Curioso nestas fotos é a forte componente de elementos femininos que entre finais da década de 1940 e o início dos anos 1950 prestavam voluntária e gratuitamente a sua colaboração ao Rádio Clube de Moçâmedes, incluso em "programas de variedades" que eram lançados para o ar. Eram jovens senhoras cheias de vivacidade, iniciativa e vontade de participar em eventos sociais, que colaboraram em organizações festivas, programas de rádio, em grupos cristãos de juventude (JIC- Juventude Independente Católica), etc., etc... Uma geração feminina diferente das anteriores, que já não se conformava apenas com o papel único da mulher durante séculos, inteiramente dedicada ao lar à família, à educação dos filhos, como foi o das nossas mães e das nossas avós.
Por esta altura muito paulatinamente o mercado do trabalho estava se abrindo às mulheres, pois o acesso da mulher a esse mundo esteve desde sempre dependente da evolução lenta das actividades económicas do nosso pequeno burgo, que só ganharia mais vigôr a partir dos anos 1960, quando foi feito um grande esforço de recuperação económica em Angola, para o que muito contribuiu o surgimento da Banca privada. De início não foram muitas que ingressaram no mundo do trabalho remunerador. Ainda no início da década de 1950 o Banco de Angola rnão aceitava mulheres nos seus quadros de pessoal. De início eram as profissões que se consideravam mais adequadas a elas: enfermeiras, professoras, uma ou outra funcionária pública, e pouco mais. Até finais da década de 1940 contavam-se pelos dedos as senhoras de Moçâmedes que exerciam uma função remunerada fora das paredes do lar.
Esta geração feminina representou um modelo de referência para as raparigas da minha geração, a geração que veio a seguir. Era criança mas recordo o papel por elas desempenhado por ocasião do Centenário da cidade de Moçâmedes em 1949. Foram elas que, juntando-se em grupos, confeccionaram flores de papel e outros enfeites destinados à decoração de barracas e de pavilhões que foram erguidos por todo o lado, no vasto jardim da Avenida da República. Foram elas que, não se poupando a esforços fizeram bolos em suas casas, prepararam chás e cafés, que levaram para serem ali vendidos, ajudando, com a sua colaboração a dar mais brilho ao Centenário. Elas participaram em actividades ligadas à venda de rifas de toda uma sorte de objectos, organizaram quermesses, sorteios, estiveram por detrás de tômbolas,
roletas, serviços de bar, etc., e tudo isso graciosamente

Na famosa casa "Santa Filomena" onde a veneranda senhora, a professora primária D Aline, ensinava o catecismo, eram muitas as jovens senhoras e senhoritas catequistas, como se pode ver por esta foto e pelas duas que seguem onde se encontram na metade superior da foto, junto das educandas.
De baixo para cima: 1ª fila. ? M Pacheco I, Mª Inácio Tavares, Elga Weishmaster, Amélia Brás de Sousa, Manuela e Mimi Carvalho, M.PachecoII, Mitsi Aboim e ? 2 ª fila. ?,?,?, Zézinha Grade, ?,?, Fernanda Braz de Sousa, Fernandina Peyroteu, ?, Antonieta Bagarrão (Dédé), ? e Zélia Calão. 3ª fila. Gabriela Figueira Fernandes, Calila, ?, Constantina, Carolina Mangericão, Maria Augusta Esteves, ?,?,?,?, e Susete Freitas. 4ª fila.
?;?;?; Lena Freitas, Fernanda Pólvora Dias,?, Fátima Cunha, Lizete
Ferreira, Celeste Matos, ?,?,Gabriela Miranda,?, ?, Madalena Trindade;
Melanie Sacramento, ?, e
Odete Maló. 5ª fila. ????, Osvalda Sacramento, Júlia Jardim, ????
6 ªfila.?,?,Hélia Paulo, Lucia Gavino, ?, Lucia Reis,?,?,?. Data: 1949

Idêntico grupo de alunas e de catequistas do Colégio de Nossa Senhora de Fátima, junto da "Casa Santa Filomena". 1949. Fotos de Antonieta Bagarrão
Clicar sobre a foto que é enorme
Grupo de alunas, mães, senhoras da JIC e da Liga Católica Feminina,
catequistas, e irmãs do Colégio de Nossa Senhora de Fátima, junto da nesma "Casa Santa Filomena" com D. Aline . Data: 1953. Cedida por Néné Trindade
Esta foto mostra-nos um grupo de jovens senhoras de Moçâmedes, em 04 de Agosto 1949, colaboradoras das festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes, junto de um dos vários pavilhões representativos da cultura dos povos, o pavilhão chinês, trajadas de acordo, com coloridos quimonos em seda importados do oriente, leques, flores e pauzinhos espetados no cabelo. Da esq. para a dt: Zuleica (cabeleireira), Julinha Pestana, Jovita Carvalho (Grade), Dina Ascenso e Maria Lizete Ferreira.
Cedida por uma amiga de Moçàmedes
Esta foto, tirada junto do pavilhão-bar, representa um grupo de colaboradoras de vários pavilhões. Foram elas, da esq. para a dt: Julinha Pestana (China), Alice Castro (fantasia/fada), Orbela Guedes (Holanda), Manuela Bajouca (fantasia/fada), Fátima Cunha (Holanda), ?, Zuleika (China), Celeste/Carracinha (fantasia/aero-moça), Lizete Ferreira (China), Néné Oliveira (fantasia/aero-moça), Etelvina Ferreira (Holanda), Rute Gomes (fantasia/aero-moça), Maria Helena Ramos (Holanda), Teresa Ressurreição (fantasia/fada), Maria Parreira (fantasia/aero-moça), ?. Cedida por uma amiga de Moçàmede
No pavilhão do ar, da esq. para a dt:
?, Ludovina Leitão, Maria Eugénia Alves de Oliveira, Celeste Gouveia
(Carracinha), Ruth Gomes e Maria Parreira. Cedida por uma amiga de Moçàmedes
O carro alegórico representativo da «Tentativa Feliz», numa evocação da barca brasileira transportando um grupo de senhoras que colaboraram nas festividades do Centenário. Da esq. para a dt.: ?, Ludovina Leitão, ?, Salomé Inácio, ?, Noelma, Cilinha, Lúcia Gavino e Arminda Alves de Oliveira..Cedida por uma amiga de Moçàmedes
Teresa Ressureição, Alice Castro, Lucia Brazão e Salomé Inácio
Maria Teresa da Ressureição (à esq.) oferecia às gentes da cidade, o seu talento de poetisa. Ela ela quem escrevia as músicas das marchas da cidade, e não só, músicas que andavam na boca de toda a gente, muitas das quais ainda guardo na memória, como a Marcha do Centenário de Moçâmedes Ei-la:
Marcha do Centenário de Moçâmedes (1949)
I
Assim toda engalanada
Digo orgulhosa ao mar
Olha para mim
Como vou bela ao passar
II
Quero viver minha festa
Quero rir, quero folgar
O Mar imponente
Grita a toda a gente
Vai Moçâmedes a passar
III
Sou há um século nascida
Velhice inda não senti
Tive horas de glória
Enchi minha história
De rosas que então teci
IV
As minhas lindas Miragens
Todos vão admirar
Sorrindo ao céu
Sinto o mundo meu
Quando ouço assim cantar
REFRÃO
Num areal doirado
Pelo sol beijado
Há já cem anos nasceu
Moçâmedes gentil
Bela e juvenil
Pertinho do mar cresceu Hoje, embandeirada
Princesa encantada
Do Namibe o seu senhor
Sente mar confiante
Dizer radiante
Ai que linda vais amor.
(autoria : Teresa Ressurreição)
Fica aqui a minha vénia às senhoras desta geração, pois penso mesmo que elas foram muito mais activas e participativas socialmente que as que se seguiram, as da minha geração, cuja participação maior foi a efectuada através da modalidade de basquetebol feminino.
MariaNJardim
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