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05 novembro 2010

Contribuições para a História do Desporto em Moçâmedes (Namibe-Angola): as modalidades de futebol e ténis (lown ténis)

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Dedicação do Lubango e Benfica à vizinha e amiga cidade de Moçâmedes e aos seus briosos e simpáticos Desportistas

Dois dos melhores tenistas angolanos, fazendo parte da admirável pleíade que Moçâmedes nos oferece, da qual com admiração e saudade recordamos os irmãos Artur e Rogério Trindade, ex-campeões de Angola.

Jorge Rocha e Jorge Radich, também muito se distinguiram na prática do futebol, contribuindo de forma elevada para o elevado prestígio que Moçâmedes gosou e do qual foram destacados e brilhantes obreiros: irmãos Peyroteus, irmãos Telmo, Abel e Hugo Vaz Pereira, Raul Radich, Pedro Paulo, Velin de Sousa, Norberto dos Santos, Ermelino Abano, Julio de Andrade, Fernando Amboim, Mário de Andrade, António Martins (Latinhas), Estrelinha, e tantos outros actualmente bem representados por Norberto Gouveia (Patalim), Roberto Martins, Mário Leitão, Carlos Alves, José Bauleth, Carlos Inácio, Adriano do Nascimento, Abílio Braz, Alcino e Piedade, empenhados em manter a tradição de Moçâmedes de nos oferecer boa percentagem dos melhores artistas que Angola possui e tem possuido.
Os nossos amistosos votos pelas prosperidades do desporto moçamedense.

Da Revista do Sport Lubango e Benfica, Boletim desportivo N. 2. 1949

Seguem algumas fotos e um texto interessante sobre a modalidade do Ténis (lown-ténis), retirados do livro de Mário António Guedes da Silva  «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes Angola»

  




















Rogério Ferreira Trindade, campeão de Angola em 1937















Torneio de ténis no complexo desportivo do Benfica integrado nas Festas do Mar de 1970. Rogério Ferreira Trindade, campeãoo o Torneio recebendo a respectiva taça das mãos do Encarregado do Governo do Distrito de Mossãmedes, acompanhado do Presidente da Câmara Municipal de Mossãmedes.
 
Jorge Ressurreição Rocha, ex-tenista moçamedense e ex-campeão de Angola, homenageado em Março de 1970, estando presentes o Encarregado do Governo do Distrito de Moçâmedes, acompanhado do Presidente da Câmara Municipal.
TÉNIS (Lawn-Ténis)

Levava.se a sério, em Moçâmedes, a prática desta modalidade, principalmente até à década de quarenta (século XX), pressupostamente por a cidade estar dotada de alguns «courts de ténis» apropriados, e , crê-se, por não existirem outras alternativas desportivas senão o futebol. Ali foram formados vários campeões, reconhecidos não só em Angola mas também internacionalmente, para gáudio dos seus apaixonados adeptos.

A dedicação e a determinação dos respectivos atletas levava-os à concretização dos sonhos de uma jovem ciddae com justificadas ambições em todos os campos.

Fascinados pela elegância deste desporto e pela inclusão da modalidade nos jogos olímpicos, desde 1896, com acompanhamento entusiástico, alguns jovens da geração de ouro (décadas de trinta e quarenta) preparavam-se intensamente, até desejável conquista do pódio.

Por ser uma modalidade considerada selecta, o número de atletas praticantes foi sempre reduzido, comparado com os desportos colectivos.
Eram frequentes os torneios de «singulares» e de «duplos», de ambos os sexos, e não eram poucos os torcedores que extravasavam as suas emoções.

Após a criação da Federação Internacional de Ténis - FIT, em 1928, e a consequente profissionalização, em Moçâmedes continuou existindo o amadorismo puro, n~so obstante o somatório de sucessos dos seus tenistas.

No ano de 1939 o campeonato de Angola integrou alguns tenistas procedentes de Portugal, Domingos D'Avillez, António Calém, Nicolau de Almeida e Eduardo Ricciardi, figuras de relevo no ténis português. Neste ano os representantes do Continente evidenciaram inegável superioridade, tendo sido finalistas Avillez e Ricciardi, que este ganhou com mérito.

Destacamos alguns destes mitos e pioneiros, todos naturais de Moçâmedes-Angola, de geração de ouro, imortaliuzados pelas suas retumbantes e memoráveis vitórias:

ARTUR FERREIRA TRINDADE
Venceu os dois primeiros campeonatos de Angola, nos anos de 1934 e 1935 em singulares. Também vitorioso noutros torneios importantes e líder desta modalidade em várias épocas. Na variante de «pares» ganhou algumas competições destacadas, gazendo parceria com o irmão Rogério.

MARY MOTA
Igualmente a primeira campeã de Angola e vencedora de muitos torneios em algumas épocas.

JORGE RADICH
Um dos principais valores de ténis angolano - 4 vezes campeãoo de Angola em pares mistos, 7 vezes vencedor da «Taça Bulock». Vencedor de 29 trofeus e considerado o tenista angolano com o maior número de campeonatos ganhos.

ROGÉRIO FERREIRA TRINDADE
Nasceu em Moçâmedes no ano 1919 e começou a praticar ténis com 15 anos de idade, tendo recebido ensinamentos básicos, de técnica e táctica, da parte do seu irmão Artur, então praticante de excelente nível.
Campeão de Angola uma vez, em 1937, além de detentor de títulos em competições relevantes realizadas naquele território, inclusiv´r na variante de «pares», de parceria com o seu irmão Artur Ferreira Trindade.

JORGE DA RESSURREIÇÃO ROCHA

Campeão de Angola no ano de 1946 e também de outros torneios importantes. Sobre este atleta, correcto e de enorme valia, o comentarista, Carlos da Cruz Almeida, ao serviço da Radio Difusora do Lobito - CR 6 AA-, disse em 1947:
«Desportista-Tipo, é o homem de porte correcto e hábil na prática desportiva, espécie rara em Angola».
Aqueles que o conheceram como desportista polivalente, na prática de futebol (No Lobito Sport Clube e no Sport Lisboa e Luanda), ténis, atletismo, natação e outras, sabem bem o quanto é merecedor dos elogios patenteados, pois este desportista sempre conservou imaculado o ideal em prol do desporto do Desporto, na perfeita acepção da palavra.

Outros tenistas, como RAUL RADICH JUNIOR, EDUARDO FERREIRA TRINDADE, MAURÍCIO DE ANDRADE, MÁRIO DA RESSURREIÇÃO ROCHA, entre outros, também honraram o ténis Moçamedense, com a grandeza das suas brilhantes actuações e vitórias.

A homenagem a todos estes desportistas moçamedenses dedicados ao «ténis», não é um mero agradecimento pelos sucessos desportivos consagrados  à Terra onde nasceram, mas sim à perpetuação dos seus nomes como gloriosos filhos que a honraram.
É um dever fazê-la!
Olvidar seria renegá-los!

Fonte: Memórias Desportivas, de Mário António Gomes Guedes da Silva

04 novembro 2010

Fernando Peyroteu, uma glória do futebol nacional, começou a sua carreira no Atlético de Moçâmedes (Angola)



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Não possuo qualquer foto que possa exibir aqui de Fernando Seixas Peyroteu , o maior goleador português de todos os tempos , nascido a 10 de Março de 1918, na Humpata, Angola, que começou a sua carreira futebolística em Moçâmedes,  no Atlético Clube de Moçâmedes, aos 14 anos,  em 1932, daí passando para o Desportivo de Huíla, e mais tarde para o  Sporting Clube de Luanda e, finalmente pelo Sporting Clube de Portugal,  onde foi considerado o «stradivarius» dos «5 violinos», o quinteto atacante da famosa equipa, constituido por Albano, Jesus Correia, José Travassos e Vasques.
                                                                       

Recordado pelos moçamedenses como um ídolo e  uma máquina de fazer golos, Fernando Seixas Peyroteu foi viver para Moçâmedes numa altura em que sua mãe ali se encontrava a leccionar e  foi no Atlético Clube de Moçâmedes que desde logo  se revelou um marcador de golos  fora do vulgar. Com 15 anos foi convidado para integrar a selecção de Moçâmedes que enfrentou a selecção rival de Sá da Bandeira (Lubango), tendo se revelado um verdadeiro ídolo nacional.  Do Atlético  transitou para o desportivo da Huila, e jogou algum tempo no Sporting Clube de Luanda, de onde  foi transferido para o Sporting Clube de Portugal,  tendo viajado para Lisboa no paquete Niassa, onde se estreou aos 19 anos de idade, no dia 12 de Setembro de 1937, contra o Benfica de Portugal, como avançado, tendo marcado 2 golos.

Em 1945, foi expulso no jogo Benfica-Sporting, pela primeira e única vez, porque o jogador do Benfica insultou-o em murmúrio e Peyroteo respondeu-lhe a soco, para limpar a honra beliscada da mãe que não era para ali chamada. Ao nível da selecção nacional foi internacional 20 vezes, e exerceu o cargo de seleccionador em 1961/62. Em toda a sua carreira desportiva representou o Atlético de Moçâmedes, o Desportivo de Huíla, o Sporting de Luanda e o Sporting Clube de Portugal.

Fernando Peyroteu  não assinou de imediato contrato, dando apenas a sua palavra de honra em como viria a jogar no clube, e sem sequer discutiu o ordenado a ganhar. Chegado a Lisboa,  não tardou que fosse abordado no Rossio por um emissário do Futebol Clube do Porto que lhe ofereceu  mais dinheiro, mas não aceitou o convite, porque acima de tudo estava a sua palavra. Escusado será dizer que para evitar que o pudessem perder para outro clube, logo os dirigentes do Sporting lhe fizeram um contrato por duas épocas, e como prémio de assinatura lhe ofereceram 500$00 e um ordenado mensal de 700$00, que seria reduzido a metade se arranjasse emprego.


 



Fernando Peyroteu é considerado o mais extraordinário futebolista de sempre dos que pisaram os relvados em Portugal, tendo conquistado o seu primeiro campeonato Nacional logo no ano em que entreou, na época 1937/1938. Ao nível da selecção nacional foi internacional 20 vezes, e exerceu o cargo de seleccionador em 1961/62. Possuía um pontapé rapidíssimo e fulminante, e sabia encontrar a melhor posição dentro do campo para receber os «centros» e  fazer belos golos sem deixar que a bola tocasse o «pelado». Desportista completo antes de se profissionalizar como futebolista, já havia praticado diversas modalidades desportivas, entre as quais o basquetebol, a natação, o remo, a equitação, o ténis e o box.  

No cômputo geral dos jogos oficiais pelo Sporting, Fernando Peyroteu marcou 529 golos em 327 jogos,  contabilizou 17 títulos, foi campeão nacional por cinco vezes, incluindo um “tricampeonato”:1940/41, 1943/44, 1946/47, 1947/48 e 1948/49 e ainda quarto Taças de Portugal: 1940/41, 1944/45, 1945/46 e 1947/48. Ganhou um campeonato de Portugal, ergueu a Taça de Portugal em quatro ocasiões e venceu por sete vezes o campeonato de Lisboa.  Pelos Leões fez um total de 183 jogos com 297 golos, e no Total da sua carreira fez 416 jogos com 689 golos. Sem dúvida um marcador nato.Tudo em 12 anos de ouro, tendo  ainda, ao nível da selecção nacional sido internacional 20 vezes, exercido o cargo de seleccionador em 1961/62, e lançado Eusébio com a camisola das Quinas. A nível pessoal recebeu seis vezes o prémio de melhor marcador do Campeonato Nacional: 1937/38 - 34 golos; 1939/40 - 29 golos; 1940/41 - 29 golos; 1945/46 - 39 golos; 1946/47 - 43 golos e 1948/49 - 40 golos e recebeu ainda o Prémio Stromp, na categoria "Saudade", em 1997. Peyroteo terminou a carreira de futebolista em 1949, com apenas 31 anos de idade, devido a questões de saúde.
 
O último jogo que efectuou foi a 5 de Outubro, na homenagem a si próprio. Peyroteo disse «fui soldado nas fileiras do desporto nacional e um soldado não foge ao cumprimento do seu dever, seja qual for e em que circunstâncias for! Mas, de hoje em diante, reconheço que sou um soldado velho. Não posso corresponder às exigências de preparação de um jogador de futebol que queira manter-se em forma e ser útil ao seu clube e à modalidade que pratica. Quando entro em campo, vou cheio de vontade de jogar mas, depois de meia dúzia de pontapés na bola, apodera-se de mim um enfastiamento inexplicável.»  E assim terminou a sua carreira, deixando uma enorme saudade a todos os que o adoravam como futebolista e ser humano, saiu em grande, com consciência e de cabeça erguida.


No dia 28 de Novembro de 1978, durante um jogo de veteranos disputado em Barcelona, Peyroteo sofreu uma lesão que acabou por lhe ser fatal. Numa operação ao tendão de Aquiles, foi vitimado por um ataque cardíaco e acabou por falecer, depois de já lhe ter sido amputada uma perna em 28 de Novembro de 1978 com apenas 60 anos de idade.




Em toda a sua carreira desportiva representou o Atlético de Moçâmedes, o Desportivo de Huíla, o Sporting de Luanda e o Sporting Clube de Portugal.


pesquisa e texto de MariaNídiaJardim

Para saber mais, clicar AQUI


                        

29 outubro 2010

Grupo de jovens de Moçâmedes, finalistas EICIDH 1972 - 1973, em amena confraternização.

Grupo de jovens estudantes finalistas da Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique de Moçâmedes em amena confraternização. Da esq. para a dt: Rui Torres, Bitacaia, Ferreira Zito , Carlos Matias , Rui Formozinho, Rui, Valter Serqueira, Walter, Odete, Ana Maria Almeida , Ana Maria Almeida , Ana Maria, Reinaldo Gaspar , Romão Gaspar, Dina Silva, Martinho.
Foto cedida a Sanzalangola (fio de Lay Silva), por Nhuca 

28 outubro 2010

Corrida de Touros em Moçâmedes (hoje Namibe), Angola. Início da década de 1950



Esta foi a segunda e última tourada em Moçâmedes, realizada no início dos anos 1950 no campo do Sport Moçâmedes e Benfica, ainda em construção, por iniciativa de José de Sacadura Bretes (na 4ª foto), como não podia deixar de ser,  e teve a participação de profissionais vindos de Portugal.


                                                     José  de Sacadura Bretes, em 1956
 A primeira tourada foi realizada alguns anos antes, no «Campo das Sereias», lá para os lados da Aguada, tendo-se destacado o aspirante a toureiro «Orlandini» (Orlando Teixeira), um filho da terra, e tendo o espectáculo redundado numa palhaçada, nem só pelo toureiro, mas também pelo animal. Enquanto Orlandini, o improvisado toureiro, aguardava "cheio de estilo"  a investida da "fera"  para exibir a sua faena, eis que surge, inesperadamente no improvisado redondel, um bezerro desemcabestrado que o derrubou.

Outra particularidade anedótica desta primeira tourada em Moçâmedes, foi o material que serviu de construção ao redondel, ou seja, foi construido à base de fardos de palha, daí derivando, que os touros em vez de investirem contra o toureiro, não deram luta, porque passaram o tempo a comer a palha, tornando-se o evento um verdadeiro fiasco.

Sobre José Sacadura Bretes, grande aficcionado da arte do toureio, pessoa simpática e cheia de iniciativa,  que conheci, mas não pessoalmente, conta-se que tendo recebido um cartão de "Boas Festas" do Governador, com todos os seus títulos de Capitão de Mar-e-Guerra, etc, respondeu  assinando: "José de Sacadura Bretes, Director da Alfândega, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moçâmedes, Juiz substituto, viajante do vapor Cuanza"...(*)

É incerta a origem da arte do toureio. Uns afirmam que surgiu na pré-história, outros, que as suas raízes remontam ao século III a.C, em Espanha, onde a caça aos touros selvagens era um desporto popular. Contudo, as touradas tal como as conhecemos, tornaram-se uma febre durante todo o século XIX, especialmente entre os anos de 1910-1920, onde as arenas foram palco de grandes espectáculos que levantavam o público de seus assentos. Oriunda de Espanha, espalhou-se por Portugal (primeiro, no Ribatejo), em França e na América Latina (México, Colômbia, Perú, Venezuela e Guatemala), consistindo o essencial do espectáculo na lide de touros  bravos, através de técnicas denominadas por arte tauromáquica, composta por toureio a cavalo, toureio a pé e pega, resultante da luta frente a frente entre o homem e o touro. A diferença entre a tourada portuguesa e a espanhola é que em Portugal, o touro não é morto na arena.

Sempre justificadas como tradição, as corridas de touros,  são, na verdade, um dos costumes mais bárbaros, espécie de entretenimento de um sector minoritário das sociedades onde ainda se praticam, redundando num espectáculo medieval e degradante, que, por detrás da suposta bravura dos intervenientes, esconde a triste e horrível realidade que é a perseguição, molestação e violentação dos animais, touros e cavalos que, aterrorizados e diminuídos nas suas capacidades físicas, são forçados a participar num espectáculo de carácter medieval, onde o sangue jorra, a arte é a violência e a tortura é a cultura.

Em Moçâmedes jamais aconteceu um espectáculo deste género. Foram apenas dois, efectuados ao sabor do improviso que, como já foi referido, pelo menos un deles redundou  em  hiliariantes palhaçadas.

Porquê estas tradições em terras de África?

Foi talvez a necessidade de imitar aspectos do rincão natal para suprir a nostalgia da distância, que teria levado homens como Sacadura Bretes, a tentar estas «touradas» em terras de Moçâmedes. O mesmo se passara, nessa década, com as marchas populares acontecidas entre nós, em 1955. Na origem, um tipo associativismo regionalista surgido a partir da 1ª República, originário de França, que havia penetrando em Portugal, e dera, entre outros espectáculos, lugar às 1ªs. Marchas populares de Lisboa, nos anos 30 do século XX. Este movimento, acabaria por ser transportado para as colónias portuguesas de África por emigrantes, gente carente de contactos sociais e de distracções, numa terra distante, quantas vezes de clima inóspito e doentio, terra de isolamento, onde a vida, nesse tempo, se resumia à dura labuta do dia a dia. Foi essa gente que desde o início do século XX fundou associações, organizou clubes, festas, romarias, peregrinações, peças de teatro, récitas, arraiais, bailes da pinhata, assaltos de Carnaval, desfiles automóveis (corsos), touradas, cantigas de roda à volta da fogueira, e que na década de 50, pela primeira vez e creio que  única, organizou um Concurso de Marchas Populares. O mais curioso é que nessa altura o sentido de portugalidade se encontrava tão difundido e propagandeado, que os organizadores destes eventos, geralmente recém chegados da Metrópole, facilmente conseguiam arrastar as novas gerações ávidas de folguedos, filhos e até netos e bisnetos de pais e avós já ali nascidos, que jamais havia pisado solo metropolitano, levando jovens raparigas como eu, a desfilar com arquinhos e balões, socas e canasta à cabeça, imitando nazarenas, e rapazes de barrete verde e vermelho, quais  campinos do Ribatejo, a cantar e a bailar, acompanhados ao acordeão e  à concertina, numa imitação folclórica daquilo que se passava na terra de seus e nossos antepassados. No que diz respeito às Marchas Populares, Moçâmedes seguira o exemplo dos laurentinos (1939, 1956, 1958, 1966-67), e deu o mote às gentes de Lubango, que em 1964 assistiram ao desfilar das suas marchas, que, tal como as touradas, também entre nós, não passaram de epifenómenos, ou seja, não vieram para ficar.


 














 Foi desta foto, que a foto acima de Sacadura Bretes foi recortada 
(foto do meu álbum pessoal), tirada no final do campeonato distrital de basquetebol feminino, em 1957, do qual foi vencedor a aguerrida equipa do Ginásio Clube da Torre do Tombo, da qual fiz parte. Junto da tribuna, ao lado de entidades oficiais, podemos ver Sacadura Bretes, à dt, de chapéu, Cabral Vieira e mais abaixo, a esposa; a receber a taça, a capitã do GCTT, Francelina Gomes, sob o olhar atento do treinador, José Pedro Bauleth; e mais à dt. o Figueiras  (das ameijoas) e  Julia Castro, entre outros. Também na tribuna, a esposa do Governador.
[cent7.jpg]

De José Sacadura Bretes possuo ainda esta foto, creio que tirada por Antunes Salvador  no interior do velho campo de futebol. Trata-se de um desfile de carros alegóricos, por ocasião das festividades do Centenário da cidade de Moçâmedes, a 04 de Agosto de 1949. Sacadura Bretes encontra-se na foto à dt. , montado no seu garboso cavalo, com o qual tantas vezes vi percorrer as ruas da cidade, décadas mais tarde.

Créditos de Imagens:
Do fio de Lay Silva, in Sanzalangola, foram retiradas as três primeiras fotos, cedidas por João Inácio Tavares, bem como alguns dados que constam no pequeno relato assinalado com (*)

18 outubro 2010

O «dia de S. Vapor»: em Moçâmedes...



Até meados dos anos 1950, os navios ficavam fundeados, ao largo, na baía de Moçâmedes...

A baia de Moçâmedes plena de baleeiras de navegação a vela a rodear o navio que transportara até Moçàmedes, de visita, o Marechal Oscar Carmona, em 1938. Eram outros tempos, que iriam mudar a partir dos anos 1950, com a construção do cais acostável.




No título desta postagem fizemos referência ao «Dia de S. Vapôr»? Mas do que se tratava então?


Até pelo menos a meados dos anos 1950, entre a população de Moçâmedes, cultivou-se o gosto pela visita aos navios de passageiros que escalavam a cidade, no decurso da suas viagens de Lisboa até Lourenço Marques, e vice-versa, passado pela cidade do Cabo, na África do Sul. A razão é que as deslocações a bordo não se reduziam apenas a recepções ou a despedidas a familiares e amigos, elas eram motivo de satisfação porque os navios traziam novidades, coisas bonitas e baratas que naquele tempo não se encontravam  à venda no reduzido número de lojas da cidade. Escusado será dizer que os grandes clientes desse mercado paralelo  eram as senhoras que à época, na sua maior parte, eram  donas de casa, e podiam mais facilmente dispôr do seu tempo, por outro, porque o sector feminino da população era o mais apegado a este tipo de coisas, sempre à espera das últimas novidades  trazidas da Metrópole, da África do Sul e de outros lugares.

Os navios chegavam normalmente pela manhã e partiam ao fim do dia, deixando aos visitantes tempo suficiente para uma  ida a bordo. Como atrás referimos esta prática vinha acontecendo  desde os tempos em que não havia cais acostável, e os navios ficavam fundeados ao largo, sendo a deslocação de passageiros, funcionários e visitantes, assegurada por «gasolinas». (1) Fosse o navio Pátria, o Império, ou os mais recentes Uije, Príncípe Perfeito e Infante D. Henrique, fosse o velho Quanza ou o velhinho e João Belo, fossem navios da CNN/Companhia Nacional de Navegação, (agenciada pela Duarte de Almeida, Lda.), ou da CCN/Companhia Colonial de Navegação, (agenciada pela Sotrage) ou ainda da CUF, (agenciada por Pereira Simões e Cª.Lda.), a verdade é que a possibilidade de se fazer compras nunca falhava, Estas eram efectuadas em alguns pontos estratégicos dos  navios, geralmente nos camarotes do pessoal que neles trabalhava,  camareiros e camareiras, já conhecidos de longa data pelas  habituais clientes, que lhes vendiam toda a variedade de artigos: peças de lingerie em nylon e renda,  roupas diversas, meias de vidro, camisas, gravatas, carteiras, malas de senhora, bonecas e perfumes de Las Palmas (Tabú, Maderas do Oriente e outros), bibelots do Oriente, fios de ouro, botões de punho, anéis, pulseiras, pregadeiras, colares, bebidas, charutos, tabaco, pastas de chocolate, caramelos, rebuçados, etc, etc, e até caixas de uvas de Metrópole e da África do Sul.  Era um vê se te avias, havendo ocasiões em que os ditos camarotes ficavam a abarrotar, fazendo-se fila no corredor a aguardar a vez. Na barbearia do navio e no bar, comprava-se tabaco, cigarrilhas, whisky escocês, balas para caça, óculos, pastas de chocolate e toda uma série de guloseimas, livros, revistas, etc, etc.  E porque em Moçâmedes não havia piscinas (a única «piscina» era o tanque de água para regas que ficava no epicentro das Hortas da família Torres), alguns visitantes mais jovens, do sexo masculino, aproveitavam a  ocasião para  uns mergulhos na piscina do navio, e faziam-no,  é claro, ante o olhar condescendente do Comandante.

Mas havia um problema com que as visitantes-compradoras tinham  que se confrontar: como passar a mercadoria comprada e conseguir escapar ao o olhar vigilante da Guarda-Fiscal que ficava à saida do portaló do navio, a partir do qual se  descia por uma longa  e íngreme escadaria para os «gasolinas» que levavam as visitantes de regresso à ponte, no regresso às suas casas?  A estratégia era mostrar a  descontração  pssivel, para que algum guarda-fiscal mais desconfiado não desconfiasse... Geralmente as senhoras ao regressarem a casa iam um pouco mais cheinhas, uma vez que vestiam as roupas que compravam, sobre as roupas que  levavam vestidas...


O romântico Piquete da Guarda Fiscal de Moçâmedes, vendo-se ao fundo a entrada para o edifício da Alfândega, do lado de lá da Avenida


Este era o trajecto  que unia a Ponte ao Piquete da Guarda Fiscal, obrigatoriamente percorrido por passageiros, a pé, e por mercadorias levadas sobre vagonetas que deslizavam sobre carris de ferro...
Governador Ramada Curto e comitiva passando pelo Piquete no início do Século XX




 Moçâmedes era uma cidade pequena onde praticamente toda a gente se conhecia, os guarda-fiscais ao fim e ao cabo tambem fingiam não ver, eles sabiam bem distinguir aqueles que iam comprar perfumes, bibelots, bijuteria, etc, para si mesmos, daqueles que iam a bordo dos navios comprar artigos para revenda, como balas para caça, tabaco, bebidas, etc.  Por isso, já em terra, todo visitante dos navios, desembarcados na ponte,  ainda tinham que passar pelo interior do romântico e bonito Piquete da Guarda Fiscal que aqui se vê, e  podia estar sujeito à intervenção de "apalpadeiros" e  "apalpadeiras" em busca de eventual contrabando.

Porquê esta sede por compras a bordo?


A explicação para este fenómeno eram as carências do mercado moçamedense da época, que gerava por isso mesmo estes facilitismos, que se reduziam, bem vistas as coisas, a inocentes compras, e a pouco mais. 
 
Como ficou atrás referido, no tempo em que os navios ficavam fundeados ao largo, na baía,  por não existir cais acostável, a deslocação de passageiros, funcionários e visitantes era assegurada por "gasolinas", um tipo de barco pequeno, movido a motor, com um bonito design, pintado de branco, com uma parte coberta com toldo, janelas e bancos corridos à volta, e outra parte ao ar livre, que permitia transportar cerca de 40 pessoas, sentadas e de pé, perante a cobrança de um bilhete. No início da década de 1950, eram proprietários dos gasolinas, Raúl de Sousa Jr. e  António Bauleth/José Pedro Bauleth (este gasolina havia sido adquirido  a Mário de Almeida, um familiar, e era o que possuia um design mais atraente). Neste "gasolina" era Orlando Gomes quem cobrava os bilhetes, e que, tal como José Pedro Bauleth, ajudava as senhoras e as crianças no embarque e no desembarque, dando-lhes a mão para que não caíssem à água, nesse vai vem entre os navios e a ponte.

Nos dias de mar encapelado, era problemático subir e descer as escadas dos navios, porque estas balançavam, e as pessoas tinham que se agarrar às cordas laterais para não caírem ao mar.  Já nas manhãs de cacimbo cerrado, em que nem a água se via,  para se chegar junto dos navios de carga e de passageiros a orientação era feita pelos toques das buzinas dos gasolinas e pelos apitos dos mesmos navios.  Quando as idas a bordo aconteciam no Verão,  para além do vai e vem de passageiros e mercadorias, visitantes, etc, etc.,  a velha ponte de embarque e desembarque  ganhava movimento e animação, e quem por ali passasse podia ver jovens residentes exibindo sinuosos mergulhos do alto do guindaste, para em seguida  irem a nado para a praia. Outros atiravam-se das escadarias da ponte e iam a nado até à praia da Capitania, a praia onde um dia  nos anos 50, um capitão do porto resolveu abater a tiro a Boni-Bonita, uma inofenciva foca que se encontrava no tanque da  Avenida e era o encanto da pequenada.




Esta foto representa uma familia de Moçâmedes a bordo do paquete "Império",  no dia da despedida de um jovem familiar que ia continuar os estudos na Metrópole.   (1)


Não eram muitas as pessoas que por este tempo iam de férias à Metrópole. A maior parte das famílias,  descendentes de algarvios, radicava-se na cidade, e nunca mais voltava à sua terra. isto pelo menos até meados do século XX.  Por isso, excepto aqueles que beneficiavam de Licença Graciosa por serem funcionários do Estado, bancários, e um ou outro residente mais desafogado financeiramente, ou um ou outro estudante deslocado para continuar seus estudos na Metróple ou na África do Sul, não era muito comum, até meados da década de 1950, viagens deste género. Eram viagens muito dispendiosas a que a maioria da população, pobre e remediada, não tinha acesso.   A"Graciosa" era uma licença para férias na Metrópole  que se instalou entre os funcionários publicos dada a ideia de falta de salubridade  nos territórios africanos (Africa foi durante muito tempo considerada  um cemitério para os europeus e durante muito tempo foi problemático conseguir-se, na Metrópole, quem se dispusesse a  avançar para ua colonização efectiva  em as terras de Africa).  Assim, os funcionários públicos passaram a ter esse incentivo, trabalhando para o efeito mais 1 hora por dia que o funcionário metropolitano, para que, ao fim de 5 anos, pudesse retemperar-se na Metrópole, e por África continuar. 
 
E porque não eram muito comuns, na época, essas deslocações, sempre que alguém saia, quando regressava, sobretudo entre os  homens contavam-se histórias  da vida nocturna em Lisboa para impressionar...  Falava-se das prostitutas da Avenida da Liberdade, da polícia dos costumes que as levava  e que elas enfiavam o braço no primeiro homem que aparecesse para que que confundindo-se com eles, não fossem presas, etc etc. Havia miséria na Metrópole,  reduzido que estava o país coutadas de umas quantas familias, enquanto as províncias Ultramarinas praticanente estagnadas, não progrediam,  o que não asmira se tivermos em consideração que em 1940 em toda a Angola eram apenas  de 40.000 o número de europeus, e que até 1950 pouco progrediam.  E no entanto,  em meados dos anos 1950, as gentes de Angola eram olhadas na Metrópole com certa curiosidade, como se fossem todos ricos, como se houvesse em África uma árvore das patacas que bastava abanar para se enriquecer. Os baixos salários da classe trabalhadora na Metrópole, e a ideia de que as pessoas que vinham do Ultramar eram ricas, gerou uma exploração tal, que  já nos anos 60 os recém desembarcados no cais da Rocha, em Lisboa,  para levantarem as suas bagagens, tinham que o fazer à custa de gorgetas e mais gorgetas aos carregadores, para além das exorbitantes taxas  de  desalfandegamento que tinham que pagar.

 


                      Na foto, algumas visitantes de um navio em "Dia de São Vapôr".  Da esq para a dt, reconhece-se:  Josefa do Ó. Faustino (de preto), Maria Dias Monteiro e duas  amigas de  Maria e respectivas crianças, vindas da vizinha Sá da Bandeira




O mais emblemático dos navios da frota da C.N.N. era o paquete "Príncipe Perfeito", ao serviço entre 1961 e 1976, concorrendo nas linhas de África com o "Infante D. Henrique" da C.C.N. DAQUI
  

A verdade é que para aqueles que tinham o privilégio de fazer estas viagens, que duravam regra geral cerca de 12 dias pelo mar fora, era como se estivessem a fazer um Cruzeiro, em que as férias começavam logo alí à saída da baía de Moçâmedes. Pelo menos para aqueles que viajavam em 1ª classe.

(ass)MariaNJardim

(1) Até à inauguração do 1º troço das obras do cais comercial, em 14 de Maio de 1957, os navios que chegavam a Moçâmedes ficavam ancorados a meio da baía, e o transporte das pessoas e das mercadorias, da ponte para os navios e dos navios para a ponte, era efectuado através de "gasolinas" e de "batelões" ou em "escaleres motorizados".  Tudo em Moçâmedes foi tardio. Os dias de S Vapor ocorriam nos anos 50, para se fazer uma ideia do atraso em que se vivera  até se chegar aí , ainda em finais da década de 1940, no ano de 1938, quando da visita do Presidente Carmona a Moçâmedes, ainda estávamos nos tempos dos barcos à vela. apesar de em 1948, quando da peregrinação da imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda da Cova da Iria para terras de África, já a pesca em Moçâmedes ter entrado na fase das traineiras a motor. Foi aliás no pós guerra que algum progresso foi possível com  Angola a avançar com obras de fomento que se encontravam bloqueadas, uma vez que nem a colónia nem Portugal possuíam uma industria à altura nas necessidades, e as fábricas europeias fornecedoras do material necessário se encontravam ao serviço da guerra. 
 
Os  dias de S.Vapor aos poucos deixaram de fazer sentido, apos a inauguração do 1º troço do cais comercia,  em  24 de Maio de 1957. Entretanto o nosso comércio foi melhorando , e as pessoas já encontavam nas lojas de Moçâmedes aquele essencial para as suas necessidades.


Ver também: O piquete da Guarda Fiscal
                     Inauguração do cais acostável
 
 

17 outubro 2010

Maria de Lurdes Pinto, Miss Angola 1972



[Miss+e+damas+1971.jpg]


Se em 1971, foi Riquita (Celmira Bauleth) a menina bonita natural de Moçâmedes que conquistara os títulos de Miss Angola e Miss Portugal, no ano de 1972, a proeza repetira-se com Maria de Lurdes Pinto, uma jovem residente. No concurso para Miss Moçâmedes foram damas de honor as moçamedenses Lídia Ferreira (à esq.) e Paula Turra (à dt.), na 2ª foto. Paula Turra viria a ser eleita nesse mesmo ano, no Japão, miss Jovem Internacional.

Porquê Moçâmedes ? O poema responde:


AS GAROTAS DO MAR

Todos ficaram sabendo
que assim mesmo é que isto é,
contra as garotas do Mar
é remar contra a maré...

Vencemos em toda a linha!
Foi vitória das mais lindas,
pois nós ganhamos a todas,
Preciosas, Caraslindas...

Contra o que muitos pensavam
nós vencemos o despique,
pois entre ondas de beleza
não podemos ir a pique.

Que as moças iam vencer
era aqui por nós sabido,
pois o Namibe jamais
em beleza foi vencido!

Ninguém nos pode tirar,
cá nesta terra angolana
no campeonato das lindas
a posição soberana.

Todos queriam com bairrismo,
do fundo do coração,
neste Concurso famoso,
a bela repetição.

Lurdes tu és segunda
(Riquita foi a primeira)
e as Miragens do Deserto
hão-de indicar a terceira.

Em loucura colectiva,
no momento final,
a alegria sem limites
dominou a Areal.

Muitos cortejos de carros!
Brancos, pretos... Da cama,
homens, mulher's, crianças,
vêm pr'a rua de pijama!

As Welwistchias ajudaram,
com mil palmas prazenteiras,
que deram com frenezi,
as mil palmas das palmeiras!

E o bom Mar que é nosso Amigo,
em vozes portentosas,
bradou logo o mundo inteiro:
-São nossas as mais formosas!

(Poema incluso num prospecto que à época circulou pela cidade. Autor: desconhecid
o)


























 
Lurdes Pinto junto da pista do aeroporto de Moçâmedes, preparando-se para seguir para Luanda a fim de disputar o título de Miss Angola; à dt, a carrinha do RCM.

Nota: Chama-se a atenção para o facto de circularem erradamente,  na Net, estas fotos como se da Miss Portugal 1971, Riquita, se tratasse, e como se deste blog tivesse sido colhida tal informação, dando-lhe os respectivos créditos. De facto para quem não residisse em Moçâmedes, e não conhecesse as misses, tal confusão poderia acontecer. Até porque, quem diria, que em dois anos seguidos haveriam de ser eleitas para miss Angola, duas misses Moçâmedes?