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08 fevereiro 2010

Baile de Carnaval em Moçâmedes, abrilhantado pelo conjunto musical «Os Diabos do Ritmo»












Nada melhor do que a aproximação da quadra carnavalesca para colocar aqui  algumas fotos que  nos façam recordar os  bailes de Carnaval  como eram festejados  em Moçâmedes, nas últimas décadas da colonização portuguesa, nestes casos, nos anos 1954 e 1955.


Na 1ª foto estávamos em 1955, no  salão do Atlético Clube de Moçâmedes, na Rua Governador Calheiros. Acabavam de ser coroados o Rei e a Rainha do baile de Carnaval,  geralmente escolhidos entre os mais divertidos da festa. Um baile de Carnaval na década de 1950,  em Moçâmedes, fosse efectuado no salão de festas do Atlético ou do Clube Nautico (Casino), desde que abrilhantado pelo famoso conjunto musical «Os Diabos do Ritmo», era sempre uma festa animada que se prolongava até ao amanhercer, porque ninguém arredava pé, tivessem a idade que tivessem. Sim, porque nesta altura, nada de sociabilidades separadas, todos se divertiam em conjunto, pais, filhos, tios e primos, e até avós. E quando alvorecia o dia, era comum os mais jovens sairem do baile directamente para uns refrescantes mergulhos na Praia das Miragens.


Vivia-se  uma década  imediatamente anterior à do surgimento das discotecas, em que as várias gerações  ainda  se divertiam em conjunto, até porque as filhas casadoiras eram  resguardadas  e participavam destes eventos socias sob a alçada das mães e de familares, ou então de amigas de mais idade.  Era no entanto já uma época de transição para um outro tipo de mentalidade, mais solta e mais leve para as raparigas, que se divisava no horizonte. Afinal, e embora estivéssemos a viver naquele cantinho longínquo de África,  nao deixavamos de ser influenciados pelos ventos de mudança que sopravam do Ocidente....


Falemos, pois, um pouco mais, deste tempo de transicao, em que não obstante  dançar-se  ainda, e  muito, os classicos tangos e  valsas (como  «Comparcita», «Caminito», Danubio Azul, Valsa dos Patinadores, etc.) já  tinham entrado em cena entre nos o rock-and-roll e o twist, ainda  que nos Carnavais predominassem as marchinhas brasileiras, os baioes, os passodobles, as rumbas, etc. etc. Desse tempo em que a Comparcita de Carlos Gardel, era o tango eleito pelos jovens enamorados, pela proximidade física, por instantes tolerada que proporcionava. Desse tempo  em que os bailes eram de lotação esgotada, que as mesas em volta dos salões  do Atlético e do Clube Náutico não chegavam para todos, e só as raparigas e os casais mais idosos ficavam sentados, ficando os adultos jovens de pé junto ao átrio de entrada. Enfim, todo um ambiente de animação que deve ser visto na óptica de uma cidade, não de gente fútil, à qual o dia a dia não pesa -como alguma literatura mal intencionada por aí costuma proclamar quando refere o tempo colonial, escrita por quem não sabe, provavelmente com intenções dúbias -,  mas de gente pacata, trabalhadora e ordeira.

   
Quanto às fotos expostas:


Na 1ª foto podemos ver o momento da eleição dos reis de Carnaval desse ano, Maria Júlia Maló de Abreu (Pitula) e ????. A entrevistá-los, a grande figura da rádio, chefe de produção do Rádio Clube de Moçâmedes, Carlos Moutinho. À esq., Lalai Jardim,  Oliveira (Maboque), e à dt., por detrás de Pitula, Silvestre, seguindo-se Arnaldo Matos (Quinito), Renato Velin, Mário de Sousa. e um pouco mais abaixo, Simão.


Na 2ª foto, tirada num baile de Carnaval, em 1954,  decorrido no salão do Clube Nautico (Casino),  podemos ver entre outros, da esq. para a dt, em primeiro plano, Rui Bauleth de Almeida e Octávia de Matos, Nídia (eu) e Arménio Jardim, Antunes Salvador e Justina Salvador. Mais atrás, Monteiro, Cristão (Quitólas), e mais ao fundo, Artur Homem da Trindade.


Antunes Salvador (no canto dt., de óculos), era o fotógrafo radicado há mais tempo na cidade de Moçâmedes, que, por via disso, acabaria por guardar e trazer consigo para Portugal, todo o seu arquivo fotográfico que tem sido uma mais valia para todos nós, uma vez que muitas dessas fotos têm vindo a ser publicadas em livro, pelo seu neto, não deixando deste modo, morrer memórias que são património de todos nós, angolanos e portugueses. Acresce ainda que a maioria de nós, nem sequer trouxe consigo, de África, essas gratas recordações que de outro modo perder-se-iam para sempre. O objectivo deste blog é também esse, o de proporcionar a muitos moçamedenses a recuperação de fotos por desde o início nos vêm sendo cedidas.


Fica mais esta recordação.
MariaNJardim
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SAUDADES DE UM VALDEVINOS


Oh que saudade, Deus meu, que saudade
da minha juventude e dos amores que vivi,
que me abalam o coração se ainda penso em ti,
e em todas que amei. Deus meu, que saudade...

Que saudade dessa vida plena, alegre, e divertida,
dos Diabos do Rítmo, das serenatas, e churrascadas
em noites de luar... das capoeiras todas depenadas.
Ai que saudade, Deus meu, que belos tempos da vida...

Tempos, sem doenças, nem dores, que já vão longe,
entre parentes e malta amiga, louca e desavergonhada,
que nas ruas da Cidade mostrava uma alegria danada...

Tempos de férias de verão, sem Liceu nem Maconge,
só de suspiros e cantos d'amor até ao clarear da madrugada,
ao acordar na Praia com o calor do Sol e a pele queimada ...

NECO (Mangericão)

19.05.2009

05 fevereiro 2010

Regata de traineiras em Porto Alexandre (actual Tombwa) por ocasião da visita do Governador de Angola, Santos e Castro ao distrito de Moçâmedes, em 1972






 1ª. Espectacular  foto   retirada da Revista   «Notícias»/Angola/1972, representando uma regata de traineiras ocorrida na baía de Porto Alexandre (actual Tombwa), por ocasião da visita do Governador de Angola, Santos e Castro. 

2ª. O momento da chegada a terra, após as regatas na foto anterior.

Longe ia o tempo em que se chegara a duvidar da possibilidade da existência de Porto Alexandre , a «Angra das Aldeias» como fora primeiramente baptizada por mareantes portugueses que ali desembarcaram no ano de 1485, pois não fazia sentido construir algo que fosse, numa terra fustigada constantemente por ventos fortes que soparavam do deserto para o mar, e sobre uma areia que o deserto constantemente revolvia e ameaçava cobrir as habitações. 

Foi a partir da plantação em série de casuarinas (tipo de pinheiro bravo ligeiramente diferente do existente em Portugal), destinada a travar o movimento das dunas, que Porto Alexandre começou a ser possível. Uma odisseia que ficou a dever-se à teimosia heroica de um punhado de olhanenses que alí se fixaram com carácter permanente e alí desenvolveram a indústria de pesca e derivados de peixe. Em seguida criaram-se as hortas nas margens do rio Curoca, (zona do Pinda), e os alexandrenses passaram a colher saborosos melões, figos e até uvas, que passaram a constituir a boa mesa, para além do bom peixe e das saborosas ameijoas...

Porto Alexandre no início da década de 70 era já uma uma cidadezinha próspera exibindo algumas rasgadas avenidas, com elegantes vivendas e jardins, e chegou a ser nos anos 60 o maior centro piscatório da África, com dezenas de fábricas de farinhas e óleos de peixe e um grande centro conserveiro.

Com a modernização das instalações fabris, até as moscas que durante muito tempo  enxamearam as eiras de secagem ao sol da farinha de peixe e invadiam as habitações, acabaram por desaparecer. Sem dúvida, se Porto Alexandre foi possível, tudo é possível, desde que o homem queira e a natureza ajude!

17 janeiro 2010

Moçamedenses posam para a posteridade em dia de casamento ...






















Não tenho por norma colocar fotos de casamentos neste blog, mas que me perdoe a família Maria Inácio, uma das mais antigas e reconhecidas famílias de Moçâmedes, pois não  resisti em colocar aqui esta foto do casamento do Armando Maria Inácio e da Eliza Pinto Miranda, retirada de Sanzalangola (fio de Lay Silva: que me perdoe também),  porque não só se tratam de pessoas conhecidas, como de elementos de uma geração, hoje septuagenária, que em Moçâmedes marcou uma época: os anos 50. Refiro-me também ao grupo  «Os Tragateiros»  aqui  bastante bem representado:

De cima para baixo e da esq. para a dt.:
1. Os noivos Eliza Pinto Miranda e Armando Maria Inácio, tendo à sua esq. Carlos Guerra (Calita), e por detrás duas senhoras cujos nomes não consigo recordar ( D. Eugénia (Néné) Oliveira, casada com Tolentino Alves de Oliveira?).
2. Raúl Guedes, Fernando Miranda, Andrade, ? e Carlos Diogo.
3. Alexandrino Silva, Abreu, Frederico Costa e  Hélder de Matos Alves Roberto (mais conhecido por Hélder Cabordé).

Famílias de Moçâmedes


 

As minhas primas e amigas Antonieta Almeida Bagarrão (Dédé), Ildete Almeida Bagarrão e Luisa Almeida Bagarrão, enquanto ainda meninas nos tempos em que se usavam grandes laços no cabelo. Foto tirada por volta de 1949, em Moçâmedes.
 

Nesta foto de colegiais em Moçâmedes a Antonieta Almeida Bagarrão (Dédé) é a que está embaixo, precisamente no meio

Na segunda foto, já casadas e com os respectivos maridos.
Da esq. para a dt.: Ildete e Mário Augusto da Silva Lopes, Luísa e Pedro Rolão (casamento), Antonieta e Carlos Manuel Guedes Lisboa  (Lolita). Década de 1960, em Moçâmedes
 
A Antonieta (Dédé) e marido,  Carlos Manuel Guedes Lisboa  (Lolita), familiares e amigos
 O pai, Anibal Martins Bagarrão e um leão no Deserto do Namibe.
Aníbal percorria e conhecia o Deserto do Namibe como poucos, guiando o seu «Ford de pontapé»,  ou mais recentemente o jeep «Land Rover» da «Projeque», devidamente preparado por ele para as caçadas, com tanques de água, suportes em verguinha de ferro para arrumar a tenda , caixas debaixo dos assentos para acondicionar a carne a coberto dos olhares dos fiscais.  Era um exímio atirador, podendo-se dizer, como nos filmes americanos do «far west», que onde punha o olho, punha a bala. Mas previdente como todos os homens do mar, o  rancho preparado só para ele pela D. Lóló para a caçada de fim de semana, era tão profuso que dava seguramente para alimentar a população inteira de Liechenstein, durante igual período de tempo.
 Anibal Martins Bagarrão adorava o deserto do Namibe
Anibal enquanto em Moçâmedes com a profissão de mecânico  trabalhou  na pescaria de João Thomás da Fonseca, no Mucuio, na fábrica de conservas de peixe da firma Pestana & Costa Lda, mais tarde na Praia Amélia para Venâncio Guimarães. Era um grande profissional e um homem bem disposto e adorável. Nasceu no dia 30 de Maio de 1911, em Olhão (Algarve), um ano após a implantação da República Portuguesa.  Era filho de Maria Inácia Libório, natural de Albufeira e de António  Bagarrão,  natural de Olhão,  tinha como irmãos António (o primogénito),  Arnaldo, Noémia e Otília Martins Bagarrão.

 Partiu para Angola rumo a Moçâmedes no dia 21 de Fevereiro de 1925 a bordo do navio «Moçambique», na companhia de seu pai, António Bagarrão, e de seus irmãos. Embarcaram  numa viagem sem regresso, e chegaram a Moçâmedes no dia 24 de Março do mesmo ano, ao fim de  32 longos dias de viagem. Logo no dia  a seguir à chegada começaram a trabalhar. O Aníbal,  na pescaria de João Thomás da Fonseca, no Mucuio, a cerca de 40 km a norte de Moçâmedes. Depois pai e filhos calcorrearam por quase todas as praias do distrito,  num afã imparável, montando redes de armações, aparelhando cercos e sacadas, fazendo um pouco de tudo. 
Foi mestre de traineira quando foi necessário fazer vingar a sua tese de que os aladores e a sondas magnéticas por ele montadas a bordo, implicavam a inerente redução da companha. Montou na Praia Amélia a 1ª fábrica automatizada de farinação de peixe e decantação de óleo importada da Alemanha.  Foi condutor de camiões, levando e trazendo pessoal contratado dos planaltos da Huila e Huambo, por trilhos e picadas que só Deus sabe.  Foi ainda co-proprietário de uma oficina, com tanto movimento como os devedores relapsos, a quem tinha vergonha de exigir o que lhe deviam.  Pilotou avionetes pelo puro prazer de voa, ou pela sedução de superação das suas capacidades. Era teimoso no saber e no querer,  quase sempre com razão.


Homem de sete oficios e pouco dinheiro, durante a sua longa vivência de meio século em África, foi também motorista e mestre de costa incluso em palhabotes m tenho feito serviço de cabotagem no   «Continente» e «Angola», de Cabinda à foz do Cunene; subiu e desceu vezes sem conta o rio Zaire, ludibriando navios alemães que durante a Segunda Grande Guerra o tentaram aliciar para os perigosos caminhos da espionagem, que consistia em levar e trazer correio, prestando informações sobre o tráfego marítimo  naquela costa de África.


Antonieta e Aníbal Bagarrão. Nesta foto à dt reconhecemos os casais Noémia Bagarrão e João Martins Pereira, Otilia Gagarrão e Armando Guedes da Silva


Foi num baile no Ginásio Clube da Torre do Tombo,  que um dia, enquanto dedilhava a guitarra, conheceu a jovem Antionieta (Loló, para a família e amigos), uma adolescente de 14 anos bem desenvolvidos, rosto bonito e envergonhado, filha de D. Rosário e de José dos Reis Almeida. Não tardou muito em pedi-la em namoro e, em seguida em casamento. Mas D. Rosário não permitiu que a sua filha casasse antes dos 18 anos, E foi no  31 de Julho de 1937, na  Igreja de Santo Adrião, em Moçâmedes, que o padre Correia os casou. O casal foi morar para o Bairro da Torre do Tombo, assim chamado porque ficava próximo do local onde em 1785 o comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, Pinheiro Furtado registou a presença de «inscrições» impressas na rocha branda  por mareantes e corsários que por alí passavam e ali faziam «aguada», quando fazia uma visita à «Angra do Negro». Contava-se que ambos  os pais da D. Lóló haviam nascido a bordo de um barco, em Angola. D. Rosário, à chegada a Benguela, e José, com Porto Alexandre à vista. José, sogro do Anibal, marido de D. Rosário, pai de D. Lóló e avô das minhas primas nasceu no final de 1894, a bordo de um caíque, quando este se aproximava de Porto Alexandre, oriundo de Lisboa.  Maria de Jesus Frota (filha de José Martins Gaivota e de Ana da Piedade Frota, os meus bisavós maternos) e mãe do José, ia acompanhada por  António dos Santos Almeida, o marido, e por duas filhas de tenra idade, a Leontina e a Isaura. Ia grávida de 7 meses.  O caíque integrava um combóio de barcos com o mesmo destino. A viagem  até Moçâmedes deveria levar pouco mais de 30 dias mas o caíque em que viajavam teve várias paragens em certos pontos da costa africana, devido a tempestades e a viagem acabou por durar 2 meses. Foi assim que quando o barco chegava a Porto Alexandre, a Maria de Jesus viu-se acometida pelas dores de parto, e rodeada pelas suas companheiras de viagem deu ao mundo  no dia 6 de Janeiro de1895, o seu primeiro filho varão, José dos Reis Almeida, assim chamado (Reis), por ter nascido no Dia de Reis.

Profundo cultor da devoção à Família, incapaz de injustiças e de violentação, fosse para  quem fosse, também o era na educação das suas meninas às quais dedicou todo o saber, carinho, amor e compreensão.  E por tudo quanto era lado, na oficina ou na fábrica, no mar ou em terra, nos prazeres lúdicos das caçadas ou no quotidiano de uma vida sempre cheia, patrão ou empregado, emergia sempre o Homem, o Amigo do seu amigo com um Coração do tamanho do mundo. A par disso, era uma pessoa insinuante, alegre, sempre com uma piada ou anedota instintivas, apropriadas para cada ocasião, com talento especial para a cozinha, onde os seus temperos e refogados eram apreciados em qualquer comemoração.  E que tanto se comemorava, meu Deus, por aquela bendita terra, naquela altura! Talvez por isso tenha um apetite insaciável e um estomago que parecia não ter fundo. Ainda hoje se comentam os 49 ovos estrelados com chouriço que comeu de uma assentada, a meia tina de carapaus assados na Praia Amélia, os 94 pãezinhos destinados ao mata-bicho de todos os hóspedes do Hotel Poças, em Nova Lisboa,  os 18 repolhos recheados com carne numa Pensão da Ponta Negra, no Congo, e as 72 sardinhas assadas comidas... depois do jantar. 
Em pleno período posterior ao 25 de Abril de 1974, não suportou mais os desmandos e atropelos que se praticavam em Angola, terra  que tanto ama e que tinha já como sua. Depois de ter mandado a mulher para a Metrópole, saudoso da família, tomou um dos últimos aviões da «ponte aérea» montada por Portugal, com a ajuda dos EUA e outros países, e chegou a Portugal no dia 26 de Outubro de 1975, 50 anos, 7 meses e 2 dias após ter pisado pela primeira vez solo angolano.

Na velhice,  para além da artrite que  lhe tolhia os movimentos, e da dietas que lhe corrigem os excessos do passado, manteve a mesma clarividência e o mesmo discernimento, o mesmo perfeccionismo e a mesma competência que sempre teve. Os neurónios nele recusam envelhecer, estão-se nas  tintas para o reumatismo, níveis de colesterol , ácido úrico e cirrose hepática. Pode-se transmitir o conhecimento, mas não a sabedoria. Esta, infelizmente não se perpetua através de genes ou cromossomas. Dava-nos tanto jeito que assim fosse. Este prolongar da prosa justifica-se, por ser da inteira justiça realçar os seus méritos, homenageando simultaneamente o Homem, o Familiar e o Amigo que há 30 anos conheci e me habituei a admirar.Assim se referia Mário Lopes ao seu sogro:
Ah!!! E sinto-me muito lisongeado por ele ser o Pai da minha mulher, o Avô dos meus filhos, o Bisavô da recém nascida Mariana.»


 A Antonieta (Dédé) de pé, à esq. na Praia Amélia, por volta de 1948, na companhia de familiares e amigos: Eduarda Bauleth, Maria Emilia Ramos, Ni, Iolanda, Rui Bauleth e Fernando Pessanha. Embaixo Zeca Carequeja, Elizabete Pessanha e Lala

Belíssima esta foto, onde se juntam 5 gerações de uma mesma familia. D Rosário Almeida, D. Antonieta Almeida Bagarrão (Lóló), a A Antonieta (Dédé), a filha Joana e o netinho
Uma homenagem a esta familia linda à qual estou ligada por laços de família pelo lado materno, uma vez que a D. Rosário, a avó casou com um sobrinho da minha avó, o José dos Reis Almeida que nasceu
                                                             

Foto: 5 gerações, 4 das quais nascidas em Moçâmedes. Foto tirada já em Lisboa (pos 1975) Joana e o pequenito João Pedro, à esq., com D. Rosária (trisavó), D. Antonieta/Loló (bisavó), Antonieta/Dédé (avó), Joana, a mãe da Mariana.
Como ficou dito atrás, Aníbal Bagarrão era um amante do Deserto do Namibe que frequentou uma imensidão de vezes e conhecia-lhe os cantos como aos seus dedos. Composto por um amigo alentejano de Moura, casado com uma prima de D. Lóló, segue um poema que ficará para sempre a marcar um desses muitos momentos que para o poeta culminaram com a triste morte de uma Gazela:


  A MORTE DA GAZELA

Fui um dia convidado
Por gente escolhida a dedo
Para ir caçar um veado
Ao «Pico do Azevedo»
 
Tudo «malta» conhecida
 E por isso eu aceitei 
No outro dia à partida 
 No grupo me incorporei.
 
Era o Virgílio e era eu 
O Aníbal e o Zeca Assis
A carrinha percorreu
Todo o caminho num triz. 
Ainda bem cedo chegámos
Junto à Pedra da Delfina,
E todos nos apeámos
Não esquecendo a carabina. 
A essa hora do dia
O sol era abrasador
A «malta» já mal podia
Suportar tanto calor 
Tinha a Pedra uma entrada
Que ia dar a um desvão
E a «malta» entrou encalmada
E deitou-se à fresca no chão. 
Quando o sol já descaía
Para as bandas do poente
A «malta» toda saía
Da Pedra alegre e contente. 
Metemos pelo deserto
À procura das gazelas,
E logo ali mesmo bem perto,
Fomos encontrar com elas. 
O Zeca Assis apontava
A arma que tinha na mão
E a gazela que pastava,
Tombou ferida no chão. 
Todos nos precipitamos
Para a gazela atingida
E ao chegar verificamos
  Que ela ainda tinha vida. 
Com certeza nunca viste, 
E eu não mais desejo ver  
O olhar sereno e triste 
Duma gazela a morrer  
S. João do Estoril, 16/10/96 ROBAIAL

*    *    *


28 dezembro 2009

Reveillon no Clube Nautico: anos 60



  O casal Diogo Baptista e Marizete Veiga Baptista, Teresa e Elizabete Bagarrão.



Dores, ? e o casal , Zette Veiga e Diogo

Moçâmedes e as suas gentes eram assim...

Uma pequena cidade onde as pessoas se conheciam, quadras festivas que eram aproveitadas para o divertimento que vinha quebrar uma pouco a monotonia de um quotidiano onde imperava, não a preguiça nem o laxismo, mas a labuta do dia a dia.

Este, foi um Reveillon decorrido em meados da década de 60  no  salão do Clube Nautico (Casino), o salão preferido das «elegantes» da época, que veio destronar o do Atlético Clube de Moçâmedes,de cariz mais popular, que fora na década de 50 o local onde decorreram animados bailes de carnaval, reveillons, bailes e matinées dançantes aos sábados e domingos, e onde se divertia a juventude moçamedense, e que acabaria por perder muito do seu antigo «brilho». 

Em tempos mais atrás, era no salão do edifício do Aero Clube de Moçâmedes, na Rua da Praia do Bonfim, em frente à Avenida, o local onde decorriam animados bailes e matinées dançantes, como o integrado nas festividades do Centenário da cidade, em 1949, mas este edifício acabou demolido e no seu lugar construido um outro de vários andares, propriedade de José Alves, que veio estragar a harmonia do conjunto habitacional. Mas ainda mais atrás, tudo quanto era festa na cidade tinha lugar no velho Ginásio Clube da Torre do Tombo, o Clube pioneiro de Moçâmedes, onde foi durante muito tempo tradição, os «célebres» bailes da Pinhata.


Fotos gentilmente cedidas por Marizette Veiga

27 dezembro 2009

Conjunto Musical «Os Diabos do Ritmo»: década de 50



Os "Diabos do Ritmo"
Albino Aquino (Bio) ao acordeão, o professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva, ao piano, Albertino Gomes (bandolim), Frederico Costa (baterista), Jaime Nobre (violão).

Aqui podemos ver, da esquerda para a direita: Marçal (saxofone), Lito Baía, (violão e acordeão); O professor de Canto Coral da Escola Comercial e Industrial de Moçâmedes, Silva (em substituição do pianista do conjunto, Bio Aquino, na época a cumprir o serviço militar obrigatório); Jaime Nobre, mestre de música, construtor de instrumentos de corda ( da guitarra clássica ao violino e aos xilofones), Cerieiro, instrumentista de rítmos (Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Frederico Costa , instrumentista de rítmos ( Maracas, Pandeiros, Banjos, Bandolins, e Reco-recos), Abertino Gomes (o extraordinário e irrequieto baterista- animador, que também tocava banjo e bandolim e até acordeão). No casal em 1º plano, reconheço Amaral (para quem não se recorda, à época era proprietário de uma loja na Rua dos Pescadores, junto da Tipografia de José Trindade, em sociedade com um irmão mais velho que jogou futebol no Sport Moçâmedes e Benfica)

Recordemos mais uma vez, os Reveillons  da década de 1950, que decorriam nos salões do Atlético e Clube Nautico em Moçâmedes, animados pelo conjunto «Os Diabos do Ritmo». Como tocavam bem os «Diabos»! Quem poderá esquecer essas figuras inesquecíveis aos quais a minha geração ficou a dever os mais belos e animados momentos das suas vidas.

O conjunto musical «Os Diabos do Ritmo» foi o grande animador das festas da minha juventude. Eram eles que animavam os  bailes que aos sábados se prolongavam pela noite fora até ao raiar do dia, e  as matinées dançantes que, com grande pena nossa, acabavam impreterivelmente às 20 horas. Dançava-se sem parar, ao som dos mais diversos ritmos, que iam desde movimentadas marchinhas brasileiras que estavam muito em voga,  a pasodobles espanhóis, às remexidas rumbas, chá-chá-chá, congas e baiões, musica do Brasil e Caraíbas, não esquecendo os românticos tangos de Gardel, as  deslizantes valsas, e os suaves slows,  etc., géneros musicais daquele tempo, dos quais deixarei aqui alguns exemplos, bastando clicar para ouvir: La Cumparcita

A propósito, este excelente conjunto  tinha por hábito fazer serenatas por volta da meia noite à porta das casas das raparigas, deslocando-se para tal em carrinhas  e camionetas de caixa aberta, de casa para casa, umas vezes por iniciativa própria, outras, a pedido de namorados que acompanhavam o grupo e participavam no côro.

Quero recordar aqui aquele que foi o meu vizinho e amigo Albino Aquino (Bio), o talentoso pianista dos «Diabos do Ritmo», do qual tive a triste notícia que faleceu este ano.  Para mim, será sempre aquele rapaz simpático, que ria com os olhos, e tocava com grande  mestria. Fica aqui mais uma recordação de gente que marcou uma época na cidade de Moçâmedes,  e envolveu gente boa que de um dia para o outro deixamos de ver e deixaram laços em nossos corações.

MÚSICA LATINO-AMERICANA

Oiçam e percebam bem o porquê
de nenhum de nós poder esquecer
aqueles lindos bailes abrilhantados
pelos «Diabos do Rítmo», tão afamados,

nem daquelas jovens, as mais belas, já se vê,
que, coradas ouviam, cheias de felicidade,
aquelas juras que tão bem sabíamos fazer,
Naqueles anos doirados da nossa mocidade…

Oiçam esses boleros e a voz de cada cantor,
como eles vibram, nesse rítmo afro-cubano.
Eram mesmo os melhores a cantar e a compor.
Versos de amor, só cantados em castelhano…

Mas, ao som daqueles «Diabos-Mestres» a tocar,
quem não cantava bem, tendo-os a acompanhar
o ritmo do endiabrado Albertino, do Bio e Lito Baia,
Nobre, Marçal, Cerieiro e Neco, cada um como sabia…

Esquecer um grupo, como outro não houve nenhum,
seria sem dúvida de estranhar, de nunca acontecer.
Festas, Fins de Ano, Carnavais, Serenatas na cidade,
Inesquecíveis Bailes, os melhores das nossas vidas.

Quem alguma vez nos deu, Conterrâneos, mais alegria?
Quem, senão eles, tocava e só parava ao raiar do dia,
depois de um desafio que demorava horas seguidas,
em festas que sempre recordaremos com saudade…

Alguém poderá estranhar, algum de vós se espanta,
que ouvindo os Boleros que agora vos venho mandar,
para que possam recordar aqueles «Diabos» a tocar,
Ficasse eu de olhos húmidos a relembrar as juras
que fiz naquelas noites d’encanto e de felicidade,
dos anos mais lindos da nossa gloriosa mocidade,
que na mente se guardaram, inteiras e tão seguras
e, de coração acelerado, criasse um nó na garganta?

NECO MANGERICÃO.