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12 outubro 2009

Toninhas (golfinhos), focas, pinguins, alcatrazes, albatrozes... no mar de Moçâmedes



Diving II










Quando se cita a fauna angolana ignoram-se as famílias de toninhas ou golfinhos negros brincalhões (1ª e 2ª fotos) que de longe em longe visitavam a baía de Moçâmedes aproximando-se dos banhistas (na zona entre a jangada e a Praia das Miragens) exercitando desse modo seu costume de salvar náufragos, porque para elas, qualquer ser humano nadando junto à praia é um náufrago potencial que deve ser empurrado para terra e nem sempre com a delicadeza que seria necessária. Essas negras e volumosas toninhas ou golfinhos que, de salto em salto, vinham avançando até aos banhistas causando-lhes momentos de pavôr, delírio e admiração.


Quando se cita a fauna angolana ignoram-se as focas que surgem nos meses de Junho ou Julho sulcando as águas das baías do sul de Angola ou refastelando-se nas areias das praias, tomando banhos de sol como qualquer um de nós.

I
gnoram-se os pequenos e engraçados pinguins de «casca preta e branca» (foto 9), que de quando em quando vinham até nós, e que não raro eram levados por algumas crianças para os quintais de suas casas onde facilmente se aclimatavam, e de tal modo, que era vê-los a serem levados por elas com o seu passinho bamboleado e uma corda atada ao pescoço, rumo à Praia das Miragens para uma saudável banhoca... E os albatrozes, os alcatrazes e os garajaus que voavam baixinho à espera da companhia dos barcos que viajavam para sul ou se atiravam ao mar em mergulho picado à caça do peixe que do alto anteviam.

Toda esta fauna se deve à corrente fria de Benguela, modeladora do clima, modeladora da costa e das várias ilhas e penínsulas sedimentares que se localizam sempre a norte da foz dos grandes rios (Cunene/Baía dos Tigres).
Se o mar do distrito de Moçâmedes era e é um mar riquíssimo em pescado, este aspecto fica dever-se à corrente fria de Benguela que constitui um dos mais importantes factores de moderação climática da zona.

Como funciona este assunto?

De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se «corrente fria de Benguela».

Cada icebergue que se desprende é um zoológico ambulante que vai arrastando consigo grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Porto Alexandre (actual Tômbua) e Moçâmedes (actual Namibe).

..................
Assim eternizou o poeta moçamedense, Angelino da Silva Jardim, o gesto vil que um dia, na década de 1950, fora perpetrado alí bem junto à Fortaleza e a praia, contra uma dessas focas que um dia a nós viera...



FOCA

Foi morta, a tiros vis, a foca, a Grande foca
Que, um dia, a nós viera,
Que deixara, no polo, a neve e a sua toca,
Seguindo uma quimera.

E que, depois, aqui, no centro do jardim,
Num tanque aprisionada,
Foi o enlevo, o riso, o mágico arlequim
De toda a pequenada!

Nostálgica do mar, sofreu a sua dor
Em paz e humildade,
Até que, um dia, um pobre sonhador
Lhe deu a liberdade!

Antes não fora assim, antes não fora,a morte
Rondava à beira-mar,
Toda incarnada em ti, homem de negra sorte
E de sinistro olhar!

A frio, sem tremer, sem uma hesitação,
O ente iluminado
Atira e atravessa, a rir, um coração
Ao seu sincronizado!

Guiou-lhe a mão letal o instinto assassino
Do homem das cavernas
Que a cabeça esconde em face do destino
E pensa com as pernas!

Nero era mau e vil, um ente sanguinário,
Um monstro matricida,
Que alimentava, em si, o sonho visionário
De destruir a vida!

Mas era simplesmente um bárbaro inculto,
Um cérebro doente
E a História, ao pesar o seu viver estulto,
Se queda indiferente!

Mas tu, filho da... luz, da civilização,
Que podes alegar
Se, um dia, a tua vil e criminosa acção
Alguém quiser julgar?!

Que foste previdente e a praia libertaste
De um animal feroz?
Ou que outra razão estúpida inventaste
Para o teu crime atroz?!
Para a sociedade és sempre o ilustre capitão,
Mas, para as crianças, tu... não passas de um papão
Que fere e que destrói a frio, sem piedade,
Sem alma, sem respeito e sem humanidade|!
Olha em redor, a vida é sonho e é grandeza
E tu vives também e és bicho com certeza!

Angelino da Silva Jardim

Poeta moçamedense


REZA DO CHACAL NA PRAIA DO NAMIBE

Sob o azul frio da rosa praia do esqueleto,
nesse deserto sem regresso e sem começo,
conhece a frágil foca cria o férreo preço
da estranha sede do chacal de dorso preto.

«Rego com o sangue da pequena foca triste
as dunas onde planto os ossos de gaivota,
e nesta horta a noite é dócil e derrota
o vento vil que contra o sonho não resiste.

Não chores, oh pequena foca triste, não
chores. Dos ossos da gaivota nascerão
caras de peixe, e dessas máscaras de mágoa,
sete ribeiros quais teus olhos doce água.»

Silêncio e noite no Namibe areal…
um oásis grita no uivo do chacal.


Autor: Mayyahk
(2002/01/01 23:55)

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Créditos das 5ª, 6ª e 7ªas fotos: Recordar Angola de Paulo Salvador

11 setembro 2009

Rui Duarte de Mendonça Torres, vencedor do 1º rally da Huila 1953



           Na foto: Rui Torres, vencedor do 1º Rally do Lubango em 1953, ostentando os seus troféus.

 

Foi no início da década de 50 que se deu o despontar o desporto automobilístico no Distrito de Moçâmedes. Nesses tempos participavam carros de turismo de diversas marcas e níveis de preparação, e até carrinhas de caixa aberta, todos disputando as provas e correndo juntos, sem distinção. Corria-se porque se gostava, por amadorismo, e os carros com que se corria eram os mesmos do dia a dia e até os pneus eram os mesmos, fosse qual fosse o seu piso. Mais tarde as pistas angolanas evoluiram com novas aquisições, entre as quais se salienta o Porsche 904 GTS adquirido por Henrique Ahrens de Novais etc., e na década de 70, as provas eram já divididas em "corridas" distintas de pilotos consagrados e de pilotos iniciados.

A Família Mendonça Torres




Se há famílias cuja história se encontra intimamente ligada à história da fundação da cidade de Moçâmedes, a família de Rui Torres é uma delas. Rui Torres, ou melhor, Rui Duarte de Mendonça Torres, fazia parte de uma 3ª geração dessa família  já nascida em terras de Angola.



Eduardo de Mendonça Torres (de branco), à dt. tendo à sua esq. Álvaro Vieira Ascenço. Foto tirada no     interior da "Casa Ascenso" gentilmente cedida por Telmo Ascenso


Filho de Eduardo de Mendonça Torres e de Maria Salles Lane, neto de António Florentino Torres e de Maria Júlia de Mendonça, Rui Duarte de Mendonça Torres era bisneto paterno de Manuel Joaquim Torres (1815-1882) e de Maria José da Costa Torres (1827-1912), um dos casais que, acompanhados de sua filha Amélia Torres, participaram da 2ª colónia de emigrantes que, chefiada por José Joaquim da Costa , partiu de Pernambuco (Brasil) no ano de 1850, fugindo à revolução praeeira, para se juntar à 1ª colónia chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que havia chegado a Moçâmedes, na Barca «Tentativa Feliz», no dia 04 de Agosto de 1849, para dar inicio à colonização do Distrito.

Rui Duarte de Mendonça Torres era casado com Maria Edith Serra, e tinha duas irmãs:
.Maria Antonieta de Mendonça Torres
.Maria Eduarda de Mendonça Torres
* 06.08.1917, casou com Clemente Agostinho Branco Carmona em Ang. Moss. 23.09.1939

Manuel Joaquim Torres e Maria José da Costa Torres (naturais da Ilha de S. Miguel- Açores)
já eram pessoas endinheiradas quando partiram do Brasil, e em Moçâmedes foram proprietários, entre outros, de uma fazenda na Várzea dos Casados. Seus restos mortais repousam em mausoléu  no Cemitério de Moçâmedes (Namibe), no qual se encontram gravados os seguintes dizeres: «Cidadão digno e soldado valente, derramou o seu sangue pugnando pelas liberdades pátrias nas lutas fratícidas de 1822». A filha que os acompanhou, Amélia Torres era casada com Manuel José Alves Bastos, componente da 1ª colónia, comerciante e proprietário que se dedicou ao comércio de marfim e gado, às actividades agrícola com plantações, e também à pesca e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos na época. Repousam em jazigo de Família, no cemitério de Moçâmedes.

Os avôs de Rui Duarte de Mendonça Torres, António Florentino Torres (+ Angola, Moçâmedes 27.08.1932) e Maria Júlia de Mendonça (Angola, Moçâmedes 21.06.1866), tiveram a seguinte descendência:

.Maria Adelaide Zuzarte de Mendonça Torres * 01.05.1886 , casada com José Augusto de Miranda Cayolla
.António de Mendonça Torres
.Eduardo de Mendonça Torres
+ Maria Salles Lane
.Beatriz de Mendonça Torres * 05.09.1887 + Francisco Alexandrino da Silva
.Manuel de Mendonça Torres .
.Maria Amélia de Mendonça Torres .
.Albertina de Mendonça Torres * 01.11.1900 , casada com Augusto Mendes Pereira Godinho
.Branca de Mendonça Torres, casada com Carlos Laidley Guedes Águas



A família Mendonça Torres foi durante muito tempo uma das famílias melhor posicionadas socialmente em Moçâmedes. O interior casa
de Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres, em 1885(?), uma das primeiras casas a serem ali construídas, mantinha as características dos lares das burguesias metropolitanas «aristocratizadas» da época, quer no mobiliário, quer na indumentária das suas femininas representantes. Ali não faltavam quadros a óleo, pratas e cristais cintilantes, o tradicional piano, instrumento que fazia parte da educação de uma menina prendada, e aos serões familiares as senhoras reunidas à volta de uma grande mesa, bordavam ao bastidor, coziam, faziam leituras em voz alta, tocavam, cantavam, etc. etc. (vidé foto e descrição, clicando AQUI).

O nobre edifício de linhas clássicas que foi propriedade desta família, situado no caveto das então Ruas dos Pescadores e 04 de Agosto, e que conheci já como Hotel Central alugado à família Gouveia, serve hoje de Museu na cidade do Namibe, onde repousam os «restos do Império».


O culto da arte de bem receber desta família esteve presente em 1932, quando por ocasião da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, foi servido um almoço na residência de Eduardo Mendonça Torres e de sua esposa, Maria Sales Lane, na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição», na zona do rio Bero, conforme se pode ler no Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330:
 
«...Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva.
A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, daquela deliciosa festa íntima. O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse:(vidé discurso pg, do mesmo Boletim) .
Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.

Quanto à impressão que causou aos visitantes a Fazenda desta família, fala por si a pena de um dos jornalistas que nessa altura a visitaram:
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.» (vidé mesmo Boletim)

No decurso dessa visita, Eduardo Mendonça Torres acompanhou o Presidente da República na tradicional caçada no deserto de Mossâmedes, onde, no Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço e no local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – foi prestada homenagem à memória do professor e naturalista, tendo-se seguido a caçada propriamente dita, com o abate de várias gazelas e guelengues, enquanto operadores cinematográficos filmavam. Ao almoço o General Carmona ergueu um brinde a Eduardo Mendonça Torres, felicitando-o pelo «belo tiro certeiro».(vidé o mesmo Boletim) .

Outra figura de destaque desta família foi o Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, cuja obra “O Distrito de Moçâmedes”, de sua autoria (edição da Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950), são dois volumes considerados o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe. Manuel Júlio de Mendonça Torres, sabe-se também, foi um ardente apóstolo da causa que levou à inauguração da solene da «Escola Primária Superior Barão de Mossãmedes» (in “O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro). Foi professor de Português e História nessa «famosa» Escola que ficava situada nuns prédios voltados para Avenida da República, paralela ao mar, e que preenchia toda a Rua transversal até à Rua dos Pescadores, onde leccionou desde princípios dos anos 20 até princípios dos anos 40(?), quando resolveu fixar-se em Lisboa, onde passou a escrever para os jornais e revistas oficiais, e se dedicou a escrever os dois volumes do seu belo livro sobre a História da nossa Terra (*). E onde veio a falecer nos anos 50.


As «Hortas» da família Torres, junto do terrenos férteis do Rio Bero, eram verdadeiro Oásis em pleno deserto do Namibe, e estavam abertas à visita de todos os moçamedenses que a quisessem visitar. Ali junto ao bonito «challet», onde se estendiam longas fileiras de mesas, à sombra amena de frondosas árvores de frutos tropicais e mediterrânicos: mangueiras, tangerineiras, laranjeiras, nespereiras, goiabeiras, videiras (em latadas), etc., etc., faziam-se piqueniques que ajudavam a preencher, agradavelmente, os fins de semana de muitas famílias, numa terra onde a luta pela vida era o pão nosso de cada dia. Nas «Hortas» da família Mendonça Torres sequer faltava um mini-zoo com vários animais do deserto, cabrinhas de leque, zebras, guelengues, etc., que faziam o encanto de adultos e crianças, sem esquecer o grande tanque cheio de água (bebedouro dos animais) que servia de piscina onde os mais novos se iam banhar. Alí não havia restrições, e as crianças podiam correr, saltar, brincar, trepar às àrvores à vontade, colher frutos, comê-los, e, na hora do regresso a casa, as famílias sempre podiam contar com a graciosa oferta de saborosos frutos. A exploração pecuária desta família situava-se na zona semi-desértica do Caraculo onde, recordo, a família possuíam uma casa de tipo colonial situada no topo de um enorme rochedo granítico.

O último gestor dos bens desta família foi Rui Duarte de Mendonça Torres
. Rui Torres também deu a sua contribuição para a vida associativa moçamedense, que foi vasta e diversificada. Esteve ligado, entre outros, à fundação do Rádio Clube de Moçâmedes, ao Corpo Directivo do Atlético Clube de Moçâmedes, ao Aero Clube de Moçâmedes, ao Clube Nautico de Moçâmedes, à vereação da Câmara Municipal da cidade, à Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Moçâmedes, à direcção do Grémio dos Industriais de Pesca de Moçâmedes e por último ao Instituto da Industria de Pesca.

Rui Duarte de Mendonça Torres era uma figura simpática e jovial, e foi , como já anteriormente foi aqui referido, o vencedor do 1º Rally do Lubango em 1953 conduzindo uma carrinha Ford de caixa aberta como podemos ver na foto acima , representativa desse tempo que foi o do arranque desta modalidade. Essa fora a primeira e a única vez que foi permitida a utilização desse tipo de veículos em rallys.


MariaNJardim

Alguma bibliografia:
«O Distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres»

“O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro
Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330
GeneallNet
 Interligação:
Genealogia da família  Zuzarte de Mendonça in Geneallnet



Retirado de Geneallnet: 
Na relação dos colonos de 1850 vem, a pp. 483, a referência a "Manuel Joaquim Torres, casado com Maria da Costa Torres e sua filha Amélia" (sic). E, em extra-texto, entre pp. 378 e 379 vem publicada a fotografia de Maria José da Costa Torres, com os seguintes dizeres: " N. 1827 - f. 24 Jul. 1912, natural da ilha de S. Miguel, proprietária, componente da Segunda Colónia; foi esposa de Manuel Joaquim Torres, tambem componente da Segunda Colónia. Repousa, em jazigo de família, no cemitério de Moçâmedes" (sic).

Ora aquele Manuel Joaquim Torres (n. 1813) foi, segundo consta da Genea, casado com Maria José da Costa (n. 1827), tratando-se por conseguinte e provavelmente do mesmo casal, e aí (na Genea) se referindo que foram pais de António Florentino Torres.

Contudo, a tratar-se, como parece, do mesmo casal, resulta, mercê do que consta a citadas pp. 480, que o António Florentino Torres seria irmão da referida Amélia.

Aliás o António Florentino Torres foi casado com Maria Júlia de Mendonça Torres e tiveram 8 filhos, 5 raparigas e 3 rapazes (segundo a Genea), tendo a primeira filha nascido em 1886 e a última depois de 1900. E, percisamente o quinto filho vem aí identificado como Manuel de Mendonça Torres, mas será - creio - o Manuel Júlio de Mendonça Torres, autor do livro a que venho referindo-me. Acresce, curiosamente, que o casal António Florentino e Maria Júlia, de entre os 8 filhos tiveram uma filha (nascida em sexto lugar) de nome Maria Amélia de Mendonça Torres, provavelmente em homenagem à sua tia paterna de nome Amélia e que vem relacionada a citadas pp. 483. Esta foi casada com Manuel José Alves Bastos, componente da Primeira Colónia, e a sua fotografia vem publicada, em extra-texto, entre pp. 402 e 403 da obra em questão. De casada ficou com o nome Amélia Torres Bastos (cfr. ora citado extra-texto). By Fernando
  

 http://princesa-do-namibe.blogspot.com/2008/11/gente-do-meu-tempo.html#links



Ver também
 http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2012_10_19_archive.html
 

10 setembro 2009

Gente de Moçâmedes: década de 1950

















Olivia, Zezínha, Augusto Geraldo e Isabel. Foto tirado no Parque Infantil de Moçâmedes, numa fase inicial, vendo-se ao fundo o Colégio das Irmãs Doroteias.

Gente de Moçâmedes: Casa de Saúde do Sindicato dos Empregados do Comércio













À entrada da Casa de Saúde do Sindicato dos Empregados do Comércio, na Rua Felner em Moçâmedes, década de 1960, grupo de funcionárias do mesmo. Da esq. para a dt.
Atrás: Elizabete Ilha Bagarrão, Dores e ?
À frente: Marizette Veiga Baptista, Helena Felix Paulo e ?
Ver também AQUI

09 setembro 2009

Gente de Moçâmedes: Clementina Teixeira Castro seu casamento e seu poema




















Agradeço à Clementina de Castro Abreu a cedência desta foto que me dá a oportunidade de colocar neste blog figuras de duas familias antigas de Moçâmedes , que ainda aqui não se encontravam:a família Castro e a família Teixeira.

Da esq. para a dt: Julia Castro, Manuel Teixeira, ?, Isabel Castro, os noivos Clementina e Arnaldo Abreu, o Padre Guilhermino Galhano, Abreu (casado com Angelina Teixeira) e filha Manuela, César Castro, César Castro (pai) e Fernando Castro.
À frente e dt, Jorge Castro

Sem desprestígio para os demais, não quero deixar de fazer aqui uma referência à pessoa que foi Manuel Teixeira. Mais conhecido por Manuel Cambuta, devido à sua estatura, possuidor de uma pequena pescaria na Torre do Tombo daquelas que na década de 1950 foram demolidas por força da construção do Cais acostável e da Avenida Marginal, era uma pessoa de trato fácil e coração generoso, estando as portas de sua casa, mesmo ali bem junto à pescaria, sempre abertas para toda a gente. Manuel Cambuta nos tempos em que sua pescaria laborava e a sua baleeira trazia do mar o peixe suficiente para alimentar a sua familia e talvez enferrolhar algum, nunca dizia «não» a quem lhe pedisse ajuda, europeu ou africano, e à sua mesa sempre cabia mais alguém. Não era rico mas era generoso, porém, acabou por ser bastante penalizado uma vez que perdeu as instalações onde operava e nunca mais conseguiu recuperar.
Fica aqui mais uma recordação de gente simples e boa da nossa terra, e de um tempo que ficou para trás. Sobre Manuel Cambuta, vai um texto assinado por Arménio Jardim:



MANUEL CAMBUTA - In Memoriam
As novas gerações de Moçâmedes já não chegaram a conhecer o Manuel “Cambuta”, de seu nome de batismo Manuel Teixeira, de origem madeirense e seguramente descendente de humildes pescadores da Ilha da Madeira.
Manuel Cambuta possuía uma pequena e rudimentar pescaria na Torre do Tombo, no lado oposto à fábrica da SOS, situando-se entre elas a descida da SOS, essa, sim, bem conhecida por jovens e seniores.
Com a sua modesta indústria piscatória, dedicava-se Manuel Cambuta à salga e seca de peixe com base numa sacada e pesca à linha, cujos barcos acostavam à praia de águas mansas para a descarga manual do pescado, constituido regra geral por bonitas corvinas e cachuchos, taco-taco, carapau, cavala e também de vez em quando algum sarrajão.
Mais remediado do que rico, gordo, calvo, de tez rosada e de muito baixa estatura, donde aliás lhe advinha a alcunha de cambuta, o que mais caracterizava Manuel Cambuta era a sua inata bondade e compaixão.
A pescaria deixou de existir há longos anos, demolida que foi na voragem da construção da marginal e do porto commercial, atirando para a pobreza a maioria daqueles pequenos industriais, mas ainda consigo ver a casa de Manuel Cambuta, quase a meio da suave falésia que ia dar à loja do Nascimento, na Torre do Tombo.
Porta sempre aberta, primeiro um quintal, depois a escadaria de madeira para uma grande varanda de tipo colonial, no meio da qual existia uma enorme mesa rectangular e em cuja cabeceira estou vendo Manuel Cambuta, com aquele seu ar bonacheirão, mexendo e remexendo na papelada das contas por pagar.
Modesta mas farta, era uma bonita casa no sentido de que havia ali lugar para todo o mundo: brancos, pretos e mestiços entravam livremente naquela casa de bom convívio e boa gente, sem pedir licença. Até me faz lembrar o diálogo entre Irene, a preta, e S. Pedro, no poema de Manuel Bandeira: “Licença, seu branco? E S. Pedro, bonacheirão: “entra, Irene, você não precisa pedir licença”.
Talvez por isso, quando cresci e comecei a ler os livros de Jorge Amado muitas das suas descrições me conduziam à casa de Manuel Cambuta.
Não sei porquê, mas hoje veio-me à memória Manuel Cambuta, homem bom, amigo de todos, trabalhador de uma vida que nasceu pobre e pobre morreu.
A única fortuna que deixou foi a sua prole, que foi imensa, e a saudade de alguns já poucos amigos que ainda andam por aqui. Mais nada!






Voltando à Clementina, aliás sobrinha de Manuel Cambuta , vai um poema com que encerro este pequeno post dedicado a gentes da nossa terra.



Dedicado à minha terra

Moçâmedes onde nasci
E lá fiz o meu baptismo
Moçâmedes onde estudei
E aprendi o catecismo.

Ó minha terra natal
Onde aprendi oração
Na paróquia onde em criança
Fiz a minha comunhão.

Moçâmedes que me recordas
O dia do casamento,
Lá nasceram os meus filhos,
Não me sais do pensamento.

Moçâmedes tu serás sempre
Recordada com carinho
Desde o mar ao teu deserto
Percorri o teu caminho.

No deserto do Namibe,
Ó minha querida terra
Viemos nós para tão longe
Porque Angola estava em guerra.

A tua praia tão linda
Onde apetecia estar,
Em Março que bom que era
termos as Festas do Mar.

Não falando nos mariscos,
Que me estão a apetecer,
Pois desde que aqui cheguei
Não mais voltei a comer.

Ó terra da azeitona
Onde não havia igual
Também é terra das misses
Que vinham para Portugal.

Acho que por hoje já chega
Falar desse meu torrão
Por muitos anos que viva
Não me sais do coração.

Clementina de Castro Abreu

MariaNJardim

19 agosto 2009

Alberto Gomes, figura «lendária» da Baía das Pipas...

O ALBERTO
(.


O pisteiro era um elemento fundamental na caça. Sem ele a caçada quase sempre se transformava num incómodo passeio de jeep...

Um homem especial. O caçador. Que pertence a uma classe à parte dentro da estrutura social em África. Não é qualquer um que é caçador. Quanto mais primitivo o homem mais em harmonia com a natureza ele consegue viver. Respeita e teme as suas forças que em grande parte deste continente ainda se impõem como uma espécie de religião. Mas em África como em qualquer outro lugar do planeta nenhum ser humano hesita em se sobrepor ao que hoje se chama de equilíbrio ecológico, ao ambiente. Basta que a população cresça, que os pastos do gado faltem, que lhe proporcionem qualquer negócio, para ele derrubar a mata, esgotar a terra, e se mudar para zonas mais intocadas. Assim se fez desde sempre, e fizeram-no brancos, amarelos, índios e africanos. Todos sabem que dependem desse equilíbrio, e enquanto as pressões não forem superiores à sua capacidade de resistir, a Mãe Natureza vai sendo mais respeitada. Fora disso...

Um homem "mucubal" no seu ambiente (foto do blog hunakulu)

Em todos os continentes os povos sempre se dividiram, e dividem ainda hoje, socialmente, sendo uns guerreiros, outros comerciantes, outros ainda agricultores, etc. mas pelo menos em África o caçador era talvez o mais especial. O caçador e o ferreiro. Depois de ser escolhido para essa função, quer por hereditariedade ou por mostrar para isso aptidões, é ensinado pelos mais velhos numa arte que além de muita ciência tem um quanto de esoterismo. Só quem viu pode ter alguma idéia do que se trata. A profunda comunhão entre o caçador africano e o ambiente é impressionante. Eram estes homens que serviam de pisteiros aos caçadores, colonos ou europeus. Perseguir um animal sem eles era quase impossível. Na savana, na mata, na floresta, no deserto, o pisteiro sabe onde se encontra a caça e que tipo de caça. Sabe há quanto tempo passou o animal, que animal, e até quantos. Pelo corte de um folha de capim destingue o antílope que a comeu e há quanto tempo cortou aquela folha. Outra folha de vegetação rasteira, pisada e que tende a retomar a sua posição indica também o tempo que passou. Um galho quebrado. A profundidade da marca no chão. Os excrementos, que são indícios precisos.

O bom pisteiro sente no ar a presença da caça.
 
A cerca de trinta quilómetros para norte da cidade de Moçâmedes, hoje Namibe, o nome do deserto, há uma praia, a Baía das Pipas. À sua volta nada mais do que praia, muita praia, quilometros e quilometros de praias intocadas, o mar a poente o deserto no nascente. Ali a corrente de Benguela, ainda muito fresca, o mar riquissimo em peixe, frutos do mar, águas azuis, transparentes. Poluição é palavra desconhecida. Um lugar maravilhoso. Paradisíaco.

Nessa baía se foram estabelecer no princípio deste século XX dois pescadores portugueses acabados de chegar a Angola. Nada, nada havia ao redor. Nem uma cubata, que eles tiveram que construir para morar. Foram pescar e viver disso. Precariamente, em termos econômicos, mas sem que nunca lhes faltasse comida.

Ambos se juntaram, talvez até tivessem casado de papel passado, com mulheres indígenas, uma delas irmã de um soba da região, de quem tanto um quanto o outro tiveram boa dose de filhos. Cinquenta anos depois só um dos casais estava vivo, velhote, uns quantos filhos, sobrinhos e netos à volta. Moravam nessa altura em cinco ou seis casas já de alvenaria. A cidade mais longínqua que tinham conhecido era exatamente Moçâmedes! Uma existência de faina e vida tranquilas.

A cerca de trinta quilómetros para norte da cidade de Moçâmedes, hoje Namibe, o nome do deserto, há uma praia, a Baía das Pipas. À sua volta nada mais do que praia, muita praia, quilómetros e quilómetros de praias intocadas, o mar a poente o deserto no nascente. Ali a corrente de Benguela, ainda muito fresca, o mar riquíssimo em peixe, frutos do mar, águas azuis, transparentes. Poluição é palavra desconhecida. Um lugar maravilhoso. Paradisíaco. Nessa baía se foram estabelecer no princípio deste século XX dois pescadores portugueses acabados de chegar a Angola. Nada, nada havia ao redor. Nem uma cubata, que eles tiveram que construir para morar. Foram pescar e viver disso. Precariamente, em termos económicos, mas sem que nunca lhes faltasse comida. Ambos se juntaram, talvez até tivessem casado de papel passado, com mulheres indígenas, uma delas irmã de um soba da região, de quem tanto um quanto o outro tiveram boa dose de filhos. Cinquenta anos depois só um dos casais estava vivo, velhote, uns quantos filhos, sobrinhos e netos à volta. Moravam nessa altura em cinco ou seis casas já de alvenaria. A cidade mais longínqua que tinham conhecido era exactamente Moçâmedes! Uma existência de faina e vida tranquilas.
Um dos filhos, o Alberto, Alberto Gomes, um mulato grande, robusto, coração maior do que ele todo, uma mão enorme forte como uma torquês, simples, muito simpático, sempre sorridente e alegre, sorriso transparente como as águas daquele mar, uma figura humana que não se consegue esquecer.

Podia quem quer que fosse chegar à Baía das Pipas, a qualquer hora do dia ou da noite, que toda a família logo saía de suas casas para ver o que estava acontecendo! Quem os fosse visitar levava normalmente vinho e cerveja, batata, arroz ou algo de mercearia que pudesse complementar o que a natureza e o seu trabalho lhes dava. O deserto, onde às vezes se passa um e dois anos sem chover, junto à orla marítima tem um nível freático muito alto, o que permite manter o ano inteiro uma horta produzindo óptimos e frescos legumes. E aquela gente tinha-a. E muito mais: tinha o mar. Geladeira não havia nem dela muito necessitavam, porque o mar fornecia a qualquer hora tudo o que quisessem. Era só chamar alguns garotos, os sobrinhos, que corriam para a água e passado pouco traziam uma imensa variedade de peixes, camarão, lagosta, mexilhão, e um monte de outros frutos do mar. Imagine-se como eram frescos!
Depois, acender o fogo, esperar um pouco e deliciar-se com tudo aquilo! Entretanto o Alberto pegava na sanfona tocava uns fa-ri-funs em ritmo misto da terrinha dos velhotes com influencia angolana e saía um bailarico, porque mesmo que os visitantes não fossem de ambos os sexos, o que era raro, tinham como par as filhas, sobrinhas, uma irmã e até os pais, velhotes e engelhados os dois, que sempre davam o seu pé de baile!

A vida naquele canto quase esquecido do mundo era de uma pureza impressionante, e ninguém conseguia dali sair sem lá deixar um pouco do seu coração!
A velhota, talvez com setenta, oitenta anos, ainda se enciumava ao ver o marido dar um pé de dança com alguma jovem visitante! Era uma cena engraçadissima, ternurenta.

A inocência, o carinho e a alegria dessas festas deu como resultado levar a fama do Alberto a expandir-se Angola fora, pelos amigos dos amigos. Todos queriam conhecer essa rara espécie de homem! Chegou um dia ao pessoal da marinha de guerra portuguesa, que patrulhava a costa.


Uma bela manhã com tremendo susto e espanto, aqueles simples moradores assistem cheios de pasmo a um imenso navio de guerra, uma fragata, fundear em frente à baía, coisa absolutamente inédita. Os maiores navios que ali tinham ido eram algumas traineiras de pesca, a pescar ou comprar o peixe ou o marisco que aquela gente apanhava e criava em viveiros. Um navio de guerra foi além dum espanto um temor: o que quereriam?


Do navio sai um bote com dois marinheiros e um sargento, que ao desembarcarem são rodeados por toda a população local, que não devia ultrapassar umas vinte pessoas, entre adultos e crianças.
- Quem é o senhor Alberto?
Alberto, desconfiado, apresentou-se.
- O senhor comandante Navarro manda convidar o senhor para almoçar a bordo.
- A mim??!!!!
O humilde e grande Alberto convidado por um comandante dum navio de guerra para almoçar a bordo, era o máximo que ele nunca tinha esperado que a vida lhe proporcionasse! Correu a casa vestiu uma roupa melhorzinha e seguiu no bote. À chegada ao navio, a cerimonial guarda de honra, apitos, continências e apresentações, que todos queriam conhecê-lo, e o Alberto, grande e humilde, espantado e confuso, sem compreender bem o que lhe estava acontecendo, sempre com o mesmo sorriso aberto, franco.
O comandante, amigo de amigos, quis também conhecê-lo e achou que face à fama do Alberto esta seria a melhor maneira de lhe retribuir a simpatia que ele difundia.
Visita ao navio, surpresa e espanto atrás de espanto e surpresa, que finaliza com o almoço na sala dos oficiais. O Alberto não cabia em si de felicidade. Durante o almoço contou inúmeras peripécias da sua vida simples. Todos se divertiram e saborearam aquela alma.
No fim, o convidado, comovido com tanta honra que pareciam lhe prestar, e prestavam, abre os braços e só consegue exclamar:
- Eu, e os meus oficiais!
Foi a apoteose.
Se ele um dia pudesse ler esta singela homenagem que com muita saudade e respeito também para ele aqui fica...
Mas, lá na Baía das Pipas, se fosse madrugada ou já de tarde aproveitava-se para dar uma volta pelo deserto, que generoso também, sempre fornecia alguma peça de caça para complemento daqueles manjares divinos.
Numa das vezes saíram num Fusca dois dos visitantes e o Alberto que conhecia aqueles trilhos todos como as suas próprias mãos, apesar destas serem enormes! Nesse dia a caça parecia teimar em não aparecer. Uns cinquenta quilometros adentro do deserto encontraram um caçador mucubal, da tribo Cuvale habitante aquela região, que seguia tranquilo o seu caminho, aparentemente sem destino, porque parece que o deserto nunca leva a lugar algum! O deserto parece não ter fim.
Alberto mandou parar o carro e foi consultar aquele homem. Saber se ele tinha visto alguma caça ou se sabia onde encontrá-la. O homem, figura de legenda, pele escura como a noite, rosto sereno de máscara, sempre em silêncio, afastou-se uns vinte metros do carro, esteve quase imóvel por algum tempo, virou ligeiramente a cabeça para um lado, depois para o outro e quando se aproximou de novo, levantou um braço, apontou numa direção e disse secamente, na sua língua:
- Ngongo. As zebras estão ali.
As zebras ninguém iria matar, mas ver valia sempre muito a pena. Meteu-se o carro a caminho, andando com facilidade já que o terreno plano permitia correr a sessenta ou mais por hora. Andados uns quinze minutos, dez ou quinze quilometros, lá estava uma manada de zebras. Uns trinta animais. Exatamente na direção que o caçador mucubal indicara! Como ele o soube? Só ele sabe!
Valia muito a pena ir à caça só para ver o pisteiro conduzir os caçadores. Sempre em silêncio, passo ligeiro, nenhum detalhe por muito ínfimo que fosse escapava à sua atenção.
Muitos homens se ofereciam para acompanhar os caçadores, mas se não fossem pisteiros, a caçada não rendia, e até se chegavam a perder no mato!
Uma classe de gente muito especial.


Aahh! Baía das Pipas! Onde o Alberto guardava religiosamente num pequeno barraco coberto a chapa de zinco um velho Ford A, bem enferrujado com o ar do mar e com mais de 30 anos (isto em 1962 ou 3!). Era o orgulho dele: “o melhor carro para andar no deserto!” Devia ser mesmo. E prosseguia: “é só pôr um pouco de gasolina no depósito que ele pega logo”. Dizem-lhe os amigos visitantes: “Trabalha assim bem? Então vamos tirar do nosso carro que tem bastante”.
Comentário final do Alberto: “Só tem um problema. Falta-lhe a bateria”. Há quanto tempo?
“Bem, a última vez que o pus a trabalhar foi há uns nove anos”!
Grande Alberto!
  In "Contos Peregrinos a Preto e Branco" de Francisco G. de Amorim, 1998

Texto integral in
f.g.amorim










Alberto Gomes

Sobre este resistente patriarca da Baía das Pipas, homem de grande sociabilidade, amigo de todos e com a porta aberta para toda a gente e que do qual se dizia que herdara a força e a valentia de seu bisavô, Domingos Gomes do Armazém, (figura carismática, de longas barbas brancas, que mais fazia lembrar um profeta), transcrevo algumas passagens de um texto que encontrei no blog «Memórias e Raízes», de Cláudio Frota:


«... A África e a Europa estão contidas no seu sangue e na sua forma de conviver. Com os trabalhadores da pescaria fundada por seu bisavô, aprendeu o dialecto umbundo do povo munano da região do Huambo e Caconda do centro de Angola, o dialecto dos cuanhamas, (povo que habita a região sul fronteira à Namíbia), o quimbundo de Luanda, e com os familiares e amigos africanos da Baía das Pipas, o dialecto do povo mucubal, do Giraúl de Cima, o chamamento da sua mãe África, na voz de sua mãe D. Virgínia, irmã do soba, a autoridade tradicional.

 Virginia Isabel e Joaquim Gomes


Os familiares e amigos de origem europeia visitavam-no regularmemte no seu "retiro" na Baía das Pipas, onde os esperava uma saborosa caldeirada de peixe à moda do pescador algarvio ou uma moqueca de mexilhão, confeccionados pelo próprio Alberto Gomes, iguarias que não dispensavam, terminando com serões musicais. Na música, a concertina de outros tempos e o acordeon de tempos mais próximos onde abrilhantou festas particulares ou em colectividades, tornando-o popular em todo o distrito. Conhecedor de caminhos, era o guia e o caçador atento nas caçadas e nos passeios pelo deserto.

Possuidor de uma força física fora do vulgar, comparada à de Fernando Faquinha, este cerca de trinta anos mais velho e conhecido como "o Hércules de Moçâmedes", seu amigo e mestre de palhabote, mereceu o apelido de Lucanga, "o Duro e Invencível", quando numa pescaria de sardinha em Porto Alexandre, enfrentou e derrubou um grupo de cuanhamas, em defesa do mestre e proprietário do barco, o seu familiar Manuel de Carvalho.

(Fernando Faquinha "o Hércules de Moçâmedes" é descendente de João da Faquinha (*)referido mais adiante no texto. De um tio contam-se histórias de valentia nas viagens pelos portos do Mediterrâneo e um dos seus primos de nome João, sensivelmente da sua idade e morador em Olhão, "o algarvio mais forte do seu tempo", este, permaneceu somente um ano em África).

Outro acontecimento em que fez valer a sua invulgar força física, foi quando da preparação do casamento de uma sua serviçal chamada Vitória, noiva de um individuo de Malange chamado Cassessa. O boi que o noivo ofereceu para a boda investiu contra os presentes, cabendo a Alberto Gomes dominá-lo, segurando-o pelos chifres, derrubando-o de seguida. Alberto Gomes possuía a força e a valentia do seu bisavô olhanense Domingos Gomes do Armazém. Figura extraordinária de barbas compridas e temido pelos mais valentes.
O seu prestígio fê-lo regedor, a autoridade portuguesa naquela praia.

Aos sete anos já seguia os trabalhadores da pescaria nos seus afazeres. Fez-se aos remos das baleeiras da pesca à linha, remando trinta kilómetros por dia atrás da taínha até à foz do rio Giraúl, (On Gila Ul, significa "o caminho acabou" nome posto pelos mucubais quando ali chegaram), quinze kilómetros da ída e mais quinze da vinda, uma empreitada quotidiana dura, executada metro a metro. (Na foto, casas de moradia. Alberto Gomes morou na que fica atrás da mulemba, árvore plantada pelo seu tio Domingos Gomes há cerca de 77 anos, uma espécie de figueira.)

Apesar do trabalho braçal rude e violento aos remos das baleeiras e nos descarregar de cargas pesadíssimas que se impunha executar, (os barris de cimento chegavam a pesar 180 Kgs., confiando a si próprio a tarefa de os descarregar sozinho para que não caíssem e danificassem o casco de madeira das baleeiras), Alberto Gomes era conhecido essencialmente pela arte de bem receber, pela simpatia que irradiava, pelas histórias que contava, em suma, por uma personalidade cativante e encantadora. Não perdeu esta forma de estar na vida e as qualidades que o tornaram popular e famoso em todo o distrito de Moçâmedes e na cidade vizinha de Sá da Bandeira, hoje Lubango.
...»

Após a independencia, Alberto Gomes viveu na Baía das Pipas até ao ano de 1980, o ano em que, por razões de saúde da sua filha Sara, o destino o trouxe a Portugal. A dificuldade em obter o visto que o levaria de regresso à Baía das Pipas, numa altura em que a guerra civil atravessava Angola. impôs-lhe a fixação definitiva em Quarteira quando contava 59 anos de idade, na companhia de sua companheira de sempre a D. Carolina Teixeira, sua esposa, de origem madeirense, e mãe dos seus cinco filhos nascidos em África e avó de 28 netos.

Recentemente, já com 80 e muitos anos de idade, tivemos o prazer de o tornar a ver e cumprimentar no último encontro dos moçamedenses nas Caldas da Rainha, onde se apresentou rijo e afável como sempre.Alberto, um dia, como todos nós vai desaparecer, mas o seu nome ficará para sempre ligado à Baía das Pipas!



(*) Nas décadas de vinte e trinta, já o box era praticado na cidade de Moçâmedes, ainda que empiricamente, pondo em polvorosa os muitos adeptos fervorosos. Os pugilistas que mais entusiasmaram o público foram OCHOA e FAQUINHAS, na modalidade de pesos super pesados, correspondente a mais de 91 quilos. Era técnica com força... As respectivas sessões eram realizadas no palco do vetusto mas lindo Teatro Garrett, que na altura já albergava mais de quinhentos espectadores, entre plateia, camarotes e frisas. Ochoa, experiente lutador, e Faquinhas, homem corpulento e impetuoso, eram adversários temíveis. Este último demonstrava a sua brutalidade colocando um barril com vinho (100 litros) sobre o balcão da tasca que habitualmente frequentava. O primeiro prélio estava anunciado, e poucos eram os que acreditavam numa derrota de Faquinhas. Era visível o receio de Ochoa, mas confiante e concentrado entrou no ringue, sob as cordas. O gongo tocou! Punhos fechados, olhos nos olhos, os primeiros toques eram de ensaio. O truculento Faquinhas quase derrubara o adversário na primeira tentativa a sério. Ochoa protegeu-se, fitando-o. o que se repetiu nas seguintes investidas de Faquinhas. O público aplaudia freneticamente. A casa estava lotada. Terminara o primeiro assalto, o segundo, e no terceiro Faquinhas já evidenciava sinais de cansaço. Foi quando Ochoa desferiu o golpe de misericórdia. Faquinhas tombou! KO impressionante. Foi um delírio!

A desforra foi aceite por Ochoa e no novo combate realizado algum tempo depois, antes que se repetisse a sua consideração de vítima, Faquinhas derrubou o antagonista de forma visivelmente irregular. Imperou a truculência! Terminou tacitamente a luta!
In «Memórias Desportivas do Distrito de Moçâmedes- Angola Autor: Mário António Gomes Guedes da Silva
(data provável das fotos: 1955-60)







Curiosidades: "... Lembra-se o senhor Alberto Gomes da Baía das Pipas, hoje com 92 anos de idade, terem existido a residir na Baía das Pipas antes dos anos 1960, dois membros da família Sousa Ganho, o senhor Sobriano Ganho e o senhor Ângelo Ganho. Sobriano Ganho dedicava-se à pesca da mariquita (espécie de sargo), com gaiolas. Veio definitivamente para Portugal quando começou a falhar o peixe e uma grave crise de pescado se instalou e se prolongou por mais de um ano, e Ângelo Ganho que foi para Porto Alexandre para sócio da empresa J. Patrício Correia. Havia nessa empresa um sobrinho deste chamado Fernando Ganho, filho de Sobriano que exercía a profissão de soldador na fábrica de conservas. Em Moçâmedes trabalhava como guarda-livros (contabilista) Gilberto Ganho. No desporto moçamedense evidenciava-se outro elemento desta família, o conhecido hoquista do Atlético Clube de Moçâmedes Tolentino Ganho. J. Patrício Correia não resistiu à grave crise de pescado que se abateu sobre aqueles mares e acabou por falir como faliram algumas outras empresas dedicadas à transformação do pescado. Pensa-se, hoje, ter sido o ainda desconhecido El-Ninho o causador da falta de peixe no Atlântico com o aquecimento das águas e a consequente emigração das espécies ou o seu mergulho para águas mais profundas, fenómeno que se repetiu posteriormente noutros oceanos e que foi devidamente identificado com o El-Ninho." In Memórias e Raízes de Claudio Frota



Outras histórias de vida:


https://www.facebook.com/domingos.fernandesdesousa/posts/1193289570688106






Anatálio Gomes em 12 de Junho de 2019
 
"Faleceu o nosso querido tio Alberto Gomes, sentimentos de toda a família residente em Nazaré."

Um homem especial!



03 agosto 2009

Desporto motorizado em Moçâmedes (actual Namibe)-Angola: 1962

 
Mazungue. Foto: Pedro Ilha.



Moçâmedes era um pequeno e simpático burgo que sempre primou pela sua juventude apegada às práticas desportivas.
Recordo com saudade as décadas de 50, 60 e parte da década de 70,  décadas fantásticas em que parecia não haver ninguém entre os 12 e os 35 anos de idade que não estivesse mobilizado para qualquer tipo de modalidade, fosse futebol, basquetebol, andebol, hóquei em patins, vela, remo, ténis, ténis de mesa, caça submarina, pesca desportiva, ciclismo, desporto automóvel, motociclismo, etc. etc. Já dedicamos neste blogue, e no nosso outro blogue dedicado ao desporto moçamedense, as diferentes modalidades desportivas, cabe agora a vez do motociclismo e do ciclismo.

Na 1ª foto estão representados os "Valentinos Rossis, cabeças de pungo". Trata-se do
1ª circuito de velocidade de motorizadas que tinha a meta no Colégio das Madres, totalizando 15 voltas. Foi realizado em Moçâmedes, em Março de 1963.  São eles: "Júlio Pereira (pau)", "Zeca Chalupa", "Jorge Maló", "João Dinis", "Mário Monteiro (o maria do kiko)", "António Pedro "(Bolacha)", o vencedor; este o team Lusolanda. Por detras, conf. refere Bolacha in Mazungue : «que me perdoe, não me recordo o nome, era o "P-15" que corria em honda». Por detrás de Jorge Maló encontra-se Dolbeth e Costa (Lanucha), mais tarde General do exército angolano.
Créditos: Mazungue. Foto: Pedro Ilha.

A foto que segue chegou até mim com com a referência Moçâmedes.


 
Mazungue. Foto: Pedro Ilha.

Seguem algumas fotos tiradas já na década de 1970, em pleno Deserto do Namibe, ainda verde, naturalmente após o período das chuvas... Lembro aos nossos conterrâneos que este blogue é aberto à vossa colaboração.

 

 Fotos: Pedro Ilha in  Mazungue.



Corrida de bicicletas, realizada no decurso das festividades do "4 de Agosto" , no início da década de 1950, no qual salientaram Marreiros e Pinto (relojoeiro) Mazungue. Foto Salvador


23 julho 2009

Jovens de Moçâmedes em dia de Carnaval







Fotos do meu álbum, herdadas do espólio deixado pela minha sogra.

O Carnaval

O Carnaval em Moçâmedes, tal como nas diversas cidades de Angola, era uma tradição esperada com ansiedade sobretudo pelos mais jovens e pelas crianças, e redundava numa festa em que se fundiam as vivências urbana portuguesa e periferica e sanzaleira africana. Qual delas a mais aguardada?!!

De um lado, nas vésperas e antevésperas da grande festa, logo grupos de jovens "rivais" se juntavam e começavam a fazer "cacotes" , espécie de embrulhinhos pequenos feitos com papel de seda das mais diferentes cores, quando não mesmo de pepel de jornal, amarrados com fio onde acondicionavam  farinha de trigo ou de milho (fuba) no seu interior, destinados a serem utilizados à guisa de "Entrudo", em autênticas batalhas carnavalescas que se desenrolavam em volta da Avenida da República,  em torno das ruas da Praia do Bonfim,a descer até ao velho campo de futebol, e Rua Bastos, a subir até à Fortaleza.  Outra prática muito utilizada eram as bombinhas de mau cheiro e os jactos de água, para os quais tudo servia, até mesmo essas bombinhas mata-moscas. E ao fim da tarde era a vez das matinés dançantes nos salões da cidade, numa primeira fase, no Aero Clube e Ginásio da Torre do Tombo, a partir dos anos 1950 no Atlético e Clube Nautico, por vezes no Hotel central e no Ferrovia, ou em garagens de casas particulares (assaltos dee Carnaval).

Quanto ao Carnaval africano, geralmente desfilavam pelas ruas da cidade, desde a Aguada e Forte de Santa Rita à Torre do Tombo, em dois grupos, perfeitamente organizados: à frente iam os dançarinos e músicos, logo seguidos dos acompanhantes, que parando aqui, parando ali, iam exibindo a sua arte a troco de uns tostões. O pior era o rescaldo da festa, já bem bebidos, muitas vezes os grupos se encontravam de frente em determinada rua,  então já mais desorganizados, descompostos pelo suor e fragilidade dos trajes, e chegavam mesmo a defrontar-se entre si, tendo que intervir a polícia que de longe os observava, vigilante. É que havia mesmo rivalidade entre os grupos. Cada grupo esmerava-se nos limites das suas possibilidades. Não se misturavam. Evitavam-se mesmo. E as letras das músicas, ao som das quais dançavam e batucavam  sem descanso,  eram,  não maior das vezes uma critica ofensiva de um ou outro elemento do grupo rival. Ou mesmo uma critica disfarçada so sistema colonial.  E daí que deparando-se numa rua, ou retrocediam, ou faziam uma paragem para acumular energias, ou confronto se tornava uma realidade.

Foi inesperadamente que chegou o fatídico ano 1961, e nunca mais houve Carnaval de rua, nem para a periferica e sanzaleira população africana, nem para os que habitavam as zonas urbanas. Tinha sido proibido. Nunca mais houve de "cacotes" nem enfarinhadelas em plena Avenida da Praia do Bonfim, que nesses dias ficava completamente irreconhecível. Tudo acabou num repente, e perdeu-se de todo e para sempre  o Carnaval de rua, a verdadeira  essência do Carnaval moçamedense!