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27 maio 2009

Gente de Moçâmedes: a Família Madeira


























1ª foto:
Nesta foto, reconheço, entre outros, da esq. para a dt., à frente: Fernanda Lourenço, Mitsi Aboim, Sónia Madeira, e um pouco atrás, o industrial José Prazeres Madeira junto da irmã e mãe, o casal Mª de Lourdes P. Infante da Câmara e Carlos Teixeira. Retirada de Sanzalangola.

2ª foto: Reconheço, entre outros, da esq. para a dt., à frente: Fernanda Lourenço, Mitsi Aboim, Sónia Madeira... Ao centro e atrás: Prazeres Madeira junto da irmã e mãe, o casal Mª de Lourdes P. Infante da Câmara e Carlos Teixeira. Retirada de Sanzalangola.para ser lançada ao mar, reconheço a familia de Prazeres Madeira: esposa Aida e os filhos, Paulo Madeira, Sérgio Madeira, ?, Ruth Madeira, Sónia Madeira. e à esq. Gaspar Gonçalo Madeira.
Foto: Sansalangola (LaySilva)

Fica aqui mais esta recordação de gente que viveu num outro tempo naquela que foi a minha terra natal!

31 outubro 2008

E depois surgiu a ARAN... E chegaram os arrastões devastar os mares de Moçâmedes...






 






Na década de 60, após a construção do cais de embarque/desembarque e da avenida marginal que levara ao desmantelamento completo das antigas pescarias,
 surgiram em Moçâmedes os «Arrastões», e o nosso mar foi invadido por uma outra forma de captura de peixe totalmente devastadora. Moçâmedes tornou-se o porto base onde se efectuavam os abastecimentos e descargas do pescado para os frigoríficos da ARAN (Associação dos Armadores de Pesca de Angola, SARL), cujo homem forte, ou seja, o maior proprietário, constava-se então, se encontrava ligado ao  regime (HT). Era ali que o peixe ficava a aguardar o transporte para a Metrópole, para a subsequente comercialização, constando naquele tempo que a pescada (marmota) era vendida como pescada de Vigo.

No local onde a ARAN ergueu o seu complexo ficavam, pois, as primitivas pescarias, que se estendiam por toda a praia em direcção à zona da Fortaleza e que foram desmanteladas na década de 50,
sem quaisquer indemnizações aos seus proprietários, tendo uns acabado na miséria, outros, reduzidos às suas pequenas embarcações, passaram a dedicar-se à pesca à linha, e aqueles que possuíam algumas economias, acabaram deslocalizando-se para o Canjeque, onde construíram, com grandes sacrifícios, novas pescarias. E como se não bastasse algumas delas foram fustigadas pelas célebres calemas que assolaram a costa de Moçâmedes nos finais dessa mesma década, restando-lhes proceder a sua reparação, de novo sem quaisquer ajudas. Era assim que naquele tempos os homens que detinham o poder tratavam os nossos pescadores e pequenos industrias... A solução que lhes sugeriram não foi uma ARAN, tal seria inviável para eles, se fossem eles a solicitá-lo, mas sim uma sociedade no Saco, considerada por demasiado irrealista para ter pernas para andar. Obviamente não interessou a ninguém.

Quanto aos arrastões, a pescada era abundante na costa mais a sul do distrito de Moçâmedes, ao ponto de muitas vezes o pessoal não dar escoamento ao peixe capturado, como testemunha o site Mar de Viena onde se pode colher algumas informações sobre o modo como funcionava na época, a pesca de arrastão:

«...A pesca efectuava-se para sul do paralelo 18' 00" S em fundos arenosos onde abundava a pescada (marmota) em grandes quantidades. O tamanho da marmota era por vezes de baixo calibre o que motivava o desperdício de grandes quantidades que eram deitadas novamente ao mar, para gáudio dos leões marinhos que abundavam nessa zona.

Por vezes acontecia quando da manobra de virar a rede, um ou mais leões marinhos serem apanhados pela rede. Era um pandemónio a bordo. Depois de despejado o saco do peixe no parque de pesca, o animal encurralado, fora do seu ambiente natural, com mais de quinhentos quilos, esmagava as frágeis marmotas, tentando libertar-se do cativeiro e dando urros impressionantes de desespero. A princípio não sabíamos o que fazer, o mestre de redes , o contra-mestre e os pescadores tentaram passar um laço na tentativa de içarem o leão para o convés e arrastá-lo para a rampa da popa, mas o corpo roliço do animal impossibilitava essa tarefa.

Quando isto acontecia todo o pescado estava perdido e gastava-se imenso tempo. A solução era matar o animal. Embora fosse um acto repugnante tinha de ser tomada essa atitude para bem do animal que estava em sofrimento e acabava por morrer lentamente e também porque o navio tinha de continuar a pescar. Era encarregue dessa ingrata missão o mais corajoso e ousado. Numa das frequentes idas a Moçâmedes, normalmente de quinze em quinze dias, para descarregar as cerca de 250 toneladas de peixe, carga máxima do navio, fomos informados que o navio ia fazer uma adaptação dos paióis da popa, normalmente utilizados como depósito de material de apoio à pesca, redes, cabos, fio, esferas de borracha para arraçal, etc., para camaratas de "pescadores".


(...)A pesca era abundante e o pessoal não dava escoamento ao peixe capturado. Chegou-se a parar de pescar, metendo a rede dentro e fundeando até processar a maior parte da marmota, mas a capacidade de congelação era insuficiente e não havia outra solução senão alijar (por pela borda fora) pescado que não se encontrava já em boas condições devido ter muito tempo sem e viscerar como também porque a marmota é um peixe muito sensível e pouco resistente quando se encontra prensado um sobre o outro muitas horas.


(...) A estadia foi mais demorada do que prevíamos porque havia outros navios à nossa frente a descarregar e um navio transportador frigorífico, salvo o erro o” Baía de S. Brás”, a carregar peixe com destino à Metrópole....»
 


Texto completo in MAR DE VIANA(Cantinflas)
Ver também AQUI ( Libório...)



03 setembro 2008

Alunos da Escola Portugal de visita ao Horto da cidade


















Foto tirada por ocasião de uma visita ao Horto de Moçâmedes, dos alunos da 3ª classe da Escola Portugal - Ano 1967

Da parte feminina reconheço a prof. Dilva Castelo Branco, Leopoldina Luís António; Elsa Maria Teles:Helena Maria Tadeu: Maria da Glória Baptista dos santos: Luísa(?) Filomena Maria Scala; Ana Maria Simões: Lalá (filha do Alberto da Baía das Pipas)?; Eduarda...; Professora Dilva Castelo BrancoDa parte masculina

Baptista dos Santos, Manuel Victória Pereira;Armando Loures da Silva; Joaquim Manuel da Cunha Major; (Nelo) Manuel Constantino Baptista; Luís Filipe Paiva Cabral; Nika Albuquerque ?;não, José Feliciano, filho do contínuo da escola, Sr. José Augusto (?) Victor Manuel Sá Figueiredo Rodrigues; João Viegas Ilha; Rodrigues (?); Maurício Gonçalves; Fernando Cordeiro Coimbra e Edgar Espirito Santo de pé.


Desta turma, vivem 4 em Angola - Manuel Victória Pereira - professor. a Leopoldina - médica , o Edgar E. Santo - agrónomo . o Feliciano, electricista auto e o Sá Rodrigues chegou alí também há poucos anos com empreendimentos.
Foto gentilmente cedida por Pedro Ilha.

Nas duas fotos acima, duas perspectivas do Horto Municipal. Era neste Horto que se cultivavam as árvores e plantas que eram mais tarde colocadas nas ruas e jardins da cidade de Moçâmedes, e onde se cultivavam flores que eram vendidas ao público. Fotos retiradas de Sanzalangola.
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TERRA AUTOBIOGRÁFICA (fragmento)

Não existe mais
a casa onde nasci
nem meu Pai
nem a mulembeira
da primeira sombra.
Não existe o pátio
o forno a lenha
nem os vasos e a casota do leão.
Nada existe
nem sequer ruínas
entulho de adobes e telhas
calcinadas.
Alguém varreu a fogo
a minha infância
e na fogueira arderam todos os ancestres.

Poema de Costa Andrade
(Terra gretada)

31 agosto 2008

Corrida de «Carros de Sabão», por alunos da Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de Moçâmedes: 1966






4ª e 5ª fotos: Momentos das provas de velocidade e de perícia efectuadas na descida da Fortaleza de Moçâmedes.

6ª foto:
Presentemente, um destes carros de sabão numa das salas da Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique, na cidade do Namibe.
   


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Sanzalando em Angola
Tem que não tem 16-01-2004 11:48 Forum: Liceu Américo Tomás


Na oficina da rua das Hortas, naquela que tem machimbombo que parte para Porto Alexandre, deslembrei mesmo o nome, tá no ponta da língua, assim como o mecânico a dar para o gordo e mulato da cor, arranjei os rolamentos que tanto queria para fazer o meu carrinho. Desci mais um pouco a rua para comprar pregos na Casa Santos. Ninguém lembra mesmo onde era esta casa? Tem nome que lembra todo o mundo - Passa Fome. Sim esse mesmo que punha 5 litros de gasolina naquele carro que parecia americano de tão grande antigo que era, e mais cinco num garrafão para voltar quando ia passear ao domingo com a família. Me disseram, nunca soube se era verdade mas também nunca tive que interesse em confirmar. Mas que assim lhe chamavam eu tenho certeza mesmo certa. Comprei meus pregos e vi que estava pronto para fazer o melhor carro de rolamentos do mundo. Desta vez mesmo que vou bater aqueles gajos na descida.
Olha, ainda vou no Pires Correia comprar comprar Chita para minha mãe fazer um vestido para a mana, que tem festa e tem concurso como todos os anos. Mas já sei que é comprar só por comprar que minha irmã vai dizer no dia que não entra. Tem que não tem é sempre assim.
Me lembrei que já que estou aqui em baixo vou mesmo perto do matador ver os amigos Beleza que parece que está com gripe.
Tem mesmo que não tem assunto para conversar. Cidade pequena não passa nada. As menina que a gente gosta num olha mesmo para a gente e aquelas que a gente não gosta também. Puto sofre na cidade onde nada tem que não tem. Me deixa só crescer e vais ver que tudo vai ser como que diferente mas muito igual. Já agora que estou na filosofia vou mesmo lá no Horto ver o crescer das flores que são boas de bonitas.
Em vez de fazer o meu carro de rolamentos vou fazer um 'Carro de Sabão' para bater os gajos da Escola Industrial que têm mania que são melhores que os do Liceu. Mas que sou puto num vão deixar eu correr. Os outros mesmo que façam. Fico pelas corridas da Rua dos Pescadores. Dá cabo dos sapatos pois os tacões é que são os travões, as o Estregildo que põe novos depois da mãe dar o ralhete quinté tou habituado.
Tem que não tem mas num passa nada, nem chuva passa aqui 
in Sanzalando

24 julho 2008

Pescarias de Moçâmedes: «Industrial Canjeque


  A zona pesqueira do Canjeque, a 4m a sul de Moçâmedes. e o peixe secando nas eiras (tarimbas) da pescaria de João Viegas Ilha em sociedade com António Vicente (
«Industrial Canjeque») . Foto de Pedro Ilha

A indústria de pesca em Moçâmedes até aos anos 1950: a arte da «sacada»



                                                    Uma baleeira de pesca de "sacada"

Uma baleeeira à vela, encaminha-se para uma das pescarias da zona conhecida por "Pedras". Ao fundo, o morro da Torre do Tombo, onde em tempos remotos foram escavadas grutas ou furnas na rocha branda, e foram encontradas com inscrições deixadas gravadas na rocha branda por piratas e por navegantes , que ao longo das suas viagens por ali passavam, ali descansavam e ali faziam "aguada" ,antes de prosseguirem viagem pelo vasto mundo .
                                             
 

No início eram os barcos à vela...

A foto que aqui vemos, tirada em finais da década de 1940, em plena faina no mar, representa uma das muitas baleeiras que se dedicavam à arte «sacada», e que na altura povoavam a baía de Moçâmedes. O local onde se desenrola a acção, é na zona então conhecida como «mar da Alemanha», entre a ponta do Pau do Sul e o Canjeque. Nesse dia o mar estava agitado. A foto, toda ela sugere acção e movimento: o baloiçar da embarcação, as ondas, a postura dos pescadores, o mastro que sustenta a vela, o erguer da rede, etc. etc. Como podemos ver, a vela, no momento em que a foto foi tirada já se encontrava recolhida na verga que lhe serve de suporte.


A «pesca de sacada» era efectuada em duas baleeiras de pequeno porte, uma com motor (a que carregava as redes), e a outra a reboque. Nesse tempo estas baleeiras navegavam à vela, e era interessante vê-las desfraldando as suas velas brancas ponteagudas ao vento, (vela latina) bolinando, ora para um lado, ora para outro, para poderem vencer o ventinho que soprava sempre em sentido oposto. A partir da década de 50, passaram a ser movidas a motor, facilitando substancialmente a navegação e a pesca em si.
 

Chegadas ao local escolhido, as baleeiras fundeavam, recolhiam as velas, e posicionavam-se lado da outra, com espaço suficiente entre si para se poder arrear a rede ao mar. A rede ficava presa a cada uma das baleeiras, à frente e atrás, através de cabos e chumbadas, em forma de saco. A operação seguinte consistia em atirar o engodo para o meio da rede, a fim de atrair os cardumes de peixe (de preferência cachucho, corvina, taco-taco, merma, etc.), e ao fim de algum tempo, com uma linha e anzol , verificava-se se havia peixe a picar. Em caso positivo, a rede era içada manualmente, através de uma operação que naturalmente, obrigava as baleeiras a se aproximarem uma da outra. Os primeiros cardumes eram despejados para uma das baleeiras, o 2º para a outra, uma vez que se voltava a arrear a rede ao mar.

A pesca de sacada era normalmente efectuada numa área que ia até ao «Três Irmãos», nome dado a três morros que se avistam do mar e que ficavam em pleno deserto, próximos da costa, no caminho para Porto Alexandre (actual Tombua).





                               A baía de Moçâmedes e as antigas pescarias, na década de 1940


 Eu, no morro da Torre do Tombo, nos tempos que anteciparam o desmantelamento das velhas pescarias de Moçâmedes
                               Alguns pescadores algarvios que se radicaram em Moçâmedes...
 


Nesse tempo a maioria das gentes dedicadas à pesca, eram pescadores/proprietários das suas pequenas embarcações, tinham os seus empregados mestres, motoristas, quimbares e pessoal contratado, etc. Os proprietários eram na maioria descendentes de algarvios que ali se tinham fixado e partir de 1860 e que prosseguiram a arte de seus pais e avós, sem  nunca terem enriquecido. Eram "patrões", mas a maioria trabalhava ao lado dos seus empregados, de mangas arregaçadas, pois o resultado final da pesca não dava para muito mais.  A arte mais difundida era a «pesca à sacada», e como a área da residência era geralmente a Torre do Tombo, não muito longe das pescarias onde laboravam, saiam de casa para a faina do mar pela madrugada, a pé, pois naquele tempo (até finais dos anos 1940, eram raros aqueles que possuíam carro).  









 
Todo o pessoal do mar reunia-se nas pescarias onde em instalações precárias umas, ou melhoradas, outras, se alojava o pessoal africano contratado, e alguns africanos aportuguesados desde há muito radicados na área, os "quimbares". Como nesta altura a rede de luz eléctrica ainda não estava instalada, ou estava a sê-lo em algumas zonas, mas não havia chegado à Torre do Tombo, era normal, para vencerem a escuridão, verem-se pescadores levando consigo pela mão um candeeiro   alimentado petróleo, tipo lampeão, apropriado para usar na rua, feito de metal e vidro com uma pega para transporte. Com a mesma finalidade se podiam usar lanternas alimentadas a pilhas. Era um tempo em que as habitações era iluminadas a candeeiros alimentados a petróleo (antes eram alimentados a azeite, incluso a óleo de peixe). Quantas crianças e jovens estudaram à luz desses candeeeiros, quantas familias jantaram, quantas donas de casa tricotaram à luz de tal iluminação! O surgimento dos petromax foi uma inovação. A luz produzida era muito clara e de grande intensidade.

A Torre do Tombo, bairro onde moravam as gentes dedicadas à arte da pesca, maioritariamente oriunda do Algarve, e que em outros tempos fora um ponto de encontro para onde confluía aos fins de semana gente de todos os cantos da cidade para se divertir nas festividades levadas a cabo no salão do sei Ginásio Clube, foi sempre descuidada pelas autoridades da terra, e a iluminação de algumas das ruas deste bairro só chegou na 1ª metade da década de 1950. Também foi tardia a asfaltagem das ruas nesta zona da cidade, que só veio a acontecer já no início da década de 60 e apenas beneficiando a rua principal que dá acesso à praia Amélia, ou seja, a então denominada Rua da Colónia Piscatória. É caso para pensar, como foi possível tanto atraso, ou tanto laxismo, em aspectos tão básicos de urbanização, num território tão rico como era Angola? E no entanto, apesar de desprezada a Torre do Tombo, com as suas pescarias, apesar das constantes crises que de quando em quando se abatiam sobre o sector pesqueiro, era um dos eixos que faziam girar a economia da terra! Eram as gentes da Torre do Tombo que do mar arrancavam o pescado que juntando-se às gentes do mar de outras praia e até de Porto Alexandre, etc  que ainda iam ajudar comparticipando com "malas" de peixe, obras efectuadas, como as do Clube Náutico, do edificio do Grémio,  Sede do Sporting, etc  etc. , montantes que lhes eram solicitados por via de gente influente como o Capitão do Porto, etc etc.






        João Viegas Ilha industrial do Canjeque  e sócio da Projeque junto ao pescado a secar em eiras ou jiraus


Quanto à vida dos homens do mar, se ainda hoje é dura, muito mais dura era naquele tempo. Chegados às pescarias, como a maioria delas não possuía pontes que penetrassem suficientemente o mar para que as embarcações pudessem atracar, era em «chatas», pequenos barcos a remos, que os pescadores se dirigiam para as baleeiras, a fim de partirem para a faina no mar.
As noites de inverno em Moçâmedes eram geladas, como gelada era a água do mar, para o que contribuía a corrente fria de Benguela que fazia parte da corrente marítima que vinha do sul da Argentina, passava pela Antártida, e subia ao longo da costa ocidental africana passando por Moçâmedes. Os pescadores tinham que se proteger com roupas grossas de lã, camisolas, calças e calcetas e botas altas de borracha. E nas noites de «cacimbo», com barretes enfiados na cabeça. O pessoal nativo, que era na altura contratado para trabalhar nas pescarias, através de angariadores, em zonas do interior de Angola, como Caconda, Guilengues, etc., usavam camisas feitas com as chamadas «mantas de papa», mantas grossas que possuiam um grau elevado de acumulação de calor, e calçavam botas de borracha para se protegerem do frio e da água do mar. Chegados a terra, o pessoal do mar ia descansar e o pessoal de terra começava a sua rotina, que era a de retirar o peixe das baleeiras, escalar, salgar e pô-lo a secar, e ainda, concertar as redes que amiúde rasgavam, quando ficavam presas a alguma rocha no fundo mar, ou devido ao peso dos lances de pescado, o que geralmente era feito, pelo dono da embarcação, o mestre, após algumas horas de descanso diurno.


Foi a partir da década de 50 que, primeiro lentamente, depois mais ousadamente, se deu um salto qualitativo na indústria piscatória no distrito de Moçâmedes, salto que ainda foi maior na década de 60, quando começaram a surgir as primeiras instalações fabris para a transformação do peixe em farinhas e óleos, já dotadas com tecnologias de ponta, como eram na época as norueguesas.




Antes de tudo era a pesca do arrasto...


 







                                      

Mas voltando ao período em causa, ou seja, até ao final da década de 40, as principais actividades piscatórias encontravam-se voltadas para a salga e seca de peixe, para a venda de peixe em fresco para consumo local e para a industria de conservas de peixe. As artes utilizadas, eram a «pesca de sacada», a «pesca de armação», a «pesca com rede de arrasto» e a «pesca à linha e à vara». Na «pesca de sacada» o peixe era fundamentalmente destinado a salga e seca, tendo como destino quer o consumo interno quer o externo através da exportação para Moçambique, Congo, etc., excepto quando vinham à rede peixes de qualidade (corvina e do cachucho) que eram vendidos em fresco para consumo local, uma vez que não existia ainda a rede de frio. Importa contudo referir que muitas vezes até estes peixes de qualidade acabavam por ser destinados também à salga e seca para exportação, no caso dos grandes lances que iam para além das necessidades do consumo local. A «pesca à linha», essa sim, era destinada ao mercado consumidor local, excepto quando se tratava de atum, sarrajão, sardinha.. era dirigido para a indústria de conservas. Para a indústria conserveira, era também dirigida a «pesca ao corrico», a «pesca à vara» , (esta fundamentalmente de tunídeos, atum e sarrajão), e também a «pesca de armação».

Quanto aos lucros proporcionados aos pescadores pelas artes em questão, nesta altura, havia abundante pesca, mas era baixo o valor do pescado. O peixe apanhado pelas sacadas destinado à salga e seca era encaminhados para o Sindicato dos Industrias de Pesca de Moçâmedes (mais tarde Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes) que se encarregava de o colocar nos mercados consumidores, quer de consumo interno em Angola, quer para consumo externo, em Moçambique, no Congo, etc., como aliás já fora atrás referido. Mas as condições em que se trabalhava não eram as melhores e o escoamento para os mercados não obedecia por vezes ao ritmo que seria necessário .


No seu livro “O Mar de Angola”, o Dr Carlos Carneiro, (1949), escreveu um artigo sob o título: “E assim nasceu, em Angola, a indústria de farinhas de peixe”, onde nos fala da grande crise da indústria de pesca em 1929, crise que afectou grandemente Moçâmedes, e acabaria por ser decisiva na construção das primeiras fábricas para a transformação de peixe em farinha e óleo. Numa passagem do mesmo podemos lêr:

...Em 1929 a indústria de pesca no sul de Angola atravessava a pior das crises. A produção de peixe seco era enormemente superior ao consumo”. O preço aviltava-se... “abandonavam-se na praia ou lançavam-se ao mar centenas de toneladas de peixe que apodrecia em armazém”. Nesse tenebroso período, um alemão, gerente da casa Weermonn, Brock & C.ª, em Moçâmedes solicitou-me autorização para exportar, para Hamburgo, peixe seco sem sal e com cabeça, para fins industriais”. “Como nada havia legislado sobre o assunto, autorizei a exportação... Mas o fim a que ele se destinava espicaçou-me a curiosidade”. Solicitei informações ao Departamento Científico e Técnico de Pescas Marítimas de França
e recebi vagas notícias sobre a utilização desses peixes na alimentação de animais, depois de beneficiados e farinados. Por essa época uma comissão de médicos veterinários elaborava o Regulamento Geral de Sanidade Pecuária e Industria Animal em Luanda e solicitava-me elementos para estabelecer doutrina sobre a fiscalização sanitária do peixe e seus sub-produtos. Assim aparece publicado e mantém-se em vigor, o “art. 134º: Fica autorizada a escala de peixe com cabeça e sem sal quando destinada a fins industriais” (Carneiro, 1949). Entretanto, com a preciosa colaboração do meu saudoso amigo Dr. Torres Garcia faço os primeiros ensaios de transformação do peixe em farinha. Sem maquinaria própria e sem ciência certa as primeiras amostras enviadas para a Alemanha não agradaram, como tanto era de desejar. Mas as indicações que de lá vieram permitiram produzir-se melhor e, em pouco tempo, o mercado germânico estava aberto a toda a farinha de peixe que Angola fabricasse. E assim se começaram a construir as primeiras instalações fabris e se adquiriram as primeiras fábricas para a transformação de peixe em farinha e óleo. Hoje, a costa de Angola tem ao serviço desta riquíssima indústria, 4 grandes fábricas e cerca de 60 fabriquetas que estão laborando, anualmente, largas centenas de toneladas de farinha de peixe....

A falta de autonomia  das colónias em relação à Metrópole reflectia-se ao nível de aspectos comezinhos, incluso um simples regulamento para a salga do peixe que até meados do século XX era feita em péssimas condições. Em 1915 de entre outras disposições o Governador de Moçâmedes instituia que os tanques ou tinas para salga deveriam ser em cimento, madeira ou ardósia. E estes deveriam obedecer a dimensões certas. Ou seja, obedeciam a uma largura mínima de 0,80 e máxima de 1, 60m e profundidade igual à largura. Isto para peixes de várias dimensões, que iam sendo colocados no fundo por serviçais que debruçados no bordo do mesmo, iam deitando-lhes por cima camadas de sal que se iam liquefazendo, para irem a secar em eiras ou jiraus  a seguir. 


Esta é uma pequena amostra daquilo que era a vida das gentes do mar neste periodo em Moçâmedes.Vida que, embora fosse possibilitada e garantida pela presença de pessoal africano contratado vindo do interior de Angola, quantas vezes objecto de exploração por parte de angariadores,  não poupava ninguém, incluso os próprios patrões que em grande parte eram proprietários-pescadores, e, lado a lado com seus empregados participavam na labuta do dia a dia. E se ganhavam algum a mais e amealhavam, era para investir na arte, melhorar as condições de trabalho, porque nem créditos bancários havia para lhes facilitar a vida. E com o Estado não podiam contar. 

Depois de uma vida feita de lutas e sacrificios, em meados de 1950, ficaram sem as suas pescarias que foram desmanteladas para que os respectivos terrenos dessem lugar ao novo cais comercial e à avenida marginal, ficando grande número na miséria.

Ficam mais estas recordações
 


MariaN.Jardim
Para mais informações, clicar AQUI
AS GRANDES CALEMAS DE 1955








No artigo 4.º trata o regulamento

das visceras e detriclos do peixe, que manda lançar no mar, a uma distancia não inferior a 300 metros

da praia, quando se não destinem a ser aproveitados para fins industriais

ou adubos, pClis que, •neste

caso, serão removid s para as fabricas

transformadoras ou terre· nos em que tenham de ser empre· gados. Não dõzem como serão re- movidos.

Não discutamos esta distinção

entre fins indus!rtais e adubos e,

visto que esta ideia do aproveita- mento dos detrictos, aparece pela

primeira vez na portaria 87 de 1910

Arte de Pesca em Moçâmedes: Pescarias do Canjeque

 
 No Canjeque, a caminho do rapa (pequena traineira) «Nidia Maria», propriedade de Virgilio Nunes de Almeida. Margareth, Nidia e um empregado da pescaria.



Nesta foto, é visível a pescaria da Sociedade da Ponta Negra. Ld., de que eram sócios, Virgilio Nunes de Almeida, António Bernardino e ? Matos. Mais tarde as instalações desta pescaria foi vendida à «Projeque»
 
 Canjeque

 Pescarias de Canjeque sul a serem fustigadas por uma grande calema (1955)

 Pescarias de Canjeque sul a serem fustigadas por uma grande calema (1955)

 Pescarias de Canjeque sul a serem fustigadas por uma grande calema (1955)


Sacada em plena faina

Pequena traineira (rapa)






Foi no Canjeque, entre a Praia Amélia e a Ponta do Pau do Sul, que em finais dos anos 1940, inícios de 1950 surgiu a 1ª pescaria, pertença da Sociedade Industrial da Ponta Negra Lda., cujos sócios eram Virgilio Nunes de Almeida, António Bernardino e Matos. Em seguida, com o desmantelamento das primitivas pescarias na Torre do Tombo, em plena baía de Moçâmedes, e a deslocalização das mesmas, transferiram-se para ali algumas delas , como foi o caso da pescaria de Eduardo (Aníbal) Nunes de Almeida, mais tarde vendida à sociedade Manuel Vicente e Joâo Viegas Ilha.

As instalações da Sociedade Industrial da Ponta Negra Lda, mais tarde desfeita, deu lugar à  «Projeque», Sociedade Anónima por Acções, de que faziam parte um grupo de industriais cujas pescarias  haviam sido desmanteladas por força da construção da avenida marginal e do porto de cais.

Numa primeira fase, a Projeque esteve voltada para a indústria de peixe seco, tendo porém evoluido para a industrialização de farinhas e óleos de peixe, para o que teria contribuido a entrada de novos associados, entre os quais António Gonçalves de Matos, José Cicorel, Lourenço, e outros que a memória não permite recordar.

A «Projeque», tendo à sua frente os administradores Carlos Manuel Guedes Lisboa e João Viegas Ilha, viria a ser um dos empreendimentos que obteve maior sucesso em Moçâmedes, reportando-me, é claro, às condições com que esta Sociedade fora criada, ou seja, por pequenos industriais deslocalizados e
sem qualquer ajuda do Estado, e tendo em conta que outros tantos deslocalizados que desta sociedade não quizeram fazer parte, acabariam por sucumbir ou por se dedicar, até ao fim dos seus dias, à pesca à linha e venda de peixe fresco destinado às peixarias.

Moçâmedes possuia várias industrias de pesca de sucesso , entre as quais seria de salientar a de Joâo Duarte e a Venâncio Guimarães, ambas na Praia Amélia e as de Torres e Irmão e de Patrício Lda. , ambas
no Saco do Giraúl, para além das muitas mais que existiam em todo o distrito que englobava Baía dos Tigres, Porto Alexandre (Tombwa), Pinda, Cabo Negro, Baia das Pipas, Mucuio, Mariquita, Chapéu Armado, Baba, São Nicolau (Bentiaba), Vissonga, Lucira.



Sobre pesca em Moçâmedes: clicar AQUI
Fotos (4ª, 5ª e 6ª) gentilmente cedidas por Pedro Ilha.

Arte de Pesca em Moçâmedes; Traineira Carlos Lisboa















Inauguração da Traineira da Projeque, a "Carlos Lisboa" , em Agosto de 1968. Foto gentilmente cedida por Pedro Ilha.

A arte de pesca em Moçâmedes: Traineiras de João Duarte































1ª foto : A traineira de João Duarte, «Maria Margarida» passando junto a um navio de passageiros, ancorado ao largo, na baía de Moçâmedes.

Desconheço a data desta foto, onde traineira e navio se encontram embandeirados, mas tudo indica que tenha sido tirada
no decurso da visita do Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, quando a inauguração do 1º troço do cais do porto de Moçâmedes, em 24.05.1957, cujas obras haviam sido iniciadas no dia 24.06.1954, por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.

Para ver fotos sobre esta visita clicar AQUI
Para ver fotos sobre a visita a Moçâmedes do General Craveiro Lopes , clicar AQUI.

Esta foto encontrei In Mazungue

2ª foto: Outra traineira do mesmo proprietário, a «São João de Deus».



Moçâmedes era o distrito de Angola onde a população branca era em maioria. Isto acontecia porque ao chegarem ali os portugueses apenas encontraram duas pequenas tribos vivendo junto das várzeas dos rios Bero e Giraúl, dos sobas Mossungo e Giraul respectivamente, os restantes povos do Distrito viviam em regime nómade, seminómade  camcurreando o Deserto do Namibe, na busca de pastos para os seus bois. Eram todos eles avessos à integração,  havendo desde sempre grande dificuldade no recrutamento de trabalhadores para ajudarem na  agricultura e na arte da pesca. 

De início eram escravos recrutados no centro e norte de Angola, junto dos sobas, e chegaram a ser distribuidos por Moçâmedes escravos libertados de navios de tráfico negreiro para o Brasil e Américas que operavam na clandestinidade e iam sendo apresados clandestino após a entrada em vigôr do Decreto de abolição de Sá da Bandeira.  Por esta altura, o recurso era o contrato a tempo certo, geralmente por 2 anos, e o recrutamento era efectuado através de angariadores e da autoridade administrativa da zona em conjunto com o «soba», ou seja, a autoridade tradicional de cada região. Numa primeira fase o salário estipulado era-lhes pago no final de cada mês, a partir de determinada altura, parte do salário passou a ser depositado mensalmente pelo patronato na Administração do Concelho, para lhes ser entregue no final do contrato.

O contrato incluía alojamento, roupa de trabalho, cobertores, e uma base de ingredientes para a alimentação da sua preferência (tomate, farinha de milho, óleo de palma, peixe seco ou fresco (preferiam o seco), feijão, carne, limão,
batata doce. Os trabalhadores contratados podiam contar também com assistência médica e medicamentosa que era fornecida pelo médico e enfermeiros do Sindicato da Pesca do Distrito de Moçâmedes, ao qual os seus «patrões» estavam associados. Alguns desses trabalhadores no final do contrato e após terem regressado às suas terras, voltavam por sua conta para as pescarias, já sem qualquer contrato, e ali ficavam como capatazes, motoristas, etc, mas eram raros os que o faziam porque a maioria regressava aos seus «kimbos» de origem, no interior, onde se dedicavam à agricultura, criação de gado, pastorícia, etc. O gado era a sua maior riqueza e muitas muitas vezes acontecia chegarem às pescarias para trabalhar em regime de contrato, indivíduos cujos pais possuíam em gado uma pequena fortuna.

Os salários bem como o preço do pescado eram os estipulados pelos orgãos estatais, e, escusado será dizer que eram irrisórios, em consequência do regime de então que organizava e detinha o leme da sociedade, e porque a rentabilidade por vezes não dava para muito mais. Para além de que muitos dos «patrões» iam sobrevivendo sempre dependentes das crises cíclicas do pescado e do baixo preço a que o mesmo era colocado nos mercados.


«Quimbares»
, chamava-se assim, o povo de origem africana desde há muito enraizado em Moçâmedes, urbanizado e aportuguesado, que vivia na periferia da cidade, mas não totalmente integrado, porque na sua maioria eram iletrados, viviam na base da subsistência e nada preocupados em mandar os filhos à escola das missões que embora não cobrissem o território, já estavam bastante dissiminadas e  abertas aos não «assimilados».


23 julho 2008

Artes de Pesca em Moçâmedes: Taineiras de João Duarte na Praia Amélia






























1ª foto: Esta era uma das traineiras de Joâo Duarte, baptizada com o nome de «Zita Lourdes», a
filha mais velha do proprietário, e cujas instalações pesqueiras ficava na Praia Amélia, a 5 km da cidade de Moçâmedes. Ao fundo, podemos ver as instalações pesqueiras de Venâncio Guimarães: 1957

2ª foto: Esta é a 2ª traineira de João Duarte, baptizada com nome «Maria Margarida», em homenagem à filha mais nova do proprietário. Ao fundo, outra zona de pescarias, o Canjeque (na parte mais próxima à Praia Amélia).
Traineira construida nos estaleiros do Zé Alexandre, em Porto Alexandre.

Passarei a transcrever aqui uma passagem que encontrei in Mazungue
, escrita por um dos muitos netos de João Duarte:

«Bem este tema é muito importante porquanto umas das maiores riquezas de Angola eram os produtos naturais e derivados das pescas (peixe em conserva, peixe seco, peixe meia-cura, oleo de peixe e a farinha de peixe). Registe-se , de passagem que, Portugal foi (através de Angola), o 2º maior produtor mundial de farinha de peixe, logo a seguir ao Peru. As tecnologias usadas na fabricação da farinha de peixe era considerada (à época, anos 69/70) como tecnologias de ponta usadas e oriundas dos países e mais desenvolvidos do Mundo (por exemplo, a tecnologia norueguesa).
Por outro lado esta riqueza natural provocou a fixação de grande parte das colónias de portugueses que povoaram o litoral angolano - na maioria pescadores ou profissionais ligados à industria pesqueira oriundos das vilas pesqueiras de norte a sul de Portugal Continental. Daí que as cidades de Luanda, Lobito, Benguela, Moçâmedes e Porto Alexandre tivessem um desenvolvimento demográfico substancial .
Eu próprio vivi essa experiência através dos meus ascendentes - o meu avô, João Duarte, foi com 15 anos para Angola (Moçâmedes) e transformou-se num industrial de pesca, começando por comprar uma pequena embarcação a gasolina (baleeira ou sacada?), depois mais uma, mais outra e por aí adiante. Em 1968, quando faleceu tinha uma fábrica Praia Amélia -de farinha e óleo de peixe numa praia concessionada - a Praia Amélia -(junto a Moçâmedes) e três embarcações que garantiam a matéria prima - as traineiras São João de Deus, Zita Lourdes e Maria Margarida. Por outro lado o meu pai também comandou os destinos da fábrica mais moderna da Porto Alexandre - a SIAL - mandada construir por um consórcio de industriais de pesca de Moçâmedes e de Porto Alexandre.
Vão aqui algumas fotos das traineiras do meu avô e também da Praia Amélia onde estava localizada a sua fábrica e onde ele mandou erigir várias infraestruturas de betão que incluiam casas para os colaboradores qualificados e até uma pequena capela, abençoada pela sua Santa Padroeira - a Nossa Senhora dos Remédios (detenho um filme em 8 mm, agora em dvd, com a inauguração dessa capela!!!).

1ª Maria Margarida - havia uma grande preocupação em fotografar estes barcos quando vinham carregados de peixe, enterrados na água, não deixando descortinar todo o seu próprio esplendor marítimo...»

in Mazungue
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18 julho 2008

A 1ª traineira de Moçâmedes era pertença da família Grade

 


A 1ª traineira que sulcou os mares de Moçâmedes... A foto, inédita, foi-me cedida por José Vicente Arvela. A traineira encontra-se acostada em Portimão, podendo ver-se a meio o prédio a conceituada "Casa Inglêsa".



Esta enorme «traineira» que aqui vemos em Portimão encostada à muralha do porto, num local muito próximo da «Casa Inglêsa» (o café que tem à venda o melhor que se fabrica na doçaria regional algarvia), foi a primeira traineira que sulcou os mares de Moçâmedes. Chegada a Portugal, em tempos mais atrás, encomendada pela Cooperativa «Galinho», que se dedicava à pesca da sardinha, era movida a vapôr através de caldeiras. Mais tarde, por volta dos anos 1940, foi adquirida pela família Grade, oriunda de Portimão e residente em Moçâmedes, mas teve que passar pelos estaleiros de Portimão onde foi submetida a várias modificações, que incluiram a retirada do cano, uma vez que passou a funcionar a motor a gasoil.
 

ela fora ali comprada, levada num navio até Luanda, e de Luanda navegou pelos seus próprios meios até Moçâmedes, de onde rumou para a Baía dos Tigres, o local onde ficava a Pescaria do proprietário, por volta de 1940.

Foi levada até Luanda fazendo porte da carga de um navio, porém de de Luanda para a Baía dos Tigres, onde ficava a pescaria do proprietário, viajou pelos seus próprios meios. O primitivo nome que lhe foi então dado foi o de «Nossa Senhora da Luz». Ao chegar a Moçâmedes foi baptizada com o nome da filha do proprietário: «Maria José». 


Viajaram com ela, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e outros algarvios dedicados à arte da pesca, que acabaram por se radicar em Moçâmedes, onde ficaram até à independência de Angola, em 1975. Quando se deu a independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, esta enorme traineira já tinha sido vendida a uma sociedade de que faziam parte Virgilio Gonçalves de Matos, Francisco Velhinho e Miguel de Freitas. Perante o agravar dos conflitos entre os movimentos em luta, e a degradação das condições de vida na cidade de Moçâmedes, os sócios resolveram partir de avião para o Brasil, enquanto a traineira atravessou o mar, rumo às terras de Santa Cruz (Brasil), conduzida pelo seu mestre, de origem madeirense, cujo nome não recordo, que com ele levara a família constituída pela mulher seis ou sete filhos. No Brasil, mais propriamente em Santos, esta traineira acabaria por ser vendida dada a dificuldade na aquisição de licenças de pesca para barcos estrangeiros. Nesse mesmo dia em que a enorme traineira partiu de Moçâmedes, com uma diferença de horas, partiu também na sua traineira rumo ao Brasil, José Vicente Arvela. Nunca se encontraram pelo caminho. A primeira foi dar a Porto Seguro, esta, a S. Salvador da Baía.

Imagine-se o que foi a chegada à baía da traineira de José Arvela, sem prévio aviso às autoridades portuárias daquela cidade, com a bandeira portuguesa desfraldada ao vento. A traineira entrou descontraidamente e ficou ali fundeada à espera. Do modo como foram recebidos o seu proprietário jamais esquecerá. A bordo subiu o chefe do Comando do 2º Distrito Naval do Brasil - Salvador da Baía, que logo lhes ofereceu alojamento e alimentação por um ano.


Na foto, a traineira encontra-se acostada em Portimão, podendo ver-se a meio o prédio a conceituada «Casa Inglêsa», o café que tem à venda a melhor que se fabrica na doçaria regional algarvia . À dt, é visivel a torre de uma das Igrejas da cidade.

Ao ter sido adquirida pela família Grade, esta traineira, como referi, ainda passou pelos estaleiros de Portimão, onde lhe foi, por ex., retirado o cano que aqui vemos, por força da substituição do motor, e atribuido o novo nome, o de «Maria José», nome da filha do proprietário. Viajaram com ela, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e outros algarvios dedicados à arte da pesca, que acabariam por se radicar em Moçâmedes, onde ficaram até à independência de Angola, em 1975.

16 julho 2008

As grandes calemas de 1955 em Moçâmedes









 



A zona entre o Canjeque e a Praia Amélia, "Canjeque Sul," era e ainda é a zona menos resguardada e a mais batida pelo mar em época das "calemas", que de longe em longe fustigavam a costa de Moçâmedes, por tal seria a menos indicada para a construção destas pescarias. Mas não havia muito a escolher para os proprietários deslocalizados das primitivas pescarias da Torre do Tombo, por força da construção da marginal e cais comercial.

O lançamento da 1ª pedra que deu início à construção do porto de cais aconteceu no dia 24.06.1954, por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes a Moçâmedes, e a inauguração do 1º troço foi efectuada em 24.05.1957, com a visita a Moçâmedes do Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo a Moçâmedes, no paquete Uíge. Naturalmente foi dado um prazo para que antes do início da construção os pescadores e pequenos industraida Torre da Torre do Tombo abandonassem as suas pescarias e se deslocalizarem-se para outros locais.


Mas não foi-lhes concedida qualquer indemnização a pretexto de que as suas pescarias se encontravam estabelecidas na faixa marítima. Em nome do progresso, os pobres industriais expoliados das suas pescarias, na Torre do Tombo, tiveram que se afastar, e construir novas pescarias em locais mais afastados das suas habitações, sem qualquer ajuda, para em seguida veram inatalar-se no local onde existial algumas pescarias, a sul, a ARAN, (Associação dos Armadores de Pesca de Angola, SARL), de capitais metropolitanos. E viram a seguir chegar os arrastões a devastar os mares de Moçâmedes com uma outra forma de captura de peixe em grande escala como testemunha o site Mar de Viena . Moçâmedes tornou-se o porto base onde se passou a fazer os abastecimentos e descargas do pescado para os frigoríficos da AR, cujo homem forte, ou seja, o maior proprietário, constava-se, era o Almirante Henrique Tenreiro, que fazia parte do triunvirato Salazar/Cardeal Cerejeira/Almirante Tenreiro.

Quanto aos espoliados, estes para poderem continuar a trabalhar, sustentar suas familias, pagar os salários dos seus empregados, pagar as contribuições, tiveram, os poucos que o conseguiram, que erguer novas instalações pesqueiras, e o único local que se lhes oferecia, não muito longe das suas casas na Torre do Tombo, era a zona do Canjeque, a uns 3/4 km de distância. A zona mais a norte era excelente, mas a zona mais a sul era mais batida pelo mar e sempre perigosa em época de grandes calemas. Tiveram pois que à custa de inúmeros sacrificios e sem qualquer ajudas estatais, nem indemnizações, partir para esse solução, e foram muito poucos os que o fizeram. Aconteceu porém que um ano após a deslocalização forçada, em Março de 1955, as "calemas" foram avassaladoras, e durante dois longos dias destruiram pontes, arrancaram telheiros, partiram tanques de salga de pescarias recentemente inauguradas. Fácil será avaliar o montante dos prejuízos causados, que não podiam contar com quaisquer ajudas estatais em época de calamidades. Aliás, também a deslocalização forçada não havia dado lugar a quaisquer indemnizações.
Caberia ao Estado que deu a ordem de demolição das primitivas pescarias, zelar mais pela situação daquela gente, acautelado situações como esta, incluso deveria ter procedido antecipadamente a estudos da costa, e apontado os locais mais indicados para a construção de novas pescarias, interditando zonas não aconselháveis como esta. Mas o Estado não se preocupou tanto quanto seria de esperar com a sorte daqueles pequenos e médios proprietários que se dedicavam à faina já de si instável da pesca, mas que inda assim iam contribuindo para o engrandecimento do Distrito. Na escolha do local para a construção do cais-acostável, o Estado acautelou, dando a preferência à zona das primitivas pescarias, por ser a mais protegida das «calemas», não obstante menos espaçosa e arejada que a do Saco do Giraúl.

Outros houve que se juntaram em sociedade, compraram as instalações da antiga «Sociedade da Ponta Negra» que havia entrado em regime de falência, com dívidas de impostos ao Estado. Estes foram os únicos que tiveram algum sucesso, porque se tratava de uma zona do Canjeque mais abrigada, a norte, porém já estava lotada.
 


Perspectiva feliz da baía de Moçâmedes com as suas pescarias e profusão de barcos de pesca, tal como se apresentava antes do desmantelamento das antigas pescarias e início da construção do cais comercial e avenida marginal.


Encontravam-se aqui as pescarias de João da Carma/pai de João Martins Pereira conhecida por «Morgados», era a maior da zona; a pescaria propriedade do legado Pereira da Cruz (assim conhecido porque deixou os seus bens, incluindo as moradias que ficavam ao fundo , na continuidade da Rua 4 de Agosto, à Câmara Municipal da cidade); a pescaria de Manuel Paulo; a pescaria de Maurício Brazão; a pescaria de Óscar de Almeida; a pescaria de António Paulo ou António da Rita; a pescaria Ondina Lda (Sociedade de Matos (CTT) e Rosa (do RCM, ou Rosa da Rádio); pescaria de João Lisboa (sacada). A partir da pescaria de João da Carma até à zona próxima da Ponta do Pau do Sul, então conhecida por «Pedras», ficavam pescaria de José Pedro dos Santos (Capagalos); a pescaria de Domingos Viegas Seixal; a pescaria de Virgilio Nunes de Almeida; pescaria de Aníbal Nunes de Almeida; a pescaria de Mário dos Anjos Almeida e a pescaria de Raul Pacheco.A seguir às instalações do Sindicato da Pesca e da Fábrica de Conservas SOS, e até aos estaleiros quase a chegar à base da Fortaleza, ficavam as pescarias  do Ilha, do Manuel Teixeira (Cambuta), Manuel de Faro, 
Por esta altura, finais da década de 1940, havia também na Praia Amélia, as instalações de Venâncio Guimarães e de João Duarte; no Cangeque a Sociedade da Ponta Negra Lda. dos sócios Virgilio Almeida, António Bernardino e A. Matos; no Saco a de Torres & Irmão Lda, e outras mais pequenas que não recordo de momento..
De facto a deslocalização forçada não chegou a dar lugar a indemnização como se esperava, porém convém dizer que, para os proprietários de todas estas pescarias (cerca de dúzia e meia) , o Estado português representado nas pessoas do Ministro do Ultramar, Governador Geral de Angola, Governador do Distrito (Vasco Nunes da Ponte) e ajudado pelo Grémio dos Industrais de Pesca do Distrito de Moçâmedes e Banco de Angola mandou edificar no Saco do Giraúl uma Fábrica de Farinhas e óleos de peixe a eles destinada, com o objectivo de formar entre todos uma socieddade, a União dos Industrais de Pesca da Torre do Tombo. Ou seja, uma Fábrica mecanizada, vocacionada principalmente para a indústria de farinhas e óleos de peixe, que acabou por se revelar uma iniciativa irrealista que os pescadores de menores recursos não puderam aproveitar, ou seja, os detentores daquelas pequenas pescarias familiares, habituados a trabalhar com peixe fresco e peixe seco, sem transporte próprio, uma vez que a mudança obrigava a grandes deslocações, não tinham qualquer hipótese de aderir ao projecto. E os poucos que aderiram ao novo empreendimento no Saco do Giraúl, deslocalizados para fora da sua área, acabaram por não ter o sucesso esperado. Outros pegaram nas suas pequenas economias, não esperaram pelas indemnizações que nunca mais chegavam, e retiraram-se para o Canjeque, zona junto da Praia Amélia, mais próxima das suas habitações na Torre do Tombo, tendo alí construido as suas pescarias. Mas muitissimo poucos o fizeram por falta de condições. A maioria resistiu à deslocalização, preferiu manter as suas pequenas embarcações na baía, dedicar-se à pesca à linha e ao estremalho (*) , passando a vender o peixe em fresco para as peixarias da cidade, e bastante mais tarde, após a construção da Serra da Leba, também para a cidade de Sá da Bandeira (Lubango)´. E lá conseguiram ir sobrevivendo... Mas houve também aqueles que, não conseguindo meios para avançar, acabaram na miséria.

 Os melhor sucedidos foram os muito poucos que se deslocalizaram para o Canjeque norte, com o empreendimento «Projeque», associando-se para o efeito. A sociedade conseguiu evoluir de indústria de peixe seco para a industrialização de farinha e óleos de peixe. 

Resta referir que o Estado não indemnizou, mas prometeu criar para os deslocalizados das suas pescarias na Torre do Tombo a «União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo», porém este projecto logo de início não agradou à maioria, na medida em que vinha colocar problemas de vária que foram colocados pelos «novos associados» e se resumiam mais ou menos no seguinte: 

1. Entendia essa dúzia e meia de pequenos industriais  que a instalação no Saco do Giraúl de uma fábrica de farinhas e óleos de peixe para onde deveriam remeter o pescado, ficava fora de mão, e que o produto da pesca não daria para  suprir as despesas com deslocações , sendo grande a perda de tempo nas mesmas.
 
2. Entendiam que a dita fábrica, apenas com uma traineira, não seria rentável e que chegados ali os barcos para descarregarem o pescado teriam que ficar à espera uns dos outros enquanto o peixe se deteriorava.

3.Queixavam-se os pequenos industrias que era ilusória a situação que se apregoava de virem a ser sócios participantes de uma excelente unidade de indústria munida de fábrica de farinhas e óleos de peixe nestas condições.


 O Ministério do Ultramar, o Governo Geral , o Banco de Angola, o Grémio da Pesca e cerca de meia dúzia de industriais de Pesca, quase todos modestos, conjugaram as suas vontades e as suas possibilidades para resolver os problemas desses industriais cujas instalações na Torre do Tombo tiveram que ser demolidas em consequência das obras do Porto. E dai vai nascer uma importante empresa. Alguns pequenos industriais tornar-se-ão, assim, participantes, sócios de uma excelente unidade da sua indústria. Creio que, noutras condições, isso constituiria, para a maior parte deles não só uma impossibilidade absoluta como uma oportunidade com que nem se ousaria sonhar. Espera-se que esta empresa tenha um bom futuro traduzida em lucros apreciáveis. Se assim for, a própria sociedade poderá e deverá adquirir embarcações modernas, essas embarcações serão de todos e os rendimentos da sua actividade serão repartidos igualmente por todos. Esta fábrica assume ainda relevo por apontar o caminho do futuro , o caminho que a industria de pesca de Moçâmedes terá de seguir o mais rapidamente que for possível: a mecanização completa da produção dos derivados de pesca.  

São conhecidas as dificuldades que são levantadas à exportação de farinhas de Angola, pelo facto de parte do produto não ser fabricado segundo os processos mais eficientes. Ora, a industria da pesca para a qual Moçâmedes contribui com metade , ou pouco menos do valor total, é actualmente como actividade económica que interessa a grande numero de pessoas e firmas a segunda de Angola. Os valores da sua exportação revelam um progresso constante, e entram na casa ds centenas de milhares de contos. Apresenta portanto a pesca um profundo interesse geral. O Grémio da Pesca em representação dos industriais do Distrito está conduzindo negociações para assegurar a esterilização das farinha de peixe. A esterilização será um solução imediata, que razões de urgencia exigem, mas não deve fazer esquecer a ínica solução plenamente satisfatória, que consiste, repito, na integral mecanização do fabrico.Só assim a industria de pesca angolana poderá competir com outros paises nos mercados comsumidores, onde a concorrência é cad vez maior. Sei que a direcção do Grémio da Pesca e, creio , a maior parte dos industriais, estão conscientes desta verdade e dispostos a conjugar as suas energias e as suas possibilidades com o esforço, que o Estado projecta realizar para o reapetrechamento da industria. Não me pareceu porem, receosa referência ao assunto , porque mesmo a verdade, para ter a aceitação geral, tem que ser repetida muitas vezes. Mas voltemos à presente cerimónia. A ela preside a esperança e a confiança no futuro.

Dentro de alguns meses, quem passar aqui verá, no lugar deste areal, uma fábrica excelente. E dentro de poucos anos, quem aqui passar, na povoação do Saco, visitará certamente fábricas novas, depósitos de carburantes, instalações portuárias e hortas verdejantes. Na verdade, meus senhores, o desenvolvimento do Saco está ligado ao desenvolvimento de Moçâmedes. E creio que o futuro não será ávaro com Moçâmedes.» (De o «Comércio de Angola»)

A fábrica acabaria por beneficiar outros que não aqueles para quem se destinava.
A vida era muito difícil naquele tempo. Existia uma flagrante falta de capitais em Angola, e não havia onde os obter. Os créditos bancários a longo prazo não eram uma prática corrente, não havia poupança, não havia investimentos, não havia macro desenvolvimento económico. Só havia um único banco, o Banco de Angola, o emissor da colónia, com sede em Lisboa, e este não fazia empréstimos aos pequenos industriais de pesca. Era o recurso ao "agiotismo" praticado por alguns moçamedenses que lá ia suprindo as necessidades de alguns e engordando um pouquinho a carteira de outros, num negócio de trazer por casa. Angola apresentava na época uma deflação (vazio monetário) crónica. As pessoas para contornarem o flagrante vazio de moeda. e conseguiam solver os seus compromissos, recorriam a letras e sucessivas reformas. Ter-se uma letra protestada (que não foi paga dentro do prazo) era uma enorme vergonha! Mesmo na indústria de Pesca que era a base da economia citadina era comum o uso do vale onde o devedor punha a assinatura e a data para que o fornecedor/credor permitisse levantar a mercadoria e pagá-la mais tarde.
Angola não dispunha de um mercado moderno, a industria sobrevivia, mas na base de salários baixíssimos, quase um mercantilismo do século XIX, e no caso das pessoas não disporem de poupanças não só tinham uma vida complicada como podiam esperar uma velhice de miséria, ou a dependência em relação aos filhos. e este não proporcionava crédito a longo prazo, o único que fomenta riqueza firme, e não pagava juros nem às pequenas poupanças.

Não me lembro de ter conhecido em Angola um milionário que vivesse permanentemente na colónia.
A concentração de todas as decisões em Lisboa foi total durante o tempo colonial e tornou-se uma obsessão. Angola nunca teve uma simples autonomia e ai do governador que ousasse ir um pouco mais longe auscultando os asseios das populações e agindo em conformidade. Em Lisboa sempre imperou uma mentalidade de poder absoluto em relação às colónias. Os povos coloniais eram encarados como crianças que precisavam de ser tuteladas e não eram ouvidos nem achados para nada. Por outro lado, o conhecimento científico da colónia deixava muito a desejar. Todos os estudos eram efectuados em Lisboa, daí os falhanços em algumas iniciativas mesmo que efectuadas com a melhor das intenções.


Fica aqui mais esta recordação de um tempo em que a vida não era fácil em Moçâmedes e que nada tinha a ver com o que por aí se apregoava e ainda se apregoa sobre a vida dos brancos naquela «África das mil oportunidades», obviamente, pela boca de quem alí não viveu, não assistiu, nem sabe aquilo que diz... Isto não é lavar as injustiças e discriminações que recairam sobre a outra parte da população, a de origem africana, bloqueada durante séculos na sua evolução civilizacional por culpa dessa mesma política emanada da Metrópole. 
MariaNJardim
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Calema: Fenómeno natural da costa ocidental africana, caracterizado por grandes vagas de mar. A ondulação forma-se no alto-mar e a ressaca origina correntes muito fortes que, dirigindo-se para a costa, rebentam estrondosamente, provocando graves estragos.

Estremalho: técnica de pesca que funciona com uma rede com dimensões de cerca de 200/300 mts x 2,5 a 3 mts (podendo aumentar ou diminuir, dependendo das posses de cada um), com «chumbicas» na parte que fica a tocar o fundo do mar e bóias no lado oposto com força para elevar a rede de modo a mantê-la de pé formando uma espécie de parede,sem nunca ser trazida à superficie, de forma a que o peixe ao passar fique preso e impossibilitado de se libertar das suas malhas.


Nota: A sul da Ponta do Noronha, corre a Praia Amélia e o respectivo e perigoso baixio onde naufragou a escuna de guerra que lhe deu o nome. Sobre o baixo Amélia onde com bom tempo se vêem numerosas barcos em plena faina pesca, na época de calemas erguem-se alterosas vagas de rebentação com capelo assustador.

Fotos inéditas do meu album de recordações.
 
Clicar para ver as primitivas pescarias, na Torre do Tombo