moçâmedes, cultivou-se o gosto pela visita aos navios de passageiros que escalavam a cidade, no decurso da suas viagens de Lisboa até Lourenço Marques, e vice-versa, passado pela cidade do Cabo, na África do Sul. A razão,  é que as deslocações a bordo não se reduziam apenas a recepções ou a despedidas a familiares e amigos, elas eram motivo de satisfação porque os navios traziam novidades, coisas bonitas e baratas que naquele tempo não se encontravam  à venda no reduzido número de lojas da cidade. Escusado será dizer que os grandes clientes desse mercado paralelo  eram as senhoras, por um lado, porque elas eram à época, na sua maior parte, donas de casa, e podiam mais facilmente dispôr do seu tempo, por outro, porque o sector feminino da população era o mais apegado a este tipo de coisas, sempre à espera das últimas novidades trazidas da Metrópole, da África do Sul e de outros lugares.

Os navios chegavam normalmente pela manhã e partiam ao fim do dia, deixando aos visitantes tempo suficiente para uma  ida a bordo.Como atrás referimos esta prática vinha acontecendo  desde os tempos em que não havia cais acostável, e os navios ficavam fundeados ao largo, sendo a deslocação de passageiros, funcionários e visitantes, assegurada por «gasolinas».

Fosse o navio Pátria, o Império, ou os mais recentes Uije, Príncípe Perfeito e Infante D. Henrique, fosse o velho Quanza ou o velhinho e pioneiro João Belo, fossem navios da CNN/Companhia Nacional de Navegação, (agenciada pela Duarte de Almeida, Lda.), ou da CCN/Companhia Colonial de Navegação, (agenciada pela Sotrage) ou ainda da CUF, (agenciada por Pereira Simões e Cª.Lda.), a verdade é que a possibilidade de se fazer compras nunca falhava, estas eram efectuadas em alguns pontos estratégicos dos  navios, geralmente nos camarotes do pessoal que trabalhava nos navios,  camareiros e camareiras, já conhecidos de longa data pelas  habituais clientes, que vendiam toda a variedade de artigos: peças de lingerie em nylon e renda,  roupas diversas, meias de vidro, camisas, gravatas, carteiras, malas de senhora, bonecas e perfumes de Las Palmas (Tabú, Maderas do Oriente e outros), bibelots do Oriente, fios de ouro, botões de punho, anéis, pulseiras, pregadeiras, colares, bebidas, charutos, tabaco, pastas de chocolate, caramelos, rebuçados, etc, etc, e até caixas de uvas de Metrópole e da África do Sul.  Era um vê se te avias, havendo ocasiões em que os ditos camarotes ficavam a abarrotar, fazendo-se fila no corredor a aguardar a vez.Na barbearia do navio e no bar, comprava-se tabaco, cigarrilhas, whisky escocês, balas para caça, óculos, pastas de chocolate e toda uma série de guloseimas, livros, revistas, e pouco mais.  E porque em Moçâmedes não havia piscinas (a única «piscina» era o tanque de água para regas que ficava no epicentro das Hortas da família Torres), alguns visitantes mais jovens, do sexo masculino, aproveitavam a  ocasião para  uns mergulhos na piscina do navio, e faziam-no,  é claro, ante o olhar condescendente do Comandante.

Mas havia um problema com que as visitantes-compradoras tinham  que se confrontar. Como passar a mercadoria, ante o olhar vigilante da Guarda-Fiscal que ficava à saida do portaló que dava acesso a uma estreita, longa  e íngreme escadaria, por onde  se descia para os «gasolinas» que levavam as visitantes de regresso à ponte, no regresso às suas casas?  A estratégia era mostrar descontração para que algum guarda-fiscal mais desconfiado, não desconfiasse... Geralmente as senhoras ao regressarem a casa iam um pouco mais cheinhas, uma vez que vestiam as roupas que compravam, sobre as roupas que vestiam...


O romântico Piquete da Guarda Fiscal de Moçâmedes, vendo-se ao fundo a entrada para o edifício da Alfândega, do lado de lá da Avenida


Este era o trajecto  que unia a Ponte ao Piquete da Guarda Fiscal, obrigatoriamente percorrido por passageiros, a pé, e por mercadorias levadas sobre vagonetas que deslizavam sobre carris de ferro...
Governador Ramada Curto e comitiva passando pelo Piquete no início do Século XX




A cidade era pequena, praticamente toda a gente se conhecia, osgua rda-fiscais sabiam bem distinguir aqueles que iam comprar perfumes, bibelots, bijiteria, etc, para si próprios,  daqueles que iam a bordo os navios comprar artigos para revenda, como balas para caça, etc.  Por isso, já em terra, o visitante, que ainda tinha que passar pelo romântico e bonito Piquete da Guarda Fiscal, podia estar sujeito à intervenção de "apalpadeiros" e  "apalpadeiras" em busca de eventual contrabando.

Porquê esta sede por compras a bordo?

A explicação para este fenómeno eram as carências do mercado moçamedense da época, que gerava por isso mesmo estes facilitismos, que se reduziam, bem vistas as coisas a inocentes compras, e a nada mais.

Como ficou atrás referido, no tempo em que os navios ficavam fundeados ao largo, na baía,  por não existir cais acostável, a deslocação de passageiros, dos funcionários e dos visitantes era assegurada por "gasolinas", um tipo de barco pequeno, movido a motor, com um bonito design, pintado de branco, com uma parte coberta com toldo, janelas e bancos corridos à volta, e outra parte ao ar livre, que permitia transportar cerca de 40 pessoas, sentadas e de pé, perante a cobrança de um bilhete. No início da década de 1950, eram proprietários dos gasolinas, Raúl de Sousa Jr. e  António Bauleth/José Pedro Bauleth (este gasolina havia sido adquirido  a Mário de Almeida, um familiar, e era o que possuia um design mais atraente). Neste "gasolina" era Orlando Gomes quem cobrava os bilhetes, e que, tal como José Pedro Bauleth, ajudava as senhoras e as crianças no embarque e no desembarque, dando-lhes a mão para que não caíssem à água, nesse vai vem entre os navios e a ponte.

Nos dias de mar encapelado, era problemático subir e descer as escadas dos navios, porque estas balançavam, e as pessoas tinham que se agarrar às cordas laterais para não caírem ao mar.  Já nas manhãs de cacimbo cerrado, em que nem a água se via,  para se chegar junto dos navios de carga e de passageiros a orientação era feita pelos toques das buzinas dos gasolinas e pelos apitos dos mesmos navios.  Quando as idas a bordo aconteciam no Verão,  a velha ponte de embarque e desembarque  ganhava movimento e animação, e quem por ali passasse podia ver jovens exibindo sinuosos mergulhos do alto do guindaste, para em seguida  irem a nado para a praia. Outros atiravam-se das escadarias da ponte e iam a nado até à praia da Capitania, essa mesma praia onde um dia um polémico capitão do porto resolveu abater a tiro a Boni-Bonita, uma inofenciva foca que se encontrava no tanque da  Avenida.




Esta foto representa uma familia de Moçâmedes, foi tirada a bordo do paquete "Império".


Não eram numeroso o número de residentes que ia de férias à Metrópole. A maior parte das familias de Moçâmedes, descendentes de algarvios, radicava-se na cidade, e nunca mais voltava à sua terra. isto pelo menos até meados do século XX.  Por isso, excepto aqueles que beneficiavam de Licença Graciosa por serem funcionários do Estado, bancários, e um ou outro residente mais desafogado financeiramente, ou um ou outro estudante deslocado para continuar seus estudos na Metróple, ou na África do Sul, não era muito comum, até meados da década de 1950, os moçamedenses viajarem para a Metrópole, de férias. Eram viagens muito dispendiosas a que a maioria da população, remediada, não tinha acesso.   A"Graciosa" era uma licença para férias na Metrópole  que se instalou entre os funcionários publicos dada a ideia de falta de salubridade nas colónias (Africa foi durante muito tempo considerada  um cemitério para os europeus e durante muito tempo foi problemático conseguir-se, na Metrópole, quem se dispusesse a  avançar para as terras de Africa). Assim, os funcionários públicos passaram a ter esse incentivo, trabalhando para o efeito mais 1 hora por dia que o funcionário metropolitano para que, ao fim de 5 anos, pudessem retemperar-se na Metrópole, e por África continuar. E porque não eram muito comuns, na época, essas deslocações, sempre que alguém saia, quando regressava, sobretudo entre os  homens contavam-se histórias  da vida nocturna em Lisboa, falava-se das prostitutas da Avenida da Liberdade, da polícia dos costumes que as levava  a enfiavam o braço no primeiro homem que aparecesse para que não fossem presas, etc etc. Havia miséria na Metrópole,  reduzida que estava a coutadas de umas quantas familias, enquanto as províncias Ultramarinas ate 1950 pouco progrediam.  Ainda em meados dos anos 1950, as gentes de Angola eram olhadas na Metrópole com certa curiosidade, como se fossem todos ricos, como se houvessem África uma árvore das patacas que bastava abanar para se enriquecer. Os baixos salários da classe trabalhadora na Metrópole, e a ideia de que as pessoas que vinham do Ultramar eram ricas, gerou uma exploração tal, que os recém desembarcados no cais da Rocha, em Lisboa,  para levantarem as suas bagagens, tinham que o fazer à custa de gorgetas e mais gorgetas aos carregadores, para além das exorbitantes taxas  de  desalfandegamento que tinham que pagar.

 


                      Na foto, algumas visitantes de um navio em "Dia de São Vapôr".  Da esq para a dt, reconhece-se:  Josefa do Ó. Faustino (de preto), Maria Dias Monteiro e duas  amigas de  Maria e respectivas crianças, vindas da vizinha Sá da Bandeira




O mais emblemático dos navios da frota da C.N.N. era o paquete "Príncipe Perfeito", ao serviço entre 1961 e 1976, concorrendo nas linhas de África com o "Infante D. Henrique" da C.C.N. DAQUI
  

A verdade é que para aqueles que tinham o privilégio de fazer estas viagens, que duravam regra geral cerca de 12 dias pelo mar fora, era como se estivessem a fazer um Cruzeiro, em que as férias começavam logo alí à saída da baía de Moçâmedes. Pelo menos para aqueles que viajavam em 1ª classe.

Estas são algumas das memórias daquele tempo, que foi o meu tempo de criança e de jovem adolescente,  nascida em Moçâmedes em 1940, em pleno periodo da 2ª Grande Guerra, pleno de privações para quem então vivesse nas colónias de África,  um período longo de quase estagnação, findo o qual a colónia começou finalmente  a despontar para uma nova fase, e para um novo estilo de vida, em que grande parte destas situações aqui descritas, deixaram de ter lugar e de fazer sentido.


(ass)MariaNJardim

Ver também: O piquete da Guarda Fiscal
                     Inauguração do cais acostável
 

08 setembro 2008

Gente de Moçâmedes junto do belo edifício dos CTT


















Um trecho dos jardins da Avenida da Praia do Bonfim, com o Edifício dos CTT, e um pouco atrás e à dt., o edifício dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes.

Esta foto foi tirada em finais da década de 50, numa altura em que o pelouro da Câmara Municipal de Moçâmedes dedicava de facto uma especial atenção e carinho à manutenção dos jardins da cidade, como se pode ver, cobertos que se encontravam das mais belas e coloridas flores que dava gosto ver
.















Fernando de Freitas e Lena Freitas, junto das arcadas do belo edifício dos CTT de Moçâmedes.














Aqui estou eu com os meus 16 anos nos belos jardins da Avenida da Praia do Bonfim em Moçâmedes, a cidade onde nasci, o meu berço natal. À esq., o belo edifício dos CTT que eu vi construir, e ao fundo e dt., o velho campo de futebol de terra batida, onde os moçamedenses assistiram a tantos jogos e treinos de futebol, cujas fotos podem ser vistas clicando e pesquisando AQUI

A seguir, algumas passagens das memórias de alguém que viveu em Moçâmedes e que as colocou no Blog da Comunidade Judaica:

Moçâmedes, meu amor
Andre-Moshe Pereira

Esta chuva de ti/
deixa cair pedaços de tempo/
pedaços de infinito/ pedaços de nós mesmos//
é por isso que estamos/
sem casa nem memória?/ juntos no pensar/
como corpos ao Sol?

Juan Gelman, Dibaxu, XXV, p. 69

A seguir, partes de um texto que encontrei in Blog da Comunidade Judaica Portuguesa

...«Durante vinte e cinco anos estive calado e não falei de ti; estiveste dentro de mim escondida cidade linda, com os casuarineiros, a praia das conchas, a praia azul e o deserto infinito. E esse deserto que infinitamente redobra o poder de Hashem, bendito seja.

A mente tem disto. Vou tecendo comentários relativos a um tema só meu, mas ainda assim colectivo, dum grupo de vivências irreversível e de relativo interesse público, e esse interesse raramente tem a ver com a curiosidade como diz Niceto Blásquez mas apenas coma nostalgia. De repente invade-nos a infância através das imagens e das vozes. Do canto do patrício angolano Bonga. A história que o tempo levou do Zé Kilengue. É o homem do saco, o homem sem cabeça. Um bicho-homem que não dá para espantar. E do homem anódino que nos atirava pedras quando cruzávamos os dedos indicador e médio sobre a outra mão e sobre os mesmos dedos figurando a s grades da cadeia e lhos mostrávamos.

A praia dos arcos e a baía e os amigos perdidos para sempre. E escola 56 onde formei uma parte da minha educação já serôdia embora muito jovem, além das aulas particulares numa explicadora do diabo. Que me batia quando errava. E assim fui errando muito sem saber como acertar. Porque me batia quando errava e depois por não ter acertado à primeira. E a seguir se preparava para arrimar a palmatória aos erros sequenciais. Hoje, quando leio as Conjecturas e Refutações de Karl R. Popper vejo como a teoria do teste e erro pode em alguns casos ser quase fatal, apesar de científica e com a projecção que o tempo dá sobre estes acidentes.
(...)
Moçâmedes da minha burra, da minha bicicleta que até hoje abandonei como se me afastasse do único veículo que soubera conduzir como vejo os miúdos-homens hoje a conduzirem as suas máquinas de luxo quais Maseratti e Chrysler e Ferrari para chegarem onde eu chegava: porque tudo era perto nesse Paraíso da Welwitchia mirabilis. E do morro maluco a caminho de Sá da Bandeira – Lubango, que ora aparecia de um lado e logo pelas circunvoluções da inóspita estrada do outro lado e do nada surgiam ao longo da estrada as tribos mucubais em estado de quase nudez total, como o ambiente em volta onde desfilava um comboio do minério de Cassinga com centenas de composições. Parecia um mostrengo pré-histórico. E ao seu entorno uma vegetação savanal e umas rochas com forma antrópica, em delineamentos que ora pareciam cetáceos pedidos duma era antiquíssima do terciário ora se viam inscritos em algumas grutas os restos de ossatura de peixes quando o mar tudo envolvia no começo do Mundo como enuncia o Bereshit (Génesis) da nossa sagrada Torah! Um facto importante irrecusável que oferece a terra, são os despojos fósseis de animais e vegetais, dentro das diferentes camadas, até nas mais duras pedras. A existência de tais seres é anterior a formação das aludidas pedras. Entre os despojos de vegetais e animais, alguns mostram-se penetrados de matérias calcárias que os transformaram em pedras, alguns apresentam a dureza do mármore. São as petrificações propriamente ditas. São não raro, esqueletos completos.

As caínes e num mesmo palco as raparigas negras aborígenes e lindas com as suas trancinhas filigrânicas a ostentarem o louvor duma natureza matricial por revelar.

Por vezes recordo o rumor das ondas quando à noite parava junto à baía em dia de nevoeiro. Uma névoa fresca em dias sempre quentes. Como o suco das múcuas e as mãos estendidas ao céu dos imbondeiros gigantescos, ferozes na ânsia de se fazerem notar no interím duma força majestosa da natura naturata ao modo espinozano face ao firmamento sempre azul.

Moçâmedes, praia das miragens, saco do Giraul, Torre do Tombo, o elefantezinho ainda sem dentes meu amigo confidente das horas da angústia infantil, Caitô, o elefante do parque. O jardim infantil; o coração a batucar e o assobio malandro. O cutucar das cascas de nozes no oceano, na baía; as baronas nossas donas ainda por nascer; de repente sou assim um estranho de mim e a paixão insufla de sangue o meu peito e a emoção constrange-me as palavras. E os antílopes ao lado (na imaginação) e as palancas miríficas e as miragens das estradas de produção humana, inacabáveis. E essas flores impossíveis que luzem com cor púrpura a partir dos cactos suculentos dum deserto que é prolongamento do Kalahaari. Os planaltos a norte a partir do Namibe e na Huíla com a obra colossal da autoria do engenheiro Edgar Cardoso que concebeu o percurso da extraordinária estrada projectada no serpentear duma altitude colossal e que nos leva, através da imponente serra da Leba, da cidade do Lubango até ao deserto do Kalahaari, Moçâmedes e ao mar. Dentre a mistura de areia e água surgem centenas de espécies que florescem em conjunto com leões, elefantes, hienas, mabecos, búfalos, hipopótamos e crocodilos. Uma grande variedade de pequenos animais que podem também ser encontrados como o lobo-do-mar o ganso selvagem, o macaco de muitos tipos de antílopes, ali e além.
(...)

Em termos gerais como diz um economista da nossa praça: na realidade, existe em Portugal um conhecimento sobre África, ao menos no domínio das ciências agronómicas, que teria sido precioso para o desenvolvimento pós-colonial, se este tivesse sido possível em Angola, Moçambique ou Guiné Bissau, o que infelizmente não foi, até à data. (...) »
Texto completo in Blog da Comunidade Judaica Portuguesa

29 maio 2008

Gente de Moçâmedes nos jardins da Avenida da Praia do Bonfim (década de 50)



Nos jardins da Avenida da Praia do Bonfim, em Moçâmedes. Da esquerda para a dt. ?. 
Marizete Romão Veiga, Gina e  Mª Helena Gomes. 1955


Precisamente no mesmo local da foto anterio, o meu irmão Amilcar, em 1956. Repare-se no pormenor da fachada alterada do edifício que fica ao fundo. Ficava alí na época os Armazéns do Minho, loja de modas de que era proprietário Gouveia da Cunha. Mais  tarde  passou   estar  ali a  agência do Banco Pinto e Souto Mayor. Na década de 60 começaram a surgir os Bancos comerciais que retiraram o monopólio ao Banco de Angola.
 
  Trecho da zona  dos jardins da Avenida da Praia do Bonfim onde fica o tanque da água que veio substituir o velho e tradicional Coreto mandado demolir pela Câmara Municipal. Interrogo-me se ao destruir-se o velho e tradicional Coreto não se destruiu parte da História da cidade,  intimamente ligada aos seus primórdios,  para dar  à Avenida um ar mais moderno?. Que o diga a velha Inglaterra que graças à conservação da sua História em termos arquitectónicos, é  hoje considerada uma preciosidade para o turismo mundial. Há que tomar consciência disso!



A mesma zona da foto anterio., onde se pode ver à esq. o prédio de 1º andar de traça portuguesa onde até meados da década de 1960 funcionou o Banco de Angola. À dt. o prédio térreo, tembém de traça portuguesa, actualmente em ruinas,  onde ficada a empresa Duarte d' Almeida que representava a Compª Nacional de Navegação. A Rua perpendicular à Avenida, tinha o nome de Rª Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro e terminava na Rua da Fábrica. Sempre me fez confusão sobre qual o critério que teria levado as autoridades da época a darem o nome do chefe da 1ª colónia e fundador de Moçâmedes a um rua de somenos importância como esta, na qual podemos vislumbrar, convergindo para a Rª dos Pescadores,  à esq., a  Casa das Noivas, a Ouriversaria Moreira, e mais adiante, já de esquina, a TAP, e à dt. À dt. o edificio dois andares de João Duarte para onde se mudou o Banco de Angola, etc . Apraz registar aqui que ainda hoje as autoridades da cidade do Namibe mantêm o 4 de Agosto como o dia da fundação de Moçâmedes e continuam com a tradição das Festas do Mar.
  
Meninos e meninas de Moçâmedes, talvez regressadas da Praia das Miragens que ficava ali mesmo ali ao lado, posam junto a um dos tanque de água da Avenida da Praia do Bonfim, situado próximo do edifício dos CTT


Euzinha na plenitude da mina adolescência, nos Jardins da Avenida da Praia do Bonfim, em Moçâmedes. Trata-se da mesma zona da fo anterior junto do  edifício dos Correios. Na foto , por detrás do tanque de água, podemeos ver o prédio de 1º andar que outrora foi propriedade de Brian Bento. Estava-se em 1955, numa época em que ainda não existiam nesta Avenida as inúmeras palmeiras que que vieram ocupar o lugar de outras árvores, tais como oliveiras, acácias, etc




Não vem a respeito, mas como hoje encontrei na Net este belo, triste, e satírico poema, dedicado à cidade do Namibe, com o qual não me identifico plenamente, vou colocá-lo aqui.






NAMIBE

Cidade pequena
de gente que vai, de gente que fica ,
de gente que vem .

NAMIBE
deserto
tem pedra bonita , planta famosa ,
tem cabra de leque e triste muceque .

E tem...
pescador lutando ,
em barco de bimba ,
subindo , descendo ,
remando ,
morrendo no mar.

E tem...
loja cheiinha
de coisa bonita ,
gente comprando ,
vendendo , trocando ,
roubando ...

que fala , critica ,
gosta não gosta ,
da MISS bonita .

E tem...
igreja vazia ,
de portas abertas ,
igreja refúgio de mulher sozinha
que vive chorando a morte do filho,
que um dia ,
coitado ,
foi morto no mato .

Cidade tem gente ,
gente com santa ,
SANTA qu ' IRRITA ,
que deixa viver
miúdo no chão ,
dormindo à chuva
e chorando por pão .

E tem...

Turismo café
que serve jantar .
Cidade não tem mais nada que ver ,
Cidade não tem mais nada que dar .
Mas tem !

E tem...

Carro que anda
depressa de mais,
apanha miúdo,
miúdo gozão ,
que sai da escola
levando sacola ,
cai no asfalto ,
d' olhos abertos ,
bata rasgada ,
rosto sangrando ,
e livro na mão !


Sérgio de Oliveira
1973
.................
Nota: Será que este poema foi mesmo escrito em 1973?

Jovens de Moçâmedes dourando ao sol da Praia das Miragens



A Praia das Miragens,  as pessoas, as arcadas e o Casino  numa manhã de domingo algures num verão nos anos 1960
 
Praia das Miragens... alguém resolveu um dia dar o nome a esta praia, inspirando-se para nas miragens características do Deserto do Namibe... Nada mais natural!  Esta praia, verdadeiro "ex-libris" da cidade, ficou para sempre ligada à vida de quantas crianças, adolescentes e adultos nasceram, cresceram e viveram em Moçâmedes. De fácil acesso (mesmo junto do centro), para os mais afastados moradores bastava andar uns quantos quarteirões, atravessar o vasto do jardim da Avenida da Praia do Bonfim (anterior Av^ª da República) e as antigas instalações dos bombeiros, perto do coreto, onde mais tarde foi construída a fonte luminosa, para entrar numa rua que terminava na praia, tendo do seu lado direito um aglomerado de casuarinas que, no tempo quente, ofereciam uma agradável sombra e do esquerdo o Clube Náutico (Casino), onde alguns "maduros" do pequeno burgo se dedicavam à "batota".

Outro trajecto era através da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes, contornando um armazém onde se depositavam as mercadorias que chegavam e partiam de e para os mais variados destinos, atravessando uma espécie de portão para se alcançar outro lado, passando com todo o cuidado e atenção por sobre as linhas do caminho de ferro, ao lado de locomotivas, carruagens, etc, não fosse o diabo tecê-las e acontecer algum atropelamento.




Jovens de Moçâmedes dourando descontraidamente ao sol da Praia das Miragens. Da esq. para a dt, na 1ª foto  junto às arcadas: Vina Almeida, Teresa Ferreira, Tó Zé e João Thomás da Fonseca. Ao fundo podemos ver, para além das arcadas da praia, as cazuarinas e o Clube Nautico (vulgo Casino)
 


Nesta foto, os moçamedenses Vina, Lula e Vanda Ferreira. Ao fundo, a velha ponte.


Nesse tempo eram comuns os toldos coloridos individuais, bastante fechados onde se podia trocar facilmente de indumentária sem o perigo dos "mirones", para além, é claro, de outros, mais simples que se reduziam a um rectangulo de lona, geralmente de riscas azuis escuras e brancas, preso por grossos fios a duas traves de madeira enterradas na areia para as suportar. Mais tarde vieram as enormes e coloridas sombrinhas de abrir e fechar. 

Por baixo dos toldos reuniam-se adultos e crianças, meninas que jogavam ao "prego" com uma habilidade fora de comum, senhoras que faziam croché e, conversando umas com as outras, iam pondo a conversa em dia, gente que lia ou que simplesmente observava o ambiente à sua volta, não perdendo "pitada" do que se estava a passar, fosse em terra fosse no mar... A correr pela praia era comum nos anos 1950 verem-se rapazinhos segurando "papagaios" e "joeiras" dos mais variados tamanhos, feitos em casa com tiras de bordão e papel de seda das mais variadas cores, que exibiam um longo "rabo" composto de pequenas tiras de pano amarradas umas às outras. "Papagaios" e "joeiras" que subiam e desciam, davam voltas e piruetas lá em cima, no ar, tudo dependendo da habilidade do manipulador.

Escusado será dizer que era na areia, à torreira do sol, que a malta mais nova gostava de ficar... e o mais perto possível da água... Era de facto um local de grande sociabilidade a Praia das Miragens de Moçâmedes, ponto de encontro nas manhãs de sábado e domingo de grande parte da população que para alí ia descarregar as energias acumuladas no viver quotidiano, fosse nas actividades escolares, fosse no trabalho.

A Praia das Miragens, naturalmente frequentada na sua maioria por moçamedenses, recebia no verão a visita de muitos habitantes do Lubango e de outras terras do planalto, mais propriamente da vizinha Sá-da-Bandeira (Lubango) e Vila Arriaga (Bibala). Era a praia mais próxima que por vezes era também frequentada por toninhas, parentes dos golfinhos, animais marinhos extremamente sociais que faziam o encanto mas também o temor de quantos de mais longe ou de mais perto os observavam. 

A jangada (um estrado quadrado, de uns 3 x 3 m, que flutuava graças a tambores de ferro vazios, presos à sua parte inferior, que eram periodicamente substituídos) era o grande atractivo da rapaziada. Espécie de baliza para pequenas corridas de natação, local de exibicionismos para quantos jovens dali mergulhavam  para o mar. Mas também era na jangada, ou junto dela, sobretudo na parte traseira, a mais escondida e protegida dos olhares curiosos, que muitos namoricos acontecerem, que muitos encontros se  deram, que muitas carícias se trocaram, nesse tempo em que as raparigas eram persistentemente vigiadas e que o mais leve deslize punha em causa a sua reputação...

Finalmente resta referir o quanto esta praia e esta bela e singular cidade onde tive o previlégio de nascer, filha de pais já ali nascidos, de crescer, casar, ter filhos... e que nais parece uma estância balnear,  tem sido objecto de inspiração poética na pena de alguns admiradores:

Ai MOÇÂMEDES

Moçâmedes quer dizer infância plena 
Tempo de férias que não tem idade
Amigos de sorriso em pele morena
Alegria salgada na igualdade

Azul de mar ouro quente de areia
Toninhas assustando alegremente
Calema sai do mar à minha mente
Deserto a prender-me em sua teia

Deserto nunca só; tão habitado!
O vento morno conversa pela noite
Prolonga o tempo num gesto apaixonado

Sabor de manga nas bocas salgadas
Se bate lua no mar há quem se afoite
Ninguém no paraíso teme as vagas

(Jovita Carolina *Março2006)